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por , especial para o LiceuOnline.

Problemática*: A integração, um estágio mais avançado do capitalismo moderno, no contexto da livre concorrência de mercado de uma determinada nação, pode ser considerada uma espécie de imperialismo interno? Se pode, como o capital monopolista gerado a partir desta mesma integração pode levar uma nação à um contexto de guerra tal qual a I e II Guerras Mundiais (num contexto de imperialismo externo, isto é, propriamente dito)?

 

Solucionática:

Lenin, à respeito do capital monopolista (objeto de análise) determina uma espécie de constante econômica generalizada: a livre concorrência de mercado, ainda que em estágios mais avançados, conduz ao monopólio. O caminho percorrido pelo capital industrial, dentro dos limites do liberalismo moderno, ao monopólio é determinado pela “integração” que, segundo ele, é uma manifestação do capitalismo já em estágio desenvolvido e avançado. Este estágio expressa uma dialética, ou seja, uma contradição, do capitalismo liberal: o próprio aniquilamento da livre concorrência, gerando uma espécie de imperialismo interno onde quem assume o papel de imperador são as grandes empresas integradas e o de imperado as pequenas empresas que buscam seu espaço dentro do mercado, e até mesmo a figura do “outro interno”, que segundo Marcos Del Roio,professor de ciências políticas da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), representam o proletariado, principalmente, e outros setores sociais que tem interesses distintos dos interesses expressados pelos grandes industriais.

Ellen Wood, em “Imperialismo Capitalista”, estende discussão com a seguinte constatação: este capitalismo monopolista, originado das disputas internas dos mercados de cada nação, projetam às suas colônias (incluindo a transformação desta relação e do próprio termo segundo os imperativos capitalistas) a necessidade de matéria prima e mercado consumidor, o que ocasiona, conseqüentemente, disputas extra-nacionais que, segundo ela, são imperialistas. Estas disputas são expressas de maneira mais clara e convincente no enredo da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, sendo a partir da última que o imperialismo se legitima como pura e simplesmente econômico, isto é, não de maneira coercitiva direta, mas através dos imperativos capitalistas e a lógica do mercado.

Esta integração, ainda para Lenin, que é fruto mesmo da própria livre concorrência de mercado, se manifesta empiricamente através dos cartéis, trustes, roadings e das sociedades anônimas do mercado de investimento em ações (bolsa de valores). Estes são exemplos de como grandes empresas, articuladas entre si e ainda, posteriormente, articuladas dentro de si mesmas (diretorias e gerências melhor exemplificadas pelos trustes, que didaticamente podemos entender como uma relação industrial vertical, dentro de seu próprio eixo, ao contrario dos cartéis, que são relações horizontais de mercado, isto é, de empresas e proprietários diferentes/distintos mas com os mesmos interesses econômicos de todo capitalista), conquistam, exponencialmente, espaços dentro do mercado assegurados pelo próprio principio liberalista da livre concorrência. Esta relação acontece de maneira dialética, pois encontra em seu “cerne” uma “natural contradição”. Esta contradição é: estas grandes empresas e industrias integradas e articuladas formam umas com as outras e, dentro de sua própria relação interna, uma corrente capitalista forte, praticamente indivisível, com poderes que vão para além da pura e simples concorrência econômica, tornando a entrada de novas empresas no mercado, ou ainda a própria manutenção de pequenas empresas ou empresas que não se submeteram à este novo imperativo de integração, quase impossível. Ou seja, se esgota aí a livre concorrência liberal e nasce, ainda que em estagio embrionário se comparado às relações de mercado posteriores e atuais, o monopólio generalizado.

O futuro das pequenas empresas e industrias e dos chamados “outsiders” é o seu desaparecimento do mercado. Podemos considerar esta relação de mercado onde existe a exploração das classes não-burguesas e a opressão economicamente violenta das pequenas empresas e dos outsiders pelos grandes investidores e empreendedores industriais, uma relação imperialista dentro de sua própria realidade de nação. Ou seja, um imperialismo interno pautado no monopólio da produção e do mercado. Para Ellen Wood, pautados no capitalismo monopolista interno, há uma busca pelas grandes potenciais que se destacam economicamente por mercados externos e fornecimento de matéria prima. Essa busca, que ocasiona conseqüentemente no monopólio externo (internacional) inclusive, gera disputas e revanchismos entre nações. É o início do imperialismo capitalista propriamente dito. Porém, o imperialismo capitalista puramente econômico, que obedece somente aos imperativos do mercado, é fruto justamente desta primeira série de conflitos imperialistas, que são a I e a II Guerras Mundiais. Isto quer dizer que, ainda nestas guerras, para forçar o monopólio de uma nação e legitimar a supremacia de seu capital, era necessário recorrer à apelativos extra-econômicos. Por isso a guerra é caracterizada por Hobsbawn como “Era do Massacre Total”.

Assim, com o final da II Guerra Mundial e a eventual vitoria principalmente dos Estados Unidos, temos a maior exemplificação destes dois tipos de imperialismo, o interno e o externo. Através do financiamento econômico que gera dívidas, mas também o papel decisivo assumido pelo poderio bélico demonstrado em Hiroshima e Nagasaki, os Estados Unidos da América conseguiram uma legitimação tão drástica de sua superioridade, que ultrapassa até mesmo a Inglaterra, se tornando a maior potencia econômica mundial. Graças, principalmente, à fortificação de sua economia interna, fruto das políticas de integração que dão origem ao capital monopolista mais respeitável do mundo.

 

 

*Este texto foi produzido em 2015 como avaliação para a disciplina de Contemporânea I de minha graduação em História, ministrada pelo professor Dr. David Maciel. A avaliação consistia em criar um problema e respondê-lo, e foi corrigida com nota máxima.

Sobre o(a) Autor(a)

Publicado no Liceu Online por:

Cristian Junior

Mineiro metido a engraçadão, corinthiano e professor. Mestre em História pelo Programa de Pós Graduação em História da UFG. Tem experiência na área de História Política, com ênfases em História do Brasil Recente, Neoliberalismo no Brasil, Governo Collor (1990-1992), História da Imprensa e Charges e História. Como membro de grupos de pesquisa, atua nas áreas de Capitalismo e História e Filosofia Contemporânea.

Comentários...

This Post Has 23 Comments

  1. Ótimo texto! A contradição entre a teoria e a prática da ideia de livre concorrência é clara. O Estado, que para as teses liberais, deve assegura-la é justamente quem a impede ao servir aos interesses dos grandes. Quero com isso dizer que a livre concorrência requer que o Estado limite o poder econômico de várias organizações, mas faz justamente o contrário, em nome justamente da… Livre concorrência.

  2. Muito Bom e super atual com a minha situação comercial,onde as pequenas empresas que tem capital menor pagam mais caro nas indústrias. Porque comprando um volume maior as grandes empresas pagarão mais barato em relação as pequenas e médias empresas por isso eu chamo isso de capitalismo de cabeça para baixo onde os que tem mais pagam menos.
    Obrigado pela inspiração Cristian💪👍

  3. Mano, dá uma revisada nesse texto. Ele está muito improvisado já que se trata de um excerto avaliativo. E por certo parabéns pelas considerações finais e a nota máxima. Saudades!

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