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por Matheus Botelho, especial para o LiceuOnline.

Tornou-se comum ver igrejas (neo)pentecostais exibindo bandeiras de Israel nos púlpitos e adotando símbolos judaicos como candelabros, shofar, tallit, além de pastores usando kipá ou incorporando palavras em hebraico nas pregações. Essas práticas judaizantes caminham lado a lado com um apoio acrítico ao Estado de Israel.

 

Para entender melhor, é preciso contextualizar quem chamamos de “evangélicos”. O apoio a Israel aparece sobretudo entre os (neo)pentecostais. Entre os protestantes históricos; luteranos, anglicanos, calvinistas, por exemplo, essa prática é menos comum. No Brasil, vale lembrar, a grande maioria dos protestantes evangélicos são de (neo)pentecostais[1].

 

Dispensacionalismo e os (neo)pentecostais

 

As origens do apoio evangélico a Israel nasce de uma teologia formulada no final do século XIX, conhecida como dispensacionalismo, criada pelo teólogo britânico John Nelson Darby. Segundo essa visão, a história da salvação é dividida em fases chamadas dispensações. O dispensacionalismo faz uma distinção clara entre Israel e a Igreja, defendendo que Deus teria planos diferentes para cada um, uma espécie de teologia da dupla aliança.

 

O conceito de Nova Aliança é central no cristianismo. Para a maioria das denominações, sejam católicas, ortodoxas ou as igrejas históricas do protestantismo, todas as promessas do Velho Testamento se cumpriram em Jesus Cristo, a Nova Aliança. Já para os dispensacionalistas, Israel segue um plano separado, e as promessas se referem à terra, ao reino e à nação

 

A teologia dispensacionalista ganhou grande força nos Estados Unidos. John Nelson Darby percorreu o país com suas pregações ao longo das décadas de 1860 e 1870, e o pentecostalismo nascente abraçou essa nova visão teológica. No decorrer do século XX, essas igrejas pentecostais chegaram à América Latina, especialmente ao Brasil.

 

Foi na segunda metade do século XX que houve um crescimento significativo das igrejas pentecostais, muitas delas vindas dos Estados Unidos com apoio do Departamento de Estado americano. No contexto da Guerra Fria, a CIA se preocupava com o avanço catolicismo progressista e os adeptos da Teologia da Libertação, particularmente fortes na América Latina e no Brasil. Nesse cenário, os Estados Unidos incentivaram a vinda de missionários evangélicos. Vale lembrar que, nesse mesmo período, o catolicismo carismático, que surgiu nos EUA com influências do pentecostalismo, também desembarcou no Brasil.[2]

 

Podemos notar que a teologia do dispensacionalismo é relativamente recente na história do cristianismo. Ela não tem base nos concílios ecumênicos, na patrística ou nos grandes teólogos clássicos, mas exerce profunda influência no movimento evangélico contemporâneo. Um evangélico comum não precisa conhecer John Darby, mas certamente está familiarizado com os princípios centrais de sua teologia.

 

Questões como a doutrina do arrebatamento e outros aspectos escatológicos, incluindo profecias e a ideia do reinado do Anticristo por sete anos, derivam do dispensacionalismo, que retoma a doutrina do milenarismo, presente no cristianismo primitivo. O milenarismo sustenta que Jesus Cristo reinará por mil anos na Terra, com base em uma interpretação literal de Apocalipse 20. Vale destacar que, mesmo entre os primeiros cristãos, essa doutrina não era unânime e foi logo rejeitada pela patrística cristã, inclusive por Santo Agostinho.

 

Aqui chegamos a outro ponto importante: a literalidade bíblica. Retomemos a pergunta: por que os evangélicos apoiam Israel? A Bíblia é a base do protestantismo como um todo, segundo o princípio do Sola Scriptura. As igrejas protestantes históricas, algumas delas litúrgicas, como o luteranismo e o anglicanismo, preservaram uma maior prudência na interpretação bíblica. Com a formação de novas denominações, surgiram diversas interpretações da Bíblia. Os (neo)pentecostais apresentam uma maior propensão ao fundamentalismo, ou seja, à interpretação literal do texto bíblico, evidenciando, muitas vezes, uma falta de hermenêutica. Eles leem o Velho Testamento de forma literal e com isso confundem o Estado de Israel, fundado em 1948, com o Israel bíblico.

 

Os (neo)pentecostais enxergam o Estado sionista de Israel como o cumprimento das promessas do Velho Testamento. Para eles, a existência de Israel é de fundamental importância para a volta de Jesus Cristo, que retornaria à Terra e reinaria por mil anos em Jerusalém, conforme o milenarismo resgatado pelos dispensacionalistas.

 

As implicações dessa crença são graves. Tais convicções justificam toda e qualquer ação militar de Israel, vão justificar o expansionismo, os assentamentos na Cisjordânia, o genocídio em Gaza. Os palestinos se tornam meros obstáculos nos “planos de Deus”. Ironicamente, a Palestina tem uma das populações cristãs mais antigas da história. Os católicos ortodoxos e romanos da Palestina são inexistentes para muitos cristãos do Ocidente. O apoio acrítico dos evangélicos é de muita utilidade para Israel. O Lobby Evangélico e o Lobby Israelense (AIPAC) são uma força influente na política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio. É comum parlamentares, tanto republicanos quanto democratas, justificarem ações no Oriente Médio com base na Bíblia.

 

A Posição das Igrejas Apostólicas (Católicos e Ortodoxos)

 

A Igreja Católica rejeita a doutrina do dispensacionalismo e o uso do Velho Testamento para a defesa de um Estado moderno. Tanto os ortodoxos quanto os romanos tiveram relações conturbadas com Israel. O Vaticano só reconheceu o Estado de Israel em 1993. As questões relacionadas ao domínio de Jerusalém e à situação dos cristãos na Terra Santa foram obstáculos para o reconhecimento por parte da Santa Sé, que temia que o reconhecimento de Israel fosse interpretado como reconhecimento integral de Israel sobre Jerusalém. O Vaticano defende a solução de dois Estados, como a maioria dos países.

 

A posição dos católicos ortodoxos é mais complexa. Vale ressaltar que os ortodoxos não têm uma liderança centralizada, mas sim patriarcados e igrejas autóctones. O Patriarcado de Jerusalém representa a maioria dos cristãos palestinos. Os ortodoxos, principalmente os ortodoxos do Oriente Médio, são mais incisivos na crítica ao sionismo. O número de cristãos palestinos teve uma grande queda desde a fundação do Estado de Israel, em 1948.[3]

 

Recentemente, em uma declaração conjunta[4], o Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, e o Patriarca Greco-Ortodoxo de Jerusalém, Teófilo III, condenaram o sionismo cristão, alertando que a ideologia sionista marginaliza os cristãos palestinos. O embaixador dos EUA em Israel, o fundamentalista evangélico Mike Huckabee, respondeu aos padres apostólicos, afirmando que os clérigos não devem reivindicar exclusividade sobre a cristandade.[5]

 

É importante ressaltar que durante a própria história, o cristianismo teve relações conflituosas com os judeus. O antissemitismo teve uma forte base cristã, na culpa coletiva dos judeus, a acusação de deicídio. Gerou séculos de perseguições aos judeus na Europa. Não só com bases católicas, mas também com bases protestantes. Lutero escreveu textos antissemitas, incentivando perseguição aos judeus. Os textos antissemitas de Lutero foram amplamente utilizados pelos nazistas para justificar o ódio e a perseguição.

 

O Concílio Vaticano II marcou uma mudança significativa da Igreja Católica em relação aos judeus. O documento Nostra Aetate (1965) buscou um maior diálogo ecumênico com a comunidade judaica, rejeitando a culpa coletiva dos judeus e afirmando a herança comum com os cristãos, inclusive no plano da salvação espiritual. Os judeus, segundo os católicos, têm seu lugar no plano da salvação, mas essa salvação se dá em Cristo.

 

A política Israelense a o apoio evangélico

 

Chega a ser uma grande ironia que boa parte da direita mundial e os evangélicos (neo)pentecostais hoje apoiem acriticamente Israel. O Estado Sionista foi fundado em 1948 com amplo apoio da esquerda mundial. A União Soviética financiava milícias sionistas desde a década de 1940 e reconheceu Israel antes mesmo dos Estados Unidos. Stálin tinha esperança de que Israel se tornasse um Estado socialista na região. De certa maneira, Israel adotou uma série de medidas progressistas, mesmo que apenas para judeus. Os kibutz socialistas só aceitavam judeus.

 

Israel foi governada pela esquerda trabalhista nos seus primeiros 30 anos de existência. Criou um sistema público de saúde, previdência, garantiu a presença de mulheres nas forças armadas e legalizou o aborto. Até hoje, certa esquerda liberal nostálgica sonha com esse Israel, mas esquece que foi sob os governos da esquerda israelense que se consolidou a limpeza étnica na Palestina.

 

É com a ascensão do Likud que os nacionais religiosos ganham mais força. Desde a vitória avassaladora de Israel na Guerra dos Seis Dias, o discurso messiânico se fortalece. Os evangélicos dos Estados Unidos veem Israel como o Israel dos tempos de Davi. A AIPAC, o lobby israelense, começa a ganhar força nos Estados Unidos na segunda metade da década de 1960, tornando-se um dos mais influentes de toda a política estadunidense.

 

O Likud passa a ser a força hegemônica de Israel até os dias atuais, governando juntamente com uma coligação de nacionais religiosos que falam abertamente, sem nenhuma censura, sobre a construção da Grande Israel, supostamente todo o território prometido aos antigos hebreus, “desde o rio do Egito até o Eufrates”.

 

Partidários em Israel que falam explicitamente em limpeza étnica da Palestina, em Grande Israel, contam com o apoio de parte significativa dos evangélicos. Como já foi dito, esse apoio é de muita serventia para Israel. Por outro lado, os evangélicos enxergam os judeus de forma idealizada.

 

Os judeus, para os evangélicos (neo)pentecostais, existem em função de uma escatologia. Os judeus são um povo plural; muitos são antissionistas, sejam eles laicos ou ortodoxos. Israel estatizou a identidade judaica ao ponto de que criticar o Estado de Israel passa a ser o mesmo que criticar os judeus. Esses críticos judeus são silenciados, chamados de “falsos judeus” ou traidores. Nesse sentido, faz-se necessário separar antissemitismo de antissionismo, uma confusão cada vez mais comum e incentivada por grupos que querem silenciar qualquer voz crítica a Israel.

 

A Importância da Teologia

 

Virou senso comum reduzir os conflitos do Oriente Médio a um economicismo, que a política externa dos EUA para a região é apenas pelo petróleo. Claro que a importância do petróleo não deve ser menosprezada, mas devemos nos atentar mais para as questões teológicas que fundamentam os conflitos no Oriente Médio.

 

Entender o apoio dos evangélicos a Israel é entender grande parte das intervenções dos Estados Unidos na região. Muitos de nós somos laicos, céticos, agnósticos ou ateus, mas as pessoas que lutam e morrem nesse conflito não são. O cálculo econômico passa para o segundo plano. Israel é governada por uma coalizão de fundamentalistas que falam a todo momento em acelerar a chegada do Messias.[6]

 

Os evangélicos escatológicos nos Estados Unidos têm uma profunda influência na política externa, assim como o lobby israelense. É notável a influência que um país do tamanho de Israel exerce sobre os Estados Unidos, ao ponto de que, na recente operação militar  no Irã, muitos analistas e até mesmo membros do governo Trump afirmarem que o ataque ao Irã ocorreu por pressão de Israel.[7]

 

O movimento evangélico no Brasil é uma versão dublada dos (neo)pentecostais estadunidenses. Copiam as músicas, as pregações, as profecias. É comum que as igrejas tragam algum pastor estadunidense para elaborar alguma profecia sobre o Brasil, que sempre se relaciona de alguma maneira com Israel[8]. Tudo isso acontece em meio a forte comoção, orações em línguas e sentimentalismo exacerbado, marcas do (neo)pentecostalismo.

 

Infelizmente, o fundamentalismo evangélico está cada vez mais forte no Brasil. Os partidos de extrema direita apoiam fortemente Israel também para acenar para esse segmento da população. Israel, tanto para a direita quanto para a extrema direita, virou o baluarte da civilização ocidental no Oriente Médio, servindo como contraponto ao “fundamentalismo islâmico”.

 

É comum o uso de conceitos como “civilização x barbárie”, colocando Israel em uma suposta missão civilizatória, categorias típicas do neocolonialismo. Os palestinos são reduzidos a terroristas, desumanizados, com sua história apagada. A morte de milhares de palestinos em Gaza é ignorada ou justificada em nome de fundamentos teológicos que são alheios à própria história da teologia cristã, que prega a salvação em Jesus Cristo, e não em um Estado moderno

 

 

[1] https://cbn.globo.com/brasil/noticia/2025/06/06/em-50-anos-percentual-de-evangelicos-sobe-de-52percent-para-269percent-diz-censo.ghtml

[2] SÁ NETTO, Rodrigo de. O partido da fé capitalista: imperialismo religioso e dominação de classe no Brasil. 1. ed. São Paulo: Da Vinci Livros, 2024

[3] https://www.monitordooriente.com/20191029-a-limpeza-etnica-dos-cristaos-palestinos-da-qual-ninguem-fala/

[4] https://infovaticana.com/pt/2026/01/19/patriarcas-de-jerusalem-alertam-contra-o-sionismo-cristao-e-sua-agenda-politica-em-terra-santa/

[5]https://www.ihu.unisinos.br/categorias/662234-embaixador-dos-eua-em-israel-responde-as-preocupacoes-dos-patriarcas-da-terra-santa-sobre-o-sionismo-cristao

[6] https://www.middleeasteye.net/live-blog/live-blog-update/netanyahu-israel-will-reach-kingdom-and-make-it-messiahs-return

[7] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/israel-arrastou-os-eua-para-a-guerra-diz-ex-chefe-de-contraterrorismo/

[8] https://pleno.news/fe/cindy-jacobs-diz-que-deus-vai-expor-mais-corrupcao-no-brasil.html

 

Para saber mais:

RAHEB, Mitri. Decolonizar a Palestina: a terra, o povo, a Bíblia. São Paulo: Paulus Editora, 2025. ISBN 978‑85‑349‑5796‑0.

SÁ NETTO, Rodrigo de. O Partido da Fé Capitalista: imperialismo religioso e dominação de classe no Brasil. Rio de Janeiro: Da Vinci Livros, 2024.

REINKE, André Daniel. Paixão por Israel: judaização, sionismo cristão e outras ambiguidades evangélicas. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2025.

 

Imagem de capa: Montagem por ChatGPT.

Sobre o(a) Autor(a)

Matheus Botelho

Licenciado em História, é professor da rede particular de Goiânia. Possui interesse em história política, relações internacionais, música e religião.
Publicado no Liceu Online por:

Jéssica Fernanda de Sousa

Edição - Liceu Online

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