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por Marcos Manoel Ferreira, Professor, especial para o LiceuOnline.

Há exatamente 79 anos o mundo assistiu estupefato, os horrores da insanidade humana, sob o pretexto de uma beligerância estúpida, testemunho de força e arrogância dos USA, contra o outrora sanguinário algoz asiático. Vidas inocentes, ceifadas precocemente, em nome da famigerada perversidade bélica.

É claro que o Japão e seus aliados — Alemanha nazista, a Itália fascista — na Segunda Guerra Mundial, contribuíram para um desfecho trágico — não que se justifique —, como o ataque aeronaval da Marinha Imperial Japonesa, a base naval estadunidenses de Pearl Harbor no Havaí, em 7 de dezembro de 1941. A resposta veio naquela fatídica e apocalíptica manhã de 6 de agosto de 1945 e os japoneses, foram usados como cobaias humanas para as aspirações estadunidenses, que se confirmaram no pós-guerra. Uma resposta desproporcional, com objetivos muito além do que “apenas” punir ou vingar dos japoneses.

Roosevelt o grande idealizador do famoso Projeto Manhattan, consumiu vultosos investimentos sem precedentes na história, esforço concentrado que envolvia os maiores físicos, químicos e cientistas da época, que após anos de pesquisas e milhões de dólares, estava pronta a mais letal arma que a humanidade já havia criado, a bomba atômica!

Quando o pássaro alado gigante, USS Indianópolis B-29, vomitou sobre a cidade industrial de Hiroshima, a radioativa e mortífera “Little Boy”, com um indigesto recheio de Urânio — 235 e liberando uma energia equivalente a 20 mil toneladas de TNT. Uma temperatura acima de 1 milhão de °C, sentida em um raio de 3 km de distância, provocando uma onda de choque, um vento que varreu Hiroshima a uma velocidade mais ou menos de 1.000 km/h. Acompanhada da bola de fogo, 100 vezes mais luminosa que o sol, um espetáculo patético sob o clarão da insensatez. Salve a inteligência humana e sua estúpida capacidade de autodestruição em nome do poder, da glória e da paz.

Robert Oppenheimer, afirmou “tornei-me a morte, destruidor de mundos”, grande cientista estadunidense, conhecido como o “pai da bomba atômica”. Demonstrou ao mundo a capacidade inequívoca para o massacre e a destruição em massa, pela glória dos vencedores e a catástrofe dos povos subjugados. “Se matamos uma pessoa somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis”, declarou o genial Charlie Chaplin.

A intensidade do impacto e o calor humano produzido pela racionalidade, muitas vítimas foram tragadas instantaneamente, evaporaram-se. Outras, calcinadas, dependendo do raio que se encontravam do epicentro da bomba. Estava rascunhado o tenebroso roteiro de um clássico filme de terror na terra do sol nascente. Zumbis-humanos, descarnando vivos, derretendo como cera aquecida, gestantes com seus ventres abertos, qualhando o rio Ota-gawa de corpos cinzentos, retorcidos e mutilados. Centenas, milhares de pessoas, pais, filhos, irmãos, todos igualmente vítimas da mesma dor, dilacerados pela covardia do inimigo e a honra da guerra, desesperados entre feridas cálidas e dolorosas, numa tentativa derradeira, do bálsamo e de delírio, mergulhavam nas águas turvas de sangue e indignação, em um abraço de afogados.

Não bastasse o martírio dos mortos-vivos, ainda foram agraciados por uma chuva negra, ácida, manchando a terra com o legado cancerígeno, cadáveres inocentes e insepultos, vítimas da brutalidade dos heróis e do terror atômico.

Após três dias da explícita demonstração da capacidade da maldade humana, discutido em Hobbes, “o homem é o lobo do homem” em Hiroshima, foi a vez de outra cidade japonesa, Nagazaki. Foi escarrada a também mortal “Fat Man”, recheada de Plutônio – 239, resultando em outro cenário catastrófico, assistido com perplexidade, pela segunda vez. A contabilidade funesta do genocídio oficial, sob aplausos de nobres soberanos e seus comparsas, foram em torno de 200 mil mortos — 120 mil em Hiroshima e 80 mil em Nagazaki —, além é claro, dos que morrem até hoje, vítimas de doenças congênitas, herança maldita dos que sobreviveram à hecatombe nuclear, que foram contaminados com exposição à radiação dos ataques.

A barbárie em nome da paz, descortinava a Era Nuclear, numa demonstração de força, exaltação da democracia padrão Tio Sam e da rendição incondicional japonesa. Que silenciou com a estupidez das armas nucleares e insanas, crianças, idosos, mulheres e inocentes. Que pagaram com o sangue vertido pela diplomacia atômica, frente a demência dos “mocinhos” da América, ad aeternun salvadores do mundo, cumprindo a missão divina de dominar — o Destino Manifesto —, a serviço da vingança com nome de justiça e da covardia, com status de glória, ovacionados pelos homens de bem!

Que a História e o distanciamento histórico dos fatos, continue tentando ensinar a humanidade, ainda que, a penosas lições, as consequências de suas ações, reflexões e o árduo labor das transformações. O passado imutável, latente, instrui e mantém viva a memória crítica, as vozes silenciadas, que constroem uma realidade revolucionária que reverbera. Mudar o presente de injustiças, desigualdades e invisibilidades, frente aos Organismos Internacionais, significa a possibilidade de um futuro ainda que incerto, um pouco mais esperançoso e pacífico. Como na mitológica Fênix, o povo japonês buscou nas cinzas o que o fogo queimou, reconstruindo um Japão ainda mais grandioso, admirável e inspirador.

Que o Dia Internacional para Eliminação Total das Armas Nucleares, instituído pela ONU como 26 de setembro, possibilite ao mundo, que jamais se esqueçam das guerras, das ogivas nucleares espalhadas por quintais alheios, pilhados e da barbárie humana, para que cultivemos a verdadeira paz propalada, a tolerância e a convivência pacífica. Evocar, refletir e reverenciar as vítimas do terrorismo nuclear vivido em Hiroshima e Nagazaki, bem como, suas dores e seus tormentos.  E todos aqueles, conhecidos ou anônimos, que dividem a mesma vala comum da indigência, da injustiça e da amnésia histórica. Como se gritassem: “nós que aqui estamos por vós esperamos”.

Portanto, historicamente, “na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre”, afirmou Eduardo Galeano.

Sobre o(a) Autor(a)

Marcos Manoel Ferreira, Professor

Pedagogo, Historiador e Escritor. Doutorando pela UFG (Aluno Especial) em Performances Culturais; Mestre em História – Cultura, Religião e Sociedade; Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Especializando em Relações Internacionais; Pedagogo com Habilitação em História da Educação Brasileira e Historiador. [email protected]
Publicado no Liceu Online por:

Edição - Liceu Online

Revista online de Humanidades. @liceuonline

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