A cozinha de Pit Dog é descrita de várias maneiras em relação às vivências dos sujeitos contadas através das memórias, refletida nas escolhas e no compartilhamento coletivo de um imaginário criado coletivamente. Como colocam Rocha e Eckert (2003), há uma adesão ou não dos sujeitos em meio a pensamentos em constante mudança, descrevendo imagens vinculadas aos tempos e aos espaços na cidade, criando um fluxo de cenários imaginados sobre o que já foi e o que é. Essa construção do espaço oferece opções ao consumidor enquanto escolha de identidades. No campo da culinária, Shove (2009) discute o consumo dentro da produção e do uso do tempo nas práticas diárias, como o horário de alimentação e a seleção de trajetos e espaços.
A memória e a identidade são expressões políticas dos habitantes, revelando uma convergência identitária da cidade. A culinária e a cozinha de Pit Dog não escapam a esse processo, tornando-se registro do patrimônio cultural regional e local, referentes ao Estado de Goiás e à cidade de Goiânia (MARTINS, 2023). Para Poulot (2008), o patrimônio envolve um ecossistema complexo, no qual a preservação também produz esquecimentos, constituindo-se como um organismo vivo que reproduz relações sociais e influencia os processos de patrimonialização por meio de instituições, práticas, memórias, objetos e valores.
“O imperativo da conservação da herança, material e agora também imaterial, assume a cada instante um caráter geral e mais impositivo, encarnado por dispositivos legislativos e regulamentares que ampliam sem cessar seus domínios de aplicação.” (POULOT, 2008, p. 26).
Esse contexto toca diretamente a construção de identidades, que segundo Collaço (2009), emerge a partir da elaboração do “outro” e das disputas de memória entre migrantes do norte e do sul da Itália, sobretudo através da cozinha, construindo um senso do “ser” italiano. Para o caso de Goiás e Goiânia, o senso do “ser goiano” também se dá pela legitimação de uma cozinha que se torna patrimônio cultural. A cozinha de Pit Dog, portanto, integra essa formação imaginária por meio da produção e do consumo de “x-saladas”, “x-tudo” e outras variações.
Esse sentimento de pertencimento, articulado pela memória e identidade, manifesta-se na cozinha como orgulho da culinária goiana, exemplificado na expressão “cidade dos pit dogs”, que se refere a Goiânia a partir de um imaginário construído pelo fluxo de lembranças de transeuntes e não-transeuntes.
Para compreender a produção dos sanduíches de Pit Dog entre trabalhadores e consumidores, é preciso considerar também o gosto na escolha do alimento. Benemann (2017) aponta que a memória influencia gostos, cheiros e sabores ao longo da vida dos sujeitos, produzindo sentidos de pertencimento. Cada alimento carrega uma história marcada por disputas identitárias e diferenciações. Contudo, em constante transformação, os cenários imaginários também se refletem na culinária. Cada consumidor estabelece sua própria relação ao escolher o local onde consome os sanduíches produzidos nos pit dogs, articulando memória, identidade, gostos e sentimentos.
Por fim, a relação entre a cozinha de Pit Dog, o imaginário, a cidade, a identidade e a memória revela-se na política, nos sentimentos e nas relações sociais que definem a conservação da herança culinária goiana. Essa herança é criada dentro de um imaginário mobilizado por transeuntes e não-transeuntes na construção de uma identidade do Estado de Goiás e de Goiânia, envolvendo bens culturais selecionados por sujeitos de forma direta ou indireta.
Referências:
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ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
AMON, Denise; MENASCHE, Renata. Comida como narrativa da memória social. Sociedade e Cultura, Goiânia, v. 11, n. 1, p. 13–21, jan./jun. 2008. Disponível em: https://revistas.ufg.br/fcs/article/view/4467. Acesso em: 10 out. 2022.
BENEMANN, Nicole Weber. Histórias de cozinha: uma etnografia gastronômica. 2017. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2017.
GOLDMAN, Márcio. Alteridade e experiência: antropologia e teoria etnográfica. Etnográfica, Lisboa, v. 10, n. 1, p. 161–173, maio 2006. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/3723/372339147008.pdf. Acesso em: 5 jun. 2022.
ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Etnografia de rua: estudo de antropologia urbana. RUA, Campinas, n. 9, p. 101–127, mar. 2003. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/187458. Acesso em: 16 jan. 2023.
ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornelia. Cidade narrada, tempo vivido: estudos de etnografias da duração. RUA, Campinas, v. 16, n. 1, p. 121–145, 2010. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rua/article/view/8638850. Acesso em: 16 jan. 2023.
SHOVE, Elizabeth. Everyday practice and the production and consumption of time. In: SHOVE, Elizabeth; TRENTMANN, Frank; WILK, Richard (org.). Time, consumption and everyday life: practice, materiality and culture. London: Berg, 2009. p. 17–33.
POLLACK, Michael. Memória, esquecimento e silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3–15, 1989. Disponível em: http://www.uel.br/cch/cdph/arqtxt/Memoria_esquecimento_silencio.pdf. Acesso em: 12 abr. 2021.
POLLACK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200–212, 1992. Disponível em: http://www.pgedf.ufpr.br/memoria%20e%20identidadesocial%20A%20capraro%202.pdf. Acesso em: 12 abr. 2021.
POULOT, Dominique. Um ecossistema do patrimônio. In: CARVALHO, Cláudia S. R. et al. (org.). Um olhar contemporâneo sobre a preservação do patrimônio cultural material. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2008. p. 26–43. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rdbci/a/jrRFJz5KxQ64n6Tyk7zHTmS/?format=html&lang=pt. Acesso em: 22 nov. 2025.
MARTINS, Gabriel Sulino. Caminhos da memória: na rua de significados se encontra a cozinha de pit dogs. 2023. 140 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Faculdade de Ciências Sociais, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2023. Disponível em: http://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/13122. Acesso em: 8 dez. 2025.
Imagem de capa: Pit-dog em Goiânia | Foto: divulgação (Jornal Opção).









