O capitalismo não é e nem sempre foi o mesmo. Para Zygmunt Bauman, a passagem do capitalismo pesado para o leve foi a mais radical inflexão que o homem pôde assistir desde o período neolítico. A formulação de Bauman é espantosa, sobretudo se confrontada com obras de historiadores como Eric Hobsbawm, que se dedicou em localizar transformações históricas na modernidade, mais precisamente entre os séculos XIX e XX; dedicando integralmente, por exemplo, um estudo sobre “longo século XX”. O mundo experimentou grandes revoluções na modernidade, como aponta Hobsbawm, a partir da revolução industrial e francesa – objeto de estudo da obra A era das revoluções. Essas duas revoluções modificou o cenário econômico, social, político e filosófico de sua época, e, ainda hoje, colhemos resquícios de seu impacto. O espanto que Bauman provoca está em considerar que a mutação sofrida no capitalismo – o trânsito do capitalismo pesado para o leve, é a maior inflexão histórica, não só desde o advento da modernidade, mais ainda: desde o neolítico, superando, portanto, a revolução francesa e industrial. Ou seja, diversas inflexões ao longo de mais de vinte milênios da história humana, desde a idade da pedra polida até as tecnologias high tech, são superadas por esse deslocamento do capitalismo.
No interior da obra de Bauman, precisamente no livro Modernidade Líquida essa formulação soa menos espantosa, porém não menos cáustica. O sociólogo polonês observa que o capitalismo da modernidade pesada tinha por obsessão o território. Isto é, seus objetivos repousava-se na conquista territorial, sendo essa a justificativa para várias guerras, como as colonizações levada a cabo na corrida imperialista do século XIX. Expansão territorial, domínios de terras, exploração de riquezas, era o mote do capitalismo pesado ao longo de muitas e muitas décadas. Isso ressoa nas tecnologias e arquitetura do último séculos: aparelhos grandes; montadores como a Ford ocupando enormes galpões com seu maquinário exacerbado; prédios dotados de uma arquitetura obesa e com enormes ferrolhos nos portões para reforçar ainda mais a importância dada às coisas que ocupam grande espaço, e, por esse motivo, apresentavam uma fachada corpulenta e portais monumentais. O peso, a rigidez, o descomunal, o brutalismo, são características dessa fase do capitalismo.
Para apontar uma fundamental mutação ocorrida no capitalismo, Bauman toma como metáfora a noção de “fluidez” ou de “liquidez” para explorar essa metamorfose. Existe, nesse sentido, uma nova fase do capitalismo que procura “derreter os sólidos”, isto é, a necessidade de romper com aquilo que barrava a passagem para novas transformações. A nova atualização do capitalismo constrói uma força tarefa que busca eliminar a rigidez da vida moderna, tornando vários âmbitos da vida humana flexíveis, como o trabalho por exemplo. Em outros termos: significa o abandono do robusto “peso” do capital para deixar caminho livre para as nano-tecnologias e as bigh-techs.
O capitalismo leve, como designa Bauman, está situado na era das ações instantâneas, dos produtos transitórios, que surgem e logo desaparecem; é a era do planejamento a curto prazo e da ausência do medo de se arriscar, afinal, se algum plano for malsucedido rapidamente se toma outro caminho, instantaneamente. Tudo é instantâneo, provisório, inclusive a própria maneira de habitar o mundo e de existir.
É possível identificar o funcionamento do capitalismo leve na flexibilização do trabalho que, com efeito, leva as últimas consequências uma precarização do mundo, tornando nosso modo de vida vulnerável. A flexibilização do trabalho, marcada pela fluidez da modernidade líquida, ataca ao menos em três frentes: torna o mundo um lugar inóspito, modifica laços sociais, e faz com que a vida – não só o mundo, seja vulnerável e exposto a ruína imediata. A flexibilização do trabalho, por sua vez, é resultante de uma prática econômica e política que lida com os homens como peças substituíveis e sobressalentes, que em caso de defeito – ou mal comportamento, podem simplesmente serem trocadas. Para quê gastar tempo e dinheiro concertando uma peça se basta jogá-la fora, descartá-la, e colocar outra perfeitamente adestrada em seu lugar? Essa é a mecânica do mundo do trabalho flexibilizado. Essa rotatividade anima a economia, contudo, altera a relação do homem com o trabalho. Podemos chamar a inserção do homem na maquinaria da produção e do consumo de rotatividade.
A rotatividade é a força motriz do trabalho flexível. Ninguém deverá se sentir insubstituível. Um interdito violento que transforma o sentimento de segurança em si mesmo em arrogância e presunção. Não se deve confiar em si mesmo, fazer planos a longo prazo, nem ter esperanças com o trabalho, afinal, nunca se sabe quem sobreviverá ao próximo “cortes de gastos”. Nem mesmo aqueles que possuem função de demitir os outros estão livres da demissão. Submissão total ao código de “ética” da empresa, sujeição ao patrão e silêncio a toda ordem inquestionável deverá ser o comportamento a ser seguido para aqueles que pretendem se manter por um pouco mais de tempo no emprego.
Flexibilização é, por sua vez, o mote do trabalho moderno: “É a palavra do dia”, nos diz Bauman. Para o sociólogo, esse fenômeno “anuncia empregos sem segurança, compromissos ou direitos, que oferecem apenas contratos a prazo fixo ou renováveis, demissão sem aviso prévio e nenhum direito à compensação” (Bauman, 2001, p. 202). Bauman não é o único a compartilhar a tese de que a flexibilização do trabalho desencadeia uma severa precarização, além de facilitar a demissão. Outro autor que partilha essa tese é Chomsky. Para Chomsky a flexibilidade é um termo familiar para os trabalhadores na indústria. Parte daquilo que costuma ser chamado de “reforma trabalhista” consiste em fazer o trabalho mais “flexível”, ou seja, fazer com que seja mais fácil contratar e demitir pessoas. É, sem dúvidas, uma forma de garantir a maximização de lucro e de controle a todo custo. ‘Flexibilidade’, supostamente, é uma coisa boa, assim como a “maior insegurança dos trabalhadores”. Mas boa para quem?
Essa flexibilidade pode ser mais bem compreendida a partir dos trabalhos pautados por contratos, por cargas horárias pequenas, por empregos de turnos alternados, por trabalhos realizados em casa, etc. Na medida em que se diminui a carga horária, os direitos trabalhistas são contraídos. O aumento da carga horária não segue o mesmo procedimento.
A espinha dorsal dessa flexibilização é a máxima insegurança no trabalho, isto pe, “se os trabalhadores são mais inseguros, isso é muito ‘saudável’ para a sociedade, porque eles não vão ficar perguntando sobre seus salários, não vão entrar em greve, não vão pedir repartição de lucros, e vão servir a seus patrões de bom grado e de forma passiva. E isso é ótimo para a saúde econômica das empresas”, diz Chomsky. Trabalhadores que recebem a coerção da ameaça de demissão são dóceis, não se articulam com o sindicado, não reclamam das condições precárias que são submetidos todos os dias no trabalho. Os trabalhadores inclusive para produzirem mais e melhor precisam se sentir inseguros, e caso de não atingem as metas mensais a demissão é a única coisa sólida. Desse modo, a ameaça de demissão tem por finalidade aumentar a produção e a docilidade dos trabalhadores seria um efeito.
Ora, se uma característica do capitalismo leve – ou tardio, é a ausência do medo de se arriscar, como dissemos a pouco, como pode existir insegurança no trabalho, não seria o risco parte do processo? Primeiro porque a ausência do medo de se arriscar não dá lugar a uma coragem política. Segundo porque aumenta-se a liberdade econômica e subtrai o engajamento político. A insegurança do trabalho convive perfeitamente com os empreendedores destemidos que arriscam tudo em nome da satisfação e de algum projeto melhor que o anterior. A “cultura do perigo”, que preconiza a viver de modo arriscado é a condição necessária para a insegurança no trabalho. Esse modo de viver perigosamente é de natureza liberal, como expõe Foucault no curso O nascimento da biopolítica, e inclusive é estimulada por esse regime econômico e político. Esse “perigo”, diz Foucault, significa expor os indivíduos ao risco: são condicionados a experimentar o perigo em sua vida; seja no presente, seja no futuro.
O risco assumido pelos empreendedores é um exemplo de como o capitalismo leve é instantâneo e fluído. Instantâneo porque caso algum plano seja malogrado basta, como que num passe de mágica, abandonar o barco e iniciar outro trajeto. Fluído pois os planos são maleáveis, principalmente por serem a curto prazo e por estarem a espreita da melhor oportunidade. Dito de outro modo: os planos são maleáveis pois podem ser facilmente abandonados caso aponte no horizonte uma oportunidade melhor. Os planos de se trabalhar numa determinada empresa por várias décadas faz parte das utopias dos antepassados. Os planos podem facilmente serem redirecionados; quando não, abandonados. O que vemos aqui se não a adequação do trabalhador a rotatividade do trabalho? Já não existe garantia de que com o trabalho poderá comprar a casa própria, comprar um carro, fazer uma viagem, ou ter um filho, ou qualquer plano que exija que o individuo tenha os pés bens firmados no presente para arquitetar o futuro.
Fincar os pés no solo do presente é inviável nessa nova atualização do capitalismo, isso porque o futuro é mais radicalmente contingente e o presente flexível, fluído. Já não se segue na mesma profissão a vida toda. Não que isso seja de todo modo ruim, não estar destinado a mesma profissão dos pais, por exemplo, pode, num sentido estrito, ser sinal de mobilidade social, mobilidade que só se faz na medida em que se tem níveis menores de desigualdade econômica. É importante dizer que o índice positivo dessa mobilidade social tem um sentido estrito, sobretudo depois da publicação da obra A corrosão do caráter do sociólogo norte-americano Richard Sennett. Nessa obra é importante notar que esse distanciamento da profissão dos pais, no caso do personagem analisado por Sennett no primeiro capítulo de seu livro, pode ser um sinal de desfacelamento da identidade.
Mas o que importa o trabalho para a constituição da subjetividade? Nada, desde que se fique rico. O trabalhador destemido, que se arrisca na tentativa de galgar algo melhor, num dado sentido, produz veneno para si mesmo beber, pois alimenta essa rotatividade do trabalho flexível que torna o próprio trabalho precário; ou no vocabulário foucaultiano: seria um homo oeconomicus que se adapta perfeitamente ao meio, a artificialidade da economia. É aquele sujeito que julga traçar seus próprios planos quando na verdade só atua dentro de um espaço de liberdade já determinado previamente. A ideia de Foucault, filósofo fracês, de que o homo oeconomicus é o indivíduo iminentemente governável por estar suscetível as injunções do meio é bem próxima da concepção de flexibilidade elaborada por Richard Sennett, por exemplo. Para Sennett o comportamento humano flexível ideal é aquele que se adapta as mais variadas circunstâncias. Sennett aponta que essa flexibilidade enfatiza a mudança, ou nas palavras do empresariado: inovação. Essa mudança era uma resposta ao peso da rotina, que naturalmente fazia despencar os níveis de produção na indústria. Nesse sentido a flexibilidade passa a ser entendida como uma virtude empresarial. Virtude empresarial que Sennett faz questão de denunciar: “a busca da flexibilidade produziram novas estruturas de poder e controle, em vez de criarem as condições que nos libertam” (SENNETT, 2009, p. 55).
Ocorre que não é só o mundo do trabalho que se torna precário. O mundo em que habitamos segue o mesmo destino. Bauman nos fornece uma formulação primordial e que tem gosto amargo: “condições econômicas e sociais precárias treinam homens e mulheres (ou os fazem aprender pelo caminho mais difícil) a perceber o mundo como um contêiner cheio de objetos descartáveis, objetos para uma só utilização; o mundo inteiro – inclusive outros seres humanos” (Bauman, 2002, p. 203). A flexibilização do trabalho que está conjugada com a precarização de condições econômicas e sociais faz do mundo um lugar para se colocar os dejetos do consumo. Os produtos são “descartáveis”, assim como as relações humanas. Como salienta Bauman, laços e parcerias tendem a serem vistos como coisas destinadas ao consumo. São sujeitas à avaliação assim como uma mercadoria o é.
Assim segue que laços humanos como o casamento, por exemplo, passa a funcionar na mesma lógica de uma empresa. Ou seja, o casamento assume um caráter de sociedade tal como é nos moldes do comércio e escolhe-se o parceiro assim como se escolhe um produto novo. Essa escolha está submetida aos mesmos critérios do consumo e com isso o divórcio se confunde com o código de defesa do consumidor. Se um membro do casal não está plenamente satisfeito não tem o porquê “conceder e fazer sacrifícios em favor de uma união duradoura”, descreva Bauman. Pede-se divorcio assim como se reclama quando se compra um produto com defeito de fábrica. Sob a ótica de Bauman
Se o prazer obtido não responder ao padrão prometido e esperado, ou se a novidade se acabar junto com o gozo, pode-se entrar com ação de divórcio, com base nos direitos do consumidor. Não há qualquer razão para ficar com um produto inferior ou envelhecido em vez de procurar outro ‘novo e aperfeiçoado’ nas lojas” (Bauman, 2002, p.205).
Esse é o mundo, como demarca Bauman, da vulnerabilidade e da precaridade. Um espaço que molda “diferentes experiências de vida”, mas que se acomodam no mesmo mundo, o da vulnerabilidade e da precaridade do trabalho. Bauman parece abrir fendas para pensar a precaridade e a vulnerabilidade no mundo não só com o trabalho e com as relações humanas, mas através dele, afinal, o que o sociólogo propõe é uma contemporaneidade marcada por toda a “precariedade da existência social”, que por sua vez inspira “uma percepção do mundo em volta como um agregado de produtos para consumo imediato”. Bauman ao lidar com os laços humanos partindo de um corte histórico, que é o da modernidade líquida, trás a lume a questão da precaridade e da vulnerabilidade como elemento decisivo da atualidade. Um fenômeno que toca na insegurança estrutural experimentada no mundo do trabalho e da vida social.
E, não há de surpreender ninguém, a insegurança no trabalho e nas relações humanas estão em consonância com a maquinaria do consumo. Se o futuro é nebuloso, sombrio e incerto; se o trabalho e o casamento na modernidade líquida desconsideram planejamentos a logo prazo, cabe então viver no modo instantâneo. A máxima délfica do modo de vida é: “Na falta de segurança de longo prazo, a ‘satisfação instantânea’ parece uma estratégia razoável”, aponta o sociólogo polonês. O que importa é o aqui e o agora. Não vale mais a pena esperar. Com diz Bauman, ninguém sabe o que trará o amanhã, portanto, em suas palavras, o “adiamento da satisfação perdeu seu fascínio”. Aquilo que se deseja torna-se obsoleto antes mesmo de ser adquirido, convém então suprir as pulsões do desejo (vontade de consumir) o mais rápido possível.
É no desejo que repousa a incerteza quanto ao futuro imposto na modernidade líquida. O desejo deve ser, vez ou outra, satisfeito, mas não plenamente, assim como uma cede que não é saciada até o fim, diz Bauman. Como o futuro é incerto, não se tem garantia alguma de que a satisfação do casamento e do trabalho será efetiva. Do mesmo modo que a compra de um produto não proporciona uma felicidade perene, o trabalho e os laços humanos – como o casamento, não dão garantia alguma de um desejo saciado. O que puder ser aproveitado nas oportunidades do trabalho e do casamento deverá ser aceito, afinal, diz Bauman, os compromissos de hoje são obstáculos para os de amanhã. Portanto a palavra de ordem é “agora”. Não se adia a satisfação, mesmo que momentânea. Podemos ter tudo o que queremos, aqui e agora, basta trabalhar, se esforçar para ser digno de tal mérito, não é essa a equação que captura o consumidor?
Percebendo o círculo vicioso com que a sociedade de consumo e o capitalismo leve se depara, muitas empresas passaram a elaborar slogans para maquiarem suas estratégias de sedução, tais como: “Você pode agora e depois”, “Você merece agora e depois”. Ocorre, como já dissemos, que esse depois é impreciso, incerto, e trás com ele inúmeras dúvidas e mudanças.
O capitalismo leve funciona conjugado com a flexibilização do trabalho – e não por motivos arbitrários. Do mesmo modo está a outra conexão que procuramos estabelecer ao longo desse texto: o capitalismo leve está inserido no período em que nossa modernidade se encontra em sua forma, como caracteriza Bauman, fluída, líquida, marcada por uma sociedade de consumidores. O capitalismo leve tem em si um grande canteiro a ser explorado a respeito do trabalho. Bauman deixa entrever isso: “a passagem do capitalismo pesado ao leve e da modernidade sólida à fluida ou liquefeita é o quadro em que a história do movimento dos trabalhadores foi inscrita” (Bauman, 2002, p. 209). O mundo do trabalho é, portanto, o principal campo de disputa quando se quer transformar modos de vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
CHOMSKY, Noan. Sobre a precarização do trabalho e da educação na universidade. In: Carta Maior. Acessado em 19 de Setembro de 2012, às 19:00.
FOUCAULT, Michel. O nascimento da biopolítica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções. Trad. Maria Tereza Teixeira e Marcos Penchel. 33° edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.
SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Trad. Marcos Santarrita. 14°edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.
Imagem de capa: gerada pelo ChatGPT.









