Entre os direitos negados à classe trabalhadora brasileira, está o direito à moradia digna. As mulheres que compõem a classe trabalhadora, por sua vez, são as mais afetadas pela escassez de moradia, renda, saúde e política, e vivem sob condições ainda mais desafiadoras quando abarcam questões de raça/etnia. Situação resultante de processos históricos e contemporâneos de opressões interseccionais (Gonzalez, 2011). Nessa perspectiva, este ensaio tem como objetivo iluminar trajetórias de mulheres, inseridas em trabalhos informais, que lutaram por moradia em Parintins, no interior do Estado do Amazonas entre os anos de 2016 a 2023.
Izenira Pereira (63), Naély Nascimento (30), Dinailza de Souza (25), Dagilza Araújo (47), Benedita Batista (87) e Amélia (30), desempenharam papéis extraordinários no percurso de suas “vidas comuns” e podemos conhecer o protagonismo dessas mulheres através de suas narrativas acerca da materialização do sonho da casa própria. Para isso, privilegiamos a metodologia da história oral, que nos ajuda construir fontes singulares e expandir o território de pesquisa na história, além de permitir novas perspectivas capazes de refletir sobre as atividades ligadas aos cuidados: uma esfera de experiência humana que é marcada pelas protagonistas femininas (Salvatici, 2005).
MOVIMENTOS POR MORADIA EM PARINTINS
Parintins é uma cidade média do baixo Amazonas, com cerca de 96.372 habitantes (IBGE-2022), conhecida mundialmente por realizar o Festival Folclórico dos Bois Bumbás Caprichoso e Garantido no mês de junho. É importante destacar que a cidade recebe anualmente 10 milhões do Governo Federal para impulsionar a agricultura, a pecuária e o próprio festival local, valor que só cresce a cada ano e beneficia apenas a pequena burguesia parintinense.
Tão histórico quanto a disputa das cores azul e vermelho no centro cultural Bumbódromo, são os conflitos desencadeados pelos trabalhadores nas margens da cidade. O histórico de ocupação de terras urbanas através de movimentos sociais em Parintins retoma a década de 1990. Só nesse contexto houve três grandes ocupações que hoje em dia já estão consolidadas como bairros: Itaúna I, Itaúna 2 e Paulo Corrêa. Em 2009, ocorreu outra ocupação que resultou da formação do Bairro União. Essas ocupações ocorreram em uma área da Fazenda Itaúna que pertencia ao senhor Paulo Corrêa, empresário que morava e trabalhava em Santarém/PA. A prefeitura desapropriou e indenizou as terras deste senhor (RODRIGUES, 2020; SANTOS, 2014).
Mesmo com todas essas ocupações de terras urbanas, a questão do déficit de moradia em Parintins não foi resolvida. O cenário político de 2016, marcado pelo aumento expressivo do desemprego em todo país, proliferação de trabalhos precarizados (com a aprovação da Reforma Trabalhista e da Lei de Terceirização) e a Lei do Teto de Gastos que inviabiliza, por exemplo, políticas públicas de construção de moradias populares, assim como a carestia dos aluguéis e dos alimentos levou à ocorrência das ocupações do Pascoal Alágio e Castanhal.
TRAJETÓRIAS DE LUTAS
As travessias de Dinailza de Souza (25), Dagilza Araújo (47), Benedita Batista (87), mulheres indígenas da etnia sateré-mawé, são marcadas por estratégias de resistência, essas mulheres são moradoras do bairro Pascoal Alágio, localizado no antigo latifúndio que pertencia ao empresário Manoel Esteves e foi ocupado pelos trabalhadores sem-terra em 2016.
Fui pra lá dia 5 de dezembro, né, comecei a morar lá, mas quando eu cheguei assim, realmente tive que resistir, porque eu sabia que não tinha pra onde eu ir, né, com meus filho. É… energia era muito difícil, era parte mais escura, era alagada, mas mesmo assim eu fiquei lá, né, a casinha fizeram de madeira tinha que ter assoalho pra poder a água não pegar na gente, mas mesmo assim a água invadiu, e ninguém saiu de lá, a gente ficou lá, praticamente 1 ano dentro d’água (Dagilza, 2021).
A narrativa construída pela interlocutora evidencia os desafios no início da ocupação. Dagilza trabalhava como doméstica em casas de família, sem garantias de leis trabalhistas e um salário que não dava para manter o aluguel, a energia, alimentação, etc; esse trecho da entrevista mostra que mesmo diante da falta de estrutura no local, enfrentou as dificuldades para garantir um teto sobre a cabeça de seus filhos.
Para Dinailza de Souza (25), a luta pela sobrevivência começou desde cedo, vítima da exploração do trabalho infantil, ela precisou trabalhar de babá ainda criança em troca de moradia e alimentação. “Eu lavava as roupinhas dela né, fazia a faxina na casa, era só isso mesmo meu papel né, de lavar as roupas, só. Aí nesse tempo eu ainda ganhava esse tanto que era 120, né, mas eles me davam as coisa” (Dinailza, 2025). Em “era só isso”, observamos a naturalização do trabalho doméstico, que é direcionado às mulheres desde a infância e nesse caso reforçado pela histórica divisão racial. Aos 15 anos Dinailza soube da ocupação que acontecia no Pascoal Alágio, onde foi morar com a avó Benedita Batista e seus irmãos.
Sobre o processo de ocupação do Castanhal em 2016, Amélia, rememora os desafios ao participar do movimento por moradia: “trabalhava, saía do trabalho, ia buscar meu filho lá em casa, daí eu vinha reparar o terreno” (Amélia, 2022). A colaboradora na época trabalhava como empregada doméstica e morava com o marido, dois filhos, a sogra e outros parentes em uma casa alugada no bairro Palmares. Diana Helene (2019) explica que as relações entre empoderamento feminino e os ganhos de autonomia das mulheres ao participarem desses movimentos são evidentes e envolvem fatores relacionados à formação do capitalismo e das cidades no tocante às desigualdades de gênero. Frases como “Hoje eu posso dizer que eu tenho uma casa, né? ” (Amélia, 2022) e “uma casinha pra mim tá com meus menino” (Amélia, 2022), estão presentes no relato da entrevistada que viu na ocupação a oportunidade de se livrar do aluguel e da coabitação.
Vale ressaltar que, o trecho narrado por Amélia, classifica a dupla (e em alguns casos tripla) jornada de trabalho vivenciado pelas mulheres trabalhadoras brasileiras. Além de viver sob jornadas de trabalho desiguais e menores salários, as mulheres ainda são submetidas ao trabalho doméstico e de cuidado com crianças e idosos. Toda essa exploração do corpo feminino funciona como pilar do capitalismo, na medida em que possibilita a reprodução da classe trabalhadora (Federici, 2017).
As experiências de dona Izenira (63) e Naély (30), moradoras do Castanhal, se assemelham uma vez que, incorporam, segundo Lélia Gonzalez (2020), um processo intenso de adaptação, resistência, reinterpretação e criação de novas formas. Questões relativas ao trabalho na roça, o êxodo rural em busca de melhores condições de vida e a frustração frente o desemprego na cidade incide sobre suas trajetórias.
Diante disso, a jornada de diálogos das interlocutoras apresentadas neste ensaio buscou evidenciar como se materializa a luta de mulheres pelo direito à moradia diante do trabalho informal e das opressões de gênero e raça no interior do Amazonas. As narrativas mostram ainda que, a decisão em ocupar terrenos para construção de moradias foi carregada de desafios, mas sustentadas pela esperança de um futuro mais digno.
REFERÊNCIAS
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. In: Caderno de formação política Círculo Palmarino n.1 Batalha de Ideias. 2011.
MEDEIROS, Mônica Xavier de. Puxirum de Histórias: lutas por terras e águas em Vila Amazônia (1980-2000). Tese (História Social). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP): 2017.
RODRIGUES, Jheniffer Natividade. Pelo direito à cidade: Histórias e Memórias da ocupação dos Bairros Itaúna II e Paulo Corrêa em Parintins/AM. UEA, 2020.
SALVATICI, Silvia. Memória de gênero: reflexões sobre História Oral de mulheres. In: História Oral, v.08, n.1, p. 29-42, jan.-jun. 2005.
SANTOS, Cleunildes Teixeira dos. Mulheres na Ocupação do Bairro União no período de 2009 a 2014. (TCC). Licenciatura em História. Parintins: Universidade do Estado do Amazonas, 2014









