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por Maria Júlia Silveira Hortencio, especial para o LiceuOnline.

Com um sorriso sombrio e vitorioso, a análise de filme da vez é sobre uma vampira. Não aquela fantasiosa com dentes afiados e sedenta por sangue, mas uma femme fatale que hipnotiza “homens bons” com sua beleza, causando sua degradação moral, drenando sua energia. Uma pintura de Philip Burne-Jones marcou o início do que viria a ser a vampira do cinema. Em abril de 1897, por meio de um amor não correspondido, surgiu a sua produção artística mais famosa. A pintura foi um “escândalo” quando foi mostrada pela primeira vez, apresentava uma visão impactante da sexualidade feminina, “[…] ela dava arrepios nos homens e emocionava as mulheres”. A pintura mostra uma mulher de pele branca e cabelos compridos e pretos, com seu corpo parcialmente deitado, sendo seu tronco e cabeça inclinados, observando um jovem caído, inconsciente, ela o observa com um “[…] sorriso sombrio e vitorioso”. Além disso, a pintura pode estar diretamente ligada com a história da vida de Philip Burne-Jones, na qual seu primo Rudyard Kipling, poeta e romancista inglês, fez um poema no dia da exposição da pintura, que relata a história por trás dela. O poema foi escrito no mesmo ano em que a pintura foi exposta, em 1897; e conta a história de um “tolo” que se apaixonou por uma bela dama que “não se importava”. O que se sabe é que Philip se apaixonou pela atriz Mrs. Patrick Campbell, mas teve seu coração partido por ela, a vampira da pintura então carregou o rosto da atriz. Com inspirações vindas do poema, sabe-se do surgimento de uma peça (1909) e um livro (1909) de Porter Emerson Browne, ambas com o título A Fool There Was. A peça melodramática estreou em Nova York, em 1909, e teve grande sucesso do público, tendo como protagonista a atriz Katharine Kaelred, interpretando a vampira. Já o livro não obteve o mesmo resultado, recebendo críticas ruins, pois a história foi adaptada, se aprofundando mais na história das origens da personagem, o que não agradou ao público. A continuidade de representações artísticas em torno dessa história teve um novo evento em 1915, ano da chegada do filme na, ainda pequena, Fox Film Corporation. Assim como todos os filmes que vieram depois, o enredo do filme estava pronto: um diplomata com uma família unida e perfeita é seduzido por uma mulher “sobrenaturalmente má”, e claro que não era uma mulher comum, mas um vampiro. O filme conta a história de uma mulher vampira que, por meio de uma vingança, seduz um diplomata e causa sua degradação moral. Além disso, o filme abarca temas como sexualização, vício, traição e suicídio. O vício em álcool é a todo o momento usado como ferramenta pela femme fatale, John Schuyler (o diplomata) aparenta estar exausto, mas a vampira insiste em entregar a ele alguma bebida alcoólica com um “[…] sorriso sombrio e vitorioso”. A narrativa prossegue a mesma, entre discussões, alcoolismo, tristezas e divórcio, a vampira manipula a situação e John segue “enfeitiçado” por ela. O final não poderia ser outro, John se encontra em completa degradação e com vícios, mesmo sua família indo atrás dele, a vampira não permite que ele retorne, sempre encontrando um jeito de enfeitiçá-lo novamente. Nos momentos finais do filme, ele morre de overdose em decorrência do álcool e ela coloca flores em seu rosto, sorrindo e se sentindo vitoriosa. O filme A Fool There Was (1915) (Escravo de uma paixão) apresenta uma história envolvente de uma mulher que usa de sua sedução para causar a degradação de um homem. Como o enredo é abordado, a atuação dos personagens e a história sem cortes faz dele um clássico do cinema mudo e preto e branco. Nos faz refletir sobre amor, sedução, vício e morte, mostrando como uma mulher pode ser a perdição de um homem. A Fox Film Corporation construiu essa narrativa de forma cirúrgica, fazendo com que o vampirismo se estendesse em todas as referências de mulheres fatais. A escolha do filme se deu pelo fato de que se inaugurava um novo conceito, baseado no mal que uma mulher sedutora pode trazer, além disso, o cinema se voltava para esse sistema que se construiu com base na fama, no consumo e na imagem de celebridades. O filme aqui analisado foi urdido e caiu nesse grande sistema de controle midiático (o star system), bem como a atriz principal, Theda Bara, que ficou conhecida por sua dedicação ao concretizar e imortalizar a vampira. Foi possível perceber como os estereótipos são criados a partir de arquétipos plurisseculares, em que a mulher representa algum perigo/pecado. Na relação entre filme e vida, Theda Bara se tornou uma estrela digna de veneração do público, e sua personagem cria vida fora da tela, ou seja, ficção e realidade se misturam. Além disso, o sistema é capaz de usufruir de tudo que a estrela oferece, na qual seus rostos, corpos e talentos são “vendidos”. A vampira fincou suas raízes no cinema, ela se tornou uma extensão dela própria e deixou de ser apenas a “mulher fatal”, passando a mesclar com outras representações femininas. O sistema das estrelas foi inundado de críticas à medida que procurou transformar a vida de atores e atrizes em produtos a serem consumidos. Os estúdios controlavam a vida dos atores, diziam onde deveriam ir, com quem se relacionar e como viver suas vidas, Theda Bara teve essas condições impostas para manter sua popularidade. O star system reforçava estereótipos, padrões irreais de beleza e sexualizavam principalmente as mulheres, vistas como stars. O conteúdo artístico era pouco valorizado, estava acima dele o lucro e fama, privando o grande potencial dos artistas e colocando-os em moldes pré-fabricados.

 

 

REFERENCIAS:

GOLDEN, Eve R. Vamp: The Rise and Fall of Theda Bara. Nova York: Vestal Press, 1998.

MCGEE, Tim. Sir Philip Burne-Jones: A Life In a Tall Shadow. The Review of the Pre Raphaelite Society, [S.I.], 1999.

MORIN, Edgar. As estrelas: mito e a sedução no cinema. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

SOLOMON, Aubrey. The Fox Film Corporation, 1915-1935: A History and Filmography. Jefferson, NC: McFarland, 2011.

FONTES:

KIPLING, Rudyard. O Vampiro. Poets.org, 1934. Disponível em: https://poets.org/poem/vampire-0. Acesso em: 03 mai. 2025.

THEDA BARA FAN PAGE. Theda Bara – A Fool There Was (The Vampire) (1915) in HD. YouTube, 08 set. 2021. Disponível em: Theda Bara – A Fool There Was (The Vampire) (1915) in HD – YouTube. Acesso em: 16 jun. 2025.

PHILIP BURNE-JONES – The Vampire.jpg. Wikipédia. 03 mai. 2025. Disponível em: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Philip_Burne-Jones_-_The_Vampire.jpg Acesso em: 03 mai. 2025.

 

 

Imagem de capa: Frank Powell, US 1915, 78 min., 35mm (disponível aqui)

Sobre o(a) Autor(a)

Maria Júlia Silveira Hortencio

Formada em Licenciatura Plena em História pela Universidade Estadual do Piauí - Campus Alexandre Alves de Oliveira em Parnaíba. Tem interesse em pesquisar sobre cinema, gênero, História do Brasil, História Cultural e História Social.
Publicado no Liceu Online por:

Edição - Liceu Online

Revista online de Humanidades. @liceuonline

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