skip to Main Content

por João Paulo Capelotti, especial para o LiceuOnline.

Emerald Fennell ganhou o Oscar de roteiro original em 2021 com seu longa de estreia, “Promising young woman” (por aqui com o pavoroso título de “Bela vingança”). Logo depois lançou “Saltburn”, que bebia bastante na fonte de “O talentoso Ripley”. Agora, sua visão de “O morro dos ventos uivantes”, romance escrito por Emily Brontë no século XIX (que não li), tem influência nítida (e confessada pela diretora em entrevistas) de pelo menos uma dúzia de filmes. De “Drácula de Bram Stoker”, por exemplo, vêm os figurinos não exatamente fidedignos à época, que incluem materiais sintéticos e hiperestilizados; de “A criada” vêm as relações sadomasoquistas e a tensão entre patrões e empregados domésticos, e por aí vai. Mas Fennell infelizmente não é Francis Ford Coppola nem Park Chan-wook, e o que a cineasta faz com esse amontoado de referências batidas no liquidificador, se passa longe de ser a bomba que muitos críticos anunciaram, por outro lado também escancara as limitações do projeto, que reafirma uma vontade de chocar acima de qualquer outro propósito –e aí não sei se o problema é que ela promete demais e entrega pouco, ou se sou eu que não me impressiono com o que está na tela. O plano de abertura, de um sujeito enforcado enquanto ostenta uma visível ereção, sintetiza a aparente tese central de que as pulsões de sexo e morte não só caminham juntas como também se entrelaçam e sufocam a vida de Cathy e Heathcliff, presos também a limitações financeiras, convenções sociais e uma série de mal-entendidos e cartas não entregues. Porém, na contramão dos enredos açucarados e redentores típicos do romantismo, Brontë não economizava no aspecto gótico da trama (daí até o seu título) e em como um amor que não dá certo desperta o pior nas pessoas (o que aliás poderia servir como resumo do que é advogar em ações de direito de família). Fennell não suaviza quão horríveis os personagens se tornam, mas isso dificulta a criação de empatia com eles ao longo da duração um tanto inchada de 2h16. No fim, embora Margot Robbie e Jacob Elordi estejam bem, quem se destacou mesmo no elenco, a meu ver, foram Hong Chau, dúbia e contida como a criada Nelly, e Martin Clunes, como o asqueroso pai de Cathy.

 

Avaliação: 3/5

 

Imagem de capa: O morro dos ventos uivantes. Escutai.

Sobre o(a) Autor(a)

João Paulo Capelotti

É advogado e pesquisador, e gosta de cinema desde que se entende por gente.
Publicado no Liceu Online por:

Jéssica Fernanda de Sousa

Edição - Liceu Online

Comentários...

Leia também...

Back To Top
Política de Privacidade

Leia nossa Política de Privacidade em nossa página clicando aqui.

Cookies estritamente necessários

O cookie estritamente necessário deve estar sempre ativado para que possamos salvar suas preferências de configuração de cookies.