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por Jéssica Fernanda de Sousa, especial para o LiceuOnline.

Machado de Assis registrou, em setembro de 1859, a atmosfera vibrante que cercava o Ginásio Dramático, descrevendo três “noites amáveis” em que o pequeno teatro estava “arraiado de novas galas e custosas louçanias”. Para ele, aquelas noites mereciam “um livro”, tamanha a vivacidade que ofereciam ao público carioca. Suas palavras despertam a curiosidade sobre como era, de fato, vivenciar uma récita nesse espaço que, na década de 1850, movimentou a vida cultural da Corte. Embora não possamos recuperar integralmente essa experiência, os fragmentos encontrados em jornais, críticas, documentos arquitetônicos e testemunhos da época permitem reconstruir parte desse cotidiano teatral.

 

O Ginásio Dramático iniciou suas atividades em 1855, quando a nova companhia se estabeleceu no antigo Teatro São Francisco, um prédio modesto que permanecera fechado por três anos. Determinado a transformar aquele espaço em um centro teatral de destaque, Joaquim Heliodoro, proprietário da empresa, investiu em ampla reforma, modernizando a estrutura e atribuindo ao teatro uma imagem de elegância e distinção. Como observa a historiografia, essas intervenções não eram apenas estéticas: elas representavam uma estratégia empresarial que posicionava o Ginásio como concorrente direto dos prestigiados teatros da Corte, capazes de atrair a elite fluminense e, potencialmente, a Família Real. A inauguração, cuidadosamente planejada, refletia esse propósito de impactar e conquistar o público.

 

O fortalecimento do Ginásio também passou pela contratação de artistas de renome. Entre eles estava Maria Velutti, figura amplamente conhecida como atriz cômica e como tradutora de peças estrangeiras — sobretudo francesas — que compunham parcela significativa do repertório do teatro. Velutti já possuía carreira consolidada ao lado de João Caetano e sua presença conferia prestígio imediato à companhia. Outro nome decisivo foi Émile Doux, diretor e ensaiador francês que havia trabalhado por anos em Portugal e fora reconhecido por introduzir o vaudeville em Lisboa (Faria, 1993, p. 78). No Ginásio, Doux encontrou o ambiente ideal para desenvolver o gênero que dominava e apreciava. O próprio anúncio da empresa, publicado no Diário do Rio de Janeiro, declarava que o objetivo era “estabelecer o verdadeiro e apurado gosto pela representação do vaudeville e comédia”[1]. A programação inaugural refletiu essa orientação estética ao apresentar Um erro, de Scribe, e O primo da Califórnia, ópera-cômica de Joaquim Manuel de Macedo.

 

Em meio à concorrência com o Teatro São Pedro de Alcântara e com o Teatro Lírico, Heliodoro adotou medidas que buscavam tornar o Ginásio atraente a diferentes segmentos sociais. Uma delas foi a redução dos preços dos ingressos, adotada de forma ousada e estratégica. Na estreia, os valores divulgados[2] incluíam 6$000 para os camarotes de 1ª ordem, 8$000 para os de 2ª ordem, 4$000 para os de 3ª, 2$000 para as cadeiras e apenas 1$000 para os lugares de geral. Além disso, as notícias explicavam ao leitor a localização de cada tipo de assento, facilitando a adaptação ao espaço recém-reformado. O fato de o camarote de 2ª ordem ser mais caro que o de 1ª revela que ele desempenhava papel social particular: era o local preferido das famílias, com circulação lateral ampla e maior visibilidade pública, atributos valorizados por quem desejava ver e ser visto.

 

A acessibilidade dos preços se torna mais clara quando comparada ao custo de bens e serviços contemporâneos. Em 1855, dez folhas avulsas de jornal equivaleriam ao valor de uma entrada para a geral do Ginásio. Trabalhadores livres recebiam valores diários que variavam entre os 500 réis pagos a um carpinteiro e os 3.500 réis destinados a um mestre de obras. Portanto, a entrada de 1$000 situava-se dentro das possibilidades de setores mais humildes da população, contribuindo para diversificar o público do teatro (Souza, 2002, p. 128). Essa política pode parecer contraditória à intenção inicial de atrair a elite, mas, como observa Souza (2002, p. 63), Heliodoro entendia que diferentes parcelas da sociedade eram fundamentais para a sustentação financeira de uma empresa teatral, sobretudo aquelas que frequentavam os espetáculos com maior regularidade.

 

Ao mesmo tempo, a própria arquitetura do teatro assegurava a manutenção das distinções sociais, permitindo que grupos heterogêneos partilhassem o mesmo espetáculo sem diluir as fronteiras simbólicas que estruturavam a sociedade da Corte. Os camarotes mais valorizados permaneciam reservados às famílias de maior prestígio, enquanto os lugares mais acessíveis acolhiam trabalhadores e jovens aprendizes. Ainda assim, a imprensa frequentemente insistia em associar o Ginásio apenas à “boa sociedade”. Essa construção discursiva servia para reforçar a imagem desejada pela empresa, que buscava se firmar como um espaço elegante e diferenciado (Souza, 2002, p. 64).

 

A partir dessas informações, é possível formular um quadro plausível de como se configurava uma noite típica no Ginásio Dramático. Em uma rua movimentada da Corte, carruagens e grupos a pé se dirigiam ao teatro recém-reformado, iluminado e chamativo. As famílias mais abastadas chegavam cedo, acomodavam-se nos camarotes da 2ª ordem e circulavam de um lado a outro, cumprimentando conhecidos e observando a composição da plateia. Nos setores mais baratos, trabalhadores livres, aprendizes e pequenos comerciantes conversavam animadamente, aproveitando a oportunidade de participar de um espetáculo que, até então, lhes seria inacessível em outras casas de espetáculo. Quando as luzes se voltavam ao palco, surgiam as cenas rápidas, dinâmicas e musicais do vaudeville, gênero que combinava humor, canto, ritmo e leveza. A combinação de murmúrios nos camarotes, risos vindos do geral e comentários sussurrados entre espectadores compunha um ambiente vibrante, entre o lazer e a sociabilidade. Ao final da récita, as famílias deixavam o edifício comentando a performance dos atores e o andamento da peça, enquanto grupos mais populares saíam satisfeitos por terem presenciado um espetáculo acessível e divertido. O brilho da sala, o movimento nas ruas e a mistura de públicos davam forma à experiência que Machado de Assis, décadas depois, recordaria com entusiasmo como “noites amáveis” — momentos em que o teatro, renovado e cheio de energia, parecia refletir a própria vida da Corte brasileira.

 

Para saber mais:

ASSIS, Machado. O Espelho, 23 set. 1859.

FARIA, João Roberto. José de Alencar e o teatro. 1. ed. São Paulo: Perspectiva; Editora da Universidade de São Paulo, 1987.

SOUZA, Sílvia Cristina Martins de. As noites do Ginásio: teatro e tensões culturais na Corte (1832-1868). 1. ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp; CECULT, 2002.

 

[1] Diário do Rio de Janeiro, 5 de março de 1855, p. 2.

[2] Diário do Rio de Janeiro, 12 de abril de 1855, p. 4.

 

Imagem de capa: Montagem feita por ChatGPT.

Sobre o(a) Autor(a)

Jéssica Fernanda de Sousa

Graduada em História pela Universidade Federal de Goiás e mestranda em Estudos Literários na mesma instituição. Desenvolve pesquisas nas áreas de História do Brasil Imperial, Literatura e Teatro Oitocentistas.
Publicado no Liceu Online por:

Gabriel Roberto Caixeta

Edição - Liceu Online

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