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por João Paulo Capelotti, especial para o LiceuOnline.

Não li o livro do escritor argentino Manuel Puig, mas gosto bastante da adaptação dele feita para o cinema por Hector Babenco em 1985, notória pela escalação de Sônia Braga no papel-título, pela ambientação no Brasil e pelo Oscar de melhor ator que William Hurt levou por sua atuação como o protagonista Luis Molina. Esta nova versão, assinada por Bill Condon (roteirista de “Chicago” e diretor de “Dreamgirls”), se baseia no musical que chegou à Broadway no início dos anos 90. Isso significa que a história volta a se passar no apagar das luzes da ditadura militar argentina, e que, no lugar dos dramas sobre a ocupação nazista na França, os filmes-dentro-do-filme que Molina conta a seu companheiro de cela Valentín como se fosse uma espécie de Sheherazade são aqui um único e colorido musical ambientado na América Latina (tive a impressão de ser a Colômbia). Essa opção de Condon, que parece seguir uma adaptação já feita pelo musical, se por um lado permite a inserção de números musicais e coreografias executadas por Jennifer Lopez do alto de um salto agulha, por outro parece diluir a mensagem política de resistência à opressão que constituía a espinha dorsal da obra (ao menos na adaptação feita por Babenco). O resultado é que, embora este novo “O beijo da Mulher-Aranha” não seja exatamente inassistível, passe longe de ser memorável como o filme de quarenta anos atrás. Nenhuma das músicas é especialmente cativante e, apesar do esforço de Lopez como dançarina (como atriz é mais difícil), nenhuma das coreografias chega aos pés daqueles musicais dos anos 50 que Condon pretendia em tese homenagear. A comparação com a obra de Babenco desfavorece a nova versão principalmente no final. Se lá o desfecho trágico de Molina era um testamento não só de sua conexão forjada com Valentín, mas sobretudo de sua recém-adquirida consciência política de resistência ao regime ditatorial, aqui Molina parece se oferecer em sacrifício como se tivesse desistido de lutar – numa cena, aliás, construída de modo um tanto patético, com direito a tropeço mal encenado, que elimina toda a urgência e o desespero que o filme de 1985 imprimia tão bem àquele momento.

 

Avaliação: 2,5/5

 

Imagem de capa: O beijo da mulher-aranha. Cinesia Geek.

Sobre o(a) Autor(a)

João Paulo Capelotti

É advogado e pesquisador, e gosta de cinema desde que se entende por gente.
Publicado no Liceu Online por:

Jéssica Fernanda de Sousa

Edição - Liceu Online

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