Foi nos idos de 2007, quando estava no terceiro ano da faculdade de direito, que li “O estrangeiro”, de Albert Camus, para um trabalho de processo penal. Lembro que na época destaquei o julgamento de Mersault, o personagem central, pelo que ele é, não pelo que ele fez, e de como isso de certa forma está contaminado no aparato de punição estatal e na sociedade como um todo (está aí nossa dificuldade em separar o autor da obra). Aqui, o prolífico François Ozon transpõe para a tela com grande eficácia a indiferença de Mersault a tudo e a todos – e de como isso choca o júri encarregado de julgá-lo, em especial pela ausência de demonstração de pesar com a morte da mãe. Na esteira do existencialismo de Sartre, Camus parece demonstrar que estamos condenados a ser livres e sofrer com o peso de nossas escolhas, mesmo que elas sejam pela inércia e pela apatia. O cineasta consegue expressar essa frieza do personagem central com o auxílio da bela fotografia em preto e branco de Manuel Dacosse e com a interpretação contida de Benjamin Voisin, que já havia brilhado em “Ilusões Perdidas”. Ozon se cerca também de antigos colaboradores, como o ator Pierre Lotin (ganhador do César de coadjuvante por este filme) e a excelente figurinista Pascaline Chavanne. Mas talvez a contribuição mais importante de Ozon seja a nítida apresentação de tudo pela lente do colonialismo, que não só faz de Mersault, um francês, uma figura estrangeira no que teoricamente seria seu próprio país (a Argélia que então era uma colônia), mas também dá nome e voz a personagens que no livro são referidos apenas como “o árabe” e “a irmã do árabe” – escolhas acentuadas pela discreta e atmosférica trilha sonora assinada por Fatima Al Qadiri.
Avaliação: 4/5









