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por João Paulo Capelotti, especial para o LiceuOnline.

Ao receber o prêmio do SAG, o sindicato dos atores estadunidenses, por “Um completo desconhecido”, Thimothée Chalamet disse que o reconhecimento era um passo importante na direção de seu sonho de estar entre os melhores de seu ofício, tal como Marlon Brando e Daniel Day-Lewis. É interessante, portanto, a sobreposição entre ator e personagem em “Marty Supreme”, uma ficção construída a partir do jogador de tênis de mesa Marty Reisman (aqui com o sobrenome mudado para Mauser), que gira em torno justamente da obsessão por ser o melhor, mas também do preço caro pago por tal ambição. Chalamet, também produtor executivo e ligado ao projeto desde 2018, quando estourou com “Me chame pelo seu nome”, praticou o esporte com afinco, levando sua mesa até mesmo aos bastidores de “Duna”, para conferir o máximo realismo às partidas. Mais que isso, Chalamet captura com precisão o misto de arrogância e canalhice do personagem, até suas dimensões mais patéticas, no sentido de que ele não tem medo de quão longe precisa ir em nome de seus objetivos. O roteiro injeta a dose certa de humor nas situações em que o protagonista se enfia por se achar não só mais esperto que os outros, mas antes de tudo um predestinado para a grandeza, deixando claro ao espectador que o nó cada vez mais apertado em seu pescoço foi amarrado por ele mesmo. Do mesmo modo que em “Jóias brutas”, última colaboração de Josh Safdie com seu irmão Benny, há um senso de urgência e caos que permeia toda a narrativa, auxiliado pela montagem frenética e pela trilha de sintetizadores tão bem composta por Daniel Lopatin. Mas o que realmente eleva o filme a um nível superior, a exemplo do que os irmãos Coen fizeram no seu remake de “Bravura Indômita”, é sua habilidade em funcionar como metáfora de um país – aqui, os Estados Unidos da década de 1950, que emergiam da II Guerra Mundial como potência e alimentavam uma ilusão de onipotência, fermentada por décadas de Doutrina Monroe, Destino Manifesto e congêneres. Mas se essa autoimagem como país perdura até hoje (e basta ver o que Donald Trump fez em um ano de mandato), ao menos Marty encerra sua jornada de amadurecimento com a percepção de que, na verdade, precisa de bem menos do que imaginava para ser feliz.

 

Avaliação: 5/5

 

Imagem de capa: Marty Supreme. GenteIg.

Sobre o(a) Autor(a)

João Paulo Capelotti

É advogado e pesquisador, e gosta de cinema desde que se entende por gente.
Publicado no Liceu Online por:

Jéssica Fernanda de Sousa

Edição - Liceu Online

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