Filmado com menos de 1 milhão de dólares, “Obsessão” é mais um exemplo de como o terror feito com quase nenhum orçamento, mas um roteiro muito criativo e bem amarrado, é capaz de dar renovado frescor a tramas que poderiam parecer simplórias. Aqui o diretor Curry Barker, que chamou a atenção do estúdio com vídeos no YouTube (tal como os Irmãos Philippou, de “Fale comigo”), parte de Bear, sujeito tímido e apaixonado pela colega de trabalho Nikki. Um dia, recorrendo a um misterioso artefato, ele deseja “que ela o ame mais que tudo no mundo” (nessas palavras). E o que até então parecia uma comédia romântica clichê se transforma em terror quando o desejo do protagonista é realizado. O que mais chama a atenção é o preciso controle de tom que o realizador tem: uma mesma cena vai da comédia de costumes ao suspense e depois ao gore; rimos de nervoso e depois levamos um susto; há uma comicidade perversa em situações como a que envolve uma gata. Outras escolhas da direção também merecem aplausos, como a de frequentemente esconder o rosto de Nikki nas sombras, o que confere ainda mais imprevisibilidade às suas reações – algo potencializado pelo ótimo desempenho de Inde Navarrete, cuja expressão corporal e vocal passa do doce ao assustador em segundos. Na superfície, “Obsessão” é um entretenimento bastante eficiente e de duração enxuta; mas é interessante que ele tenha vindo à tona justamente quando se discutem temas como misoginia e cultura incel/redpill. Isso porque, em termos práticos, o que Bear quer é quase uma “trad wife”, uma mulher sem subjetividade que tenha olhos apenas pra ele. Ao levar essa premissa ao extremo, Barker faz mais que um conto de advertência: entrega também uma alegoria poderosa de uma mazela que corrói a sociedade contemporânea.
Nota: 4/5









