Em 1872, saiu dos prelos a primeira edição de A volta ao mundo em 80 dias, novo romance de Jules Verne, autor já reconhecido entre e para além das fronteiras francesas, mas que, até então, enfrentava dificuldades financeiras, mesmo com o contrato firmado em 1862 com o editor Pierre-Jules Hetzel, responsável por fomentar e divulgar sua extensa produção literária. No ano seguinte, contudo, a situação de Verne alterou-se substancialmente: a obra lhe proporcionou expressivo êxito comercial, garantindo-lhe estabilidade econômica após anos de atividade intensa e publicações de grande circulação (Terron, 2017).
O sucesso de A volta ao mundo em 80 dias suscita questões pertinentes acerca das motivações que levaram essa narrativa, entre tantas de Verne, a conquistar o público de forma tão ampla a ponto de assegurar ao autor a tão almejada independência financeira. O romance narra as aventuras de Phileas Fogg, distinto cavalheiro inglês que, movido por uma aposta com outros membros de seu clube, decide contornar o globo terrestre em oitenta dias. A aposta, que envolvia a totalidade de sua fortuna, parecia impossível, dada a distância a ser percorrida e a possibilidade de imprevistos que poderiam comprometer o prazo estipulado. Com a ajuda de seu criado francês, Passepartout, Fogg parte de Londres em direção à França, iniciando uma jornada que, a cada escala, confronta o personagem com os limites da técnica, da racionalidade e da sorte.
O enredo despertou tamanho interesse que, durante o período de publicação seriada, leitores de diferentes países realizaram apostas reais sobre a possibilidade de o protagonista cumprir a viagem no tempo previsto, o que evidencia a repercussão social e cultural da obra. Segundo Franco Moretti (2009, p. 205), as aventuras de Verne o colocam entre os “grandes exploradores do mundo da ficção”. Entretanto, em A volta ao mundo em 80 dias, Jules Verne construiu uma aventura possível na realidade, ultrapassando o domínio da aventura imaginária para aproximar-se do verossímil, compondo uma narrativa em que a façanha de Fogg se apresenta como realizável à luz dos avanços técnicos do século XIX.
Um dos aspectos que singularizam a obra de Jules Verne reside na estreita relação que o autor estabelece entre a narrativa ficcional e as transformações concretas de seu tempo histórico. Em A volta ao mundo em 80 dias, essa articulação manifesta-se pela incorporação de elementos técnicos e científicos que marcaram o século XIX, como o desenvolvimento da energia elétrica, a expansão dos navios e trens movidos a vapor e a difusão do telégrafo. Tais inovações, ao promoverem uma verdadeira revolução nos meios de transporte e comunicação, conferiram plausibilidade à aventura de Phileas Fogg, tornando verossímil a realização de uma viagem ao redor do globo em apenas oitenta dias.
Nesse sentido, a aproximação entre ficção e realidade reforça a afinidade da obra com o conceito de “realismo formal” proposto por Ian Watt, uma vez que Verne estrutura sua narrativa a partir de acontecimentos e inovações verificáveis de seu tempo, como o uso do telégrafo, a navegação a vapor e a expansão das ferrovias. Diferentemente de Vinte mil léguas submarinas, em que a imaginação científica se projeta para além dos limites do possível, A volta ao mundo em 80 dias constrói um universo narrativo ancorado na materialidade do progresso técnico, o que potencializa a identificação do leitor e contribui para o impacto de sua recepção.
Embora o romance se inscreva no gênero da aventura, ele evidencia, em sua essência, o interesse pelo estrangeiro e pelo desconhecido, elementos característicos do imaginário europeu oitocentista, marcado pelas transformações nos meios de comunicação e transporte. Tal perspectiva manifesta-se nas figuras de Passepartout — francês que rejeita os hábitos de sua terra natal e busca na Inglaterra a racionalidade e o método —, e de Alda — viúva indiana resgatada por Fogg e seu criado, cuja presença amplia o horizonte cultural da narrativa e culmina na união simbólica entre o Ocidente e o Oriente. A própria decisão de empreender uma viagem ao redor do mundo — passando por países como Índia, China, Japão e Estados Unidos — revela um olhar voltado ao outro, ao exótico, ao diverso, de modo a refletir a curiosidade científica e cultural típica da Europa oitocentista.
O interesse pelo desconhecido — o exotismo —, presente na narrativa de Verne, pode ser interpretado também à luz do movimento literário mais amplo que, entre os séculos XVIII e XIX, buscou reconstituir e valorizar as origens nacionais por meio da ficção. Assim como Walter Scott, em Ivanhoé, Alexandre Herculano, em Eurico, o presbítero, e José de Alencar, em As Minas de Prata, Verne mobiliza o passado e o imaginário histórico para construir uma literatura que, ao mesmo tempo em que entretém, participa da formação simbólica de uma época. Dessa forma, a leitura de A volta ao mundo em 80 dias permite compreender, conforme observa Moretti (2009, p. 212), que “o romance volta a ser central para a nossa compreensão da modernidade” em virtude de seus “traços pré-modernos, que não são resíduos arcaicos, mas articulações funcionais de necessidades ideológicas”.
Considerando a amplitude temática e o contexto de produção de A volta ao mundo em 80 dias, verifica-se que o romance de Jules Verne ultrapassa o caráter de simples narrativa de aventura, configurando-se como uma representação literária das transformações sociais, técnicas e simbólicas do século XIX. A inserção de elementos científicos e tecnológicos na estrutura narrativa evidencia não apenas o otimismo oitocentista pelo progresso, mas também a tentativa de integrar o imaginário do desconhecido ao domínio do possível. Assim, Verne demonstra ser capaz de articular, em um mesmo projeto literário, a curiosidade exploratória herdada do romantismo e a racionalidade característica da modernidade industrial. Ao equilibrar imaginação e verossimilhança, A volta ao mundo em 80 dias consolida-se como uma obra paradigmática para a compreensão das relações entre literatura, ciência e ideologia na formação da sensibilidade moderna, reafirmando o papel do romance como instrumento privilegiado de leitura e representação do mundo em transformação.
Para saber mais:
MORETTI, Franco. O romance: história e teoria. Novos Estudos, CEBRAP (85), 2009, p. 201-212.
TERRON, Joca. Jules Verne, romancista da ciência. In.: VERNE, Jules. A volta ao mundo em 80 dias. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.
WATT, Ian. A ascensão do romance: estudos sobre Defoe, Richardson e Fielding. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Imagem de capa: Criada por ChatGPT.









