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por , especial para o LiceuOnline.

Por Piero Leirner*, especial para o LiceuOnline.

A rigor, qualquer coisa é melhor que a horda que assaltou a Petrobras. Se fosse o Cabo Daciolo, estaria valendo. Lembrando que essa turma chegou na empresa ainda no Governo Dilma (Roberto Castello Branco, atual Presidente demissionário, entrou para o Conselho de Administração em 2015). Se essa foi uma resposta à Lava-Jato, é preciso se perguntar quem no entorno da Presidenta não suspeitou que era a blitzkriege econômica, política, mental e sociológica sobre o Brasil em geral, e a Petrobras em particular. Afinal, que estratégia foi essa de “dar razão” aos setores que há muito conspiravam, elencando pessoal como Joaquim Levy e o próprio Roberto Castello Branco? Aliás, cabe se perguntar: Se Dilma tivesse colocado um general na Petrobras, veríamos procuradores e seu chefe devassando a Empresa? Uma vez que ela fez antes essa experiência no Dnit, por que não replicou a fórmula? Vamos supor que se a Petrobras com um General e seus subordinados mesmo assim tivesse passado pelo que passou, no mínimo em 2016 todo mundo iria estar se perguntando se afinal os militares não permitiram isso. Afinal, devia ela também saber que na entrelinha do “processo de transformação do Exército” já era possível ver militares no Judiciário, MPF, e nas Empresas investigadas, como disse Villas Bôas em seu livro recente. Dali para frente foi o 7×1.

 

Joaquim Silva e Luna, 4 estrelas, promovido da Itaipu para a Petrobras. Está demorando para se relacionarem ao “tuíte” do Villas Bôas, afinal ele era o Ministro da Defesa na ocasião (e não Jungmann, como está no livro de Villas Bôas, como bem notou Joao Roberto Martins Filho). Talvez isso explique uma parte decimal DESSA escolha em particular; mas não explica o porquê de ser (mais) um General ocupando cargo (detalhe que outro entrou no lugar de antes).

 

Pois bem, o que pode ser relevante, então? Em princípio, as possibilidades poderiam ir para 2 caminhos:

 

1) O General Silva e Luna continua o frenesi privatista, queima as refinarias que estão lá e frita o resto. Agrada o “mercado”, e fideliza a Faria Lima junto aos fardados. “Acabou a desconfiança”. Isso fortalece ainda mais uma candidatura fardada em 22 para Presidente ou Vice, ou mesmo uma preparação de terreno para Mourão.

2) Eles dão uma de “Dilma Guerreira”, revertem preços e privatizações, tentam controlar inflação com preço de combustível, dentre outras coisas. Aí Bolsonaro aumenta o potencial de ser um “estorvo” – papel que ocupa desde 1/1/2019. Agora esse “estorvo”, além de todos os problemas elencados, passou a ser “comunista”. Como disse Eliane Cantanhêde, “Bolsonaro e Olívio Dutra são a mesma pessoa”. A ideia é justamente insistir que há “uma alternativa”, e assim se pavimenta mais ainda o “caminho do meio”, produzindo uma direita “civilizada” que vão chamar de centro. 

 

O mais importante é que ambos os caminhos não são excludentes. Ao mesmo tempo que é reforçada a narrativa de que os Generais que estão lá são subservientes, “ele manda nós obedecemos”, a tal “alternativa” a Bolsonaro seria justamente alguém de seu próprio campo, apontado como uma “dissidência”. Moro, Mandetta, Santos Cruz… Mourão…

 

Quem sabe, o teste-drive poderá ser “controle de preços e privatização” (como me parecem sugerir o Eduardo Costa Pinto e Manuel Domingos Neto, “assobiar e chupar cana” ao mesmo tempo) fazendo a famosa “pinça” andar. Eles criam o problema (controle) e dão a solução (privatização de tudo!). É inacreditável que se tenha ouvido de gente de esquerda uma reclamação sobre o “prejuízo” da Petrobras com a queda no valor de suas ações.

 

Para além dos fatores “administrativos” e “econômicos”, é notável como a Petrobras serviu de pretexto para mil e um golpes e ataques táticos produzidos por diferentes tentáculos de um polvo, ninguém duvida. Grampos, Lava-Jato, caminhoneiros, a maior operação de entreguismo: junto com a Petrobras quebraram a engenharia nacional, e dela forçaram a venda de seus braços na Indústria de Defesa.

 

Pois bem, resumidamente, um dos legados desta política de terra arrasada é o butim e a ocupação desse espaço. Três dos protagonistas pós-2016 foram sem dúvida as Forças Armadas, com destaque ao Exército. Em 2020 o Exército Brasileiro (EB) passou a ser a 1a empreiteira em contratos com a União; vários contratos das “grandes obras militares” passaram a ser executados por empresas israelenses e americanas que montaram os sistemas de guerra eletrônica e de vigilância do EB desde os anos 1990, tendo pessoal da reserva das FFAA em seus quadros nas subsidiárias brasileiras (dessa intervenção estatal o “mercado” não dá um pio). 

 

 

Até aí, vá lá, toda área de defesa americana tem fardados (da ativa) nos seus boards. Mas nem por isso foi feito um programa de destruição para depois “retomar”. Eles fazem isso em outros lugares: o “padrão Iraque”, isto é, o mesmo ator que destruiu se propõe a reconstruir. É algo que passa junto com o processo de “reboot” do Estado. Isto é, aparelhamento e controle. Não sem antes ter executado um “serviço de inteligência” para saber exatamente como clonar sistemas pós-hecatombe. Vamos recordar as palavras do General Villas Bôas?:

 

 

O  grupo  que  trabalhou  na  transformação  era  integrado  por  generais  e oficiais  movidos  pelo  mesmo  ideal,  pela  mesma  ânsia  de  que,  quando saíssem do Exército, deixariam um Exército melhor. Externamente,  recorremos  a  outras  empresas  de  grande  vulto,  que, igualmente,  abriram  ao  nosso  conhecimento  as  respectivas  estruturas organizacionais e os processos de formulação estratégica. Vale do Rio Doce, Odebrecht,  Banco  Central  e  Petrobras  gentilmente  assentiram  em  interagir conosco,  deixando  as  portas  abertas  para  futuras  consultas.  Logicamente, houve  um  estreito  intercâmbio  com  a  Marinha  e  a  Força  Aérea,  ambas envoltas em atribulações similares às nossas”. 

 

Isso foi entre 2011 e 2015, se não me engano.

 

Pois, retomando esse período, nada na trajetória que vimos até aqui sugere que os militares “mudaram de posição”. Vejam o Iraque e outros lugares onde se realizou essa proposta de “destruir para reconstruir” (a Naomi Klein, na Doutrina do Choque, faz uma análise primorosa disso). Em nenhum deles a vida melhorou. Aliás, melhorou apenas para os atores que protagonizaram esse papel de porrete e cenoura.

 

Sérgio Gabrielli, ex-Presidente da Petrobras, já disse recentemente que a reversão de tudo que foi feito é muito improvável. Portanto o cenário deve ser pensado em relação ao que resta.

 

Como desdobramento geral dessa operação, vem a “psyop” de praxe. A interminável série que se está produzindo de um “nacionalismo militar” rompante não é nada além da ideia de que eles se constituem de alguma maneira em “pólos opostos”, “freios”,  “contrapesos”, etc. Isso sem falar no fato de que o livro do Villas Bôas também menciona que “estivemos perto da falta de controle na greve dos Caminhoneiros”, sugerindo que lá foi um “quase-takeover”. Ou seja, é “3..,2…1…” para alguém “descobrir” que eles estão “estrategicamente se antecipando a um problema que poderia conduzir a uma intervenção militar”. Ou seja, que os militares estão se prevenindo contra uma intervenção militar, salvando a democracia, capici? Então, somando tudo isso, agora eles se tornaram esse vetor em “oposição” ao mercado, mas no fundo é só nacionalismo mesmo (risos). A análise é, novamente, da Eliane Cantanhêde, mas foi também emulada por setores à esquerda.

 

Mas o que essa “operação em pinça” sugere? Será que existe essa virada de leme entre os militares? 

 

Isso não é impossível, já adianto aqui. O Da Empoli, nos Engenheiros do Caos, mostra que essa foi uma estratégia comum na Europa. Por exemplo, Orbán fez isso na Hungria. Não duvido que um “spin doctor”, desses com estrelas no ombro, tenha assoprado essa no ouvido do ocupante da cadeira no Planalto. Mas, ao contrário da Europa, a biruta aqui gira rápido. Hit and Run.

 

Por isso, tendo mais a apostar naquilo que Romulus Maya sugeriu: quando os ativos estiverem lá embaixo, Bolsonaro “volta atrás” (já viram isso antes?) e mostra que o “Mercado venceu”. Os generais “perderam”, e assim continua a farsa de que ele “controla o jogo”, “manda neles”, etc. Esse também foi todo o simulacro montado no caso Pazuello-“Chefe-o-Senhor-Manda-Eu-Obedeço”. E assim todos continuam felizes para sempre, com ou sem S&L na Petrobras. Como Mourão disse, “Nos últimos 26 anos a Petrobras tomou oito tombos, e [ela] volta. ‘Easy go, easy come’ [fácil vai, fácil vem]. É isso o que vai acontecer, basta ficar muito claro que a troca do presidente [da Petrobras] não significa a troca na política de preços que é praticada”.

 

E falando em Mourão, não se esqueçam de Santos Cruz na oposição “ativa e altiva!”. Do contrário, o que Bolsonaro vai fazer? Chamar a turma “nacionalista” para governar? Vai vestir a carapuça de “comunista”? E olhe que essa ainda tem a vantagem de mais um sequestro de pauta, aí é que só resta esquerda BBB mesmo. Daí se vê como tanto a esquerda “New left” como a tal “nacionalista” ganham nesse jogo; uma porque é empurrada em direção à Globo e espera 22; outra porque acredita que assumirá algo junto com seus amigos no Exército. “Pena” que ainda não será dessa vez. Paulo Skaf, novo Conselheiro da República, manda saudações a vocês! Lembram que eu falei do “polvo” lá em cima? Pois é, o bacana desse bicho é (entre outras características) que “sua mente” também está nos tentáculos. Ou seja, não há só um “comando central”, as operações são coordenadas por inúmeros vetores, que se combinam. Globo, new and old left, farialimers e militares várias vezes até entram em sintonia por “oposição combinada”. O nome disso é “telecatch”.

 

 

*Piero Leirner é doutor em Antropologia Social e professor da Universidade Federal de São Carlos.
lattes: http://lattes.cnpq.br/3883880276055777

 

 

Sobre o(a) Autor(a)

Publicado no Liceu Online por:

Cristian Junior

Mineiro metido a engraçadão, corinthiano e professor. Mestre em História pelo Programa de Pós Graduação em História da UFG. Tem experiência na área de História Política, com ênfases em História do Brasil Recente, Neoliberalismo no Brasil, Governo Collor (1990-1992), História da Imprensa e Charges e História. Como membro de grupos de pesquisa, atua nas áreas de Capitalismo e História e Filosofia Contemporânea.

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