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por Jéssica Fernanda de Sousa, especial para o LiceuOnline.

György Lukács teorizou o Romance Histórico a partir da experiência europeia de transformações não naturais ocorridas entre fins do século XVIII e início do XIX que proporcionaram condições favoráveis ao florescimento de uma concepção de história diferente, o “novo humanismo”, captada por Walter Scott com maestria em Waverley, obra que inaugura o Romance Histórico Realista enquanto forma literária capaz de captar e educar o leitor sobre a historicidade da vida humana.

 

Em O romance histórico, a historicidade reúne o pertencimento do indivíduo a um tempo, seu sentimento perante um lugar e uma cultura, e a percepção de seu papel ativo nos rumos desse tempo e espaço, sendo, assim, um desdobramento do humanismo hegeliano. Mesmo após a vinculação de Lukács com as vertentes marxistas de pensamento, Hegel continuou presente em suas teorias, sobretudo através das abordagens humanista e dialética da história, que culminaram, no caso de O romance histórico, na ideia de “necessidade histórica” da obra literária (Lukács, 2011, p. 79).

 

Uma forma literária da potencialidade do Romance Histórico Realista passou a existir, segundo Lukács, em um momento histórico específico, após uma história pregressa de condições sócio-ideológicas possibilitar sua emergência no início do século XIX. A Revolução Francesa (1789-1799) e o domínio de Napoleão Bonaparte sobre a França (1789-1814), períodos de revoluções não naturais (instauradas pelo homem), impulsionaram a tomada de consciência do proletariado sobre sua condição histórica. O exército de massas francês foi fundamental nesse processo, pois as guerras, antes travadas por exércitos reais ou contratados, envolveram os civis como força ativa, incorporando uma propaganda que revelava as motivações e rumos dos conflitos e da nação. Para Lukács, “a enorme expansão quantitativa das guerras tem um novo papel qualitativo e traz consigo uma extraordinária ampliação de horizontes”, pois os indivíduos que até então viviam isolados em seus reinos de origem ganharam a oportunidade de conhecer outras partes da Europa e do mundo. As guerras napoleônicas possibilitaram, assim, uma “experiência de massa” a partir da qual “criam-se possibilidades concretas para que os homens aprendam sua própria existência como algo historicamente condicionado” (Lukács, 2011, p. 38-40).

 

Nesse sentido, a Revolução Francesa ocasionou uma noção de aceleração do tempo que alterou qualitativamente a compreensão das massas acerca das revoluções, proporcionando a totalidade através da tomada de consciência das massas de sua historicidade, que promoveu, em âmbito mais amplo, uma “mudança de visão de mundo na concepção do progresso humano” (Lukács, 2011, p. 43). A ideia iluminista, resquício da estratificação medieval, do progresso da vida e da história como orgânico e natural caiu por terra quando as massas se deram conta, através da participação nos conflitos políticos de delimitação dos Estados nacionais na Europa, de que o destino da nação é traçado por mãos humanas. A partir disso, nasceu uma nova concepção de história que tem como essência a transformação, a constante mudança, chamada por Lukács de “novo humanismo, um novo conceito do progresso” (Lukács, 2011, p. 45).

 

Fruto do “novo humanismo”, para György Lukács, o Romance Histórico Realista é um projeto literário no qual a ficção, sobretudo os personagens, são resultados de processos históricos e que oferece condições para que o leitor compreenda as transformações que transpassam os personagens e redirecionam a história. O Romance Histórico, na perspectiva de lukacsiana, possui conotação política latente, pois tem como objetivo a humanização do sujeito leitor, a conscientização do indivíduo de sua historicidade. Por isso, é fundamental que o verdadeiro Romance Histórico Realista tenha também um caráter didático, que proporcione ao legente um entendimento crítico da complexidade dos desdobramentos da história.

 

Na teoria lukacsiana, o Romance Histórico Realista não se trata do cenário em que se desenvolve a ficção. Uma narrativa situada na Idade Média ou na Antiguidade, apesar do distanciamento temporal, não necessariamente é histórica, pois é a forma com que o escritor constrói a narrativa que lhe concede a inclusão na categoria. Esse é o caso de O castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole. Segundo Lukács, o “mais famoso ‘romance histórico’ do século XVIII […] trata a história apenas como roupagem; somente importa aqui a exposição da curiosidade e da excentricidade do meio, e não o retrato artístico fiel de uma época histórica concreta” (Lukács, 2011, p. 33). A obra de Walpole não é, portanto, um romance histórico, mas um romance que tem a história como cenário. Em Narrar ou Descrever?, texto publicado no mesmo ano de O romance histórico, Lukács desenvolveu a distinção entre a narração e a descrição como técnicas de escrita de romances, enfatizando que apenas a primeira é adequada ao Romance Histórico Realista, pois a “narração distingue e ordena. A descrição nivela todas as coisas” (Lukács, 1965, p. 62).

 

Para Lukács, o Romance Histórico Realista surgiu com a publicação de Waverley (1814), de Walter Scott, sendo este o primeiro romance construído em torno da concepção de história do “novo humanismo”. Waverley é o resultado da compreensão de Scott do “sentido histórico” de seu tempo, que se faz presente através da criação de um herói médio (ou mediano), um herói que, diferente dos grandes homens da historiografia, conhecidos por feitos históricos de peso, é capaz de interligar dialeticamente forças antagônicas. Edward Waverley, o personagem típico scottiano e o herói médio do romance que carrega seu sobrenome como título, é um nobre e integrante do exército inglês, mas que convive com montanheses das Terras Altas da Escócia a fim de conhecer seus costumes. Na narrativa, Edward exerce o papel de mediador entre dois setores divergentes, a nobreza inglesa e os camponeses escoceses. Por essas características, essa obra de Scott é, para György Lukács, o modelo de Romance Histórico Realista do “novo humanismo”. Nas palavras do teórico húngaro,

 

Assim, Walter Scott torna-se um grande poeta da história: porque tem um sentimento mais profundo, legítimo e diferenciado da história que qualquer outro ficcionista antes dele. A necessidade histórica é, em seus romances, da mais rigorosa implacabilidade. Contudo, não é um fato além do humano, mas uma interação complexa de circunstâncias históricas concretas em seu processo de transformação, em sua interação com homens concretos, que crescem nessas circunstâncias, são influenciados por elas de formas muito diferentes e atuam individualmente, de acordo com suas paixões pessoais. Na figuração, portanto, a necessidade histórica é sempre um resultado, não um pressuposto; ela é, de modo figurado, a atmosfera trágica do período, e não o objeto das reflexões do escritor (Lukács, 2011, p. 79).

 

 

Para saber mais:

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. 2. ed. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2009.

LUKÁCS, György. O romance histórico. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2011.

LUKÁCS, György. Narrar ou Descrever? In: Ensaios Sobre Literatura. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, p. 43-93.

 

 

Imagem de capa: Outras Palavras. Modificado por ChatGPT.

Sobre o(a) Autor(a)

Jéssica Fernanda de Sousa

Graduada em História pela Universidade Federal de Goiás e mestranda em Estudos Literários na mesma instituição. Desenvolve pesquisas nas áreas de História do Brasil Imperial, Literatura e Teatro Oitocentistas.
Publicado no Liceu Online por:

Edição - Liceu Online

Revista online de Humanidades. @liceuonline

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