A busca da verdade
São inúmeros os cientistas, historiadores e filósofos que perseguiram a verdade. Na história da filosofia esse tema é um dos mais fundamentais. Descartes ao formular seu cogito não esperava outra coisa além de encontrar algo de “firme” e “permanente” nas ciências. Em Platão, a finalidade da dialética consiste em afastar o filósofo do engano e do erro para que se possa acessar a verdade. Alguns erigiram sistemas para garantir que a filosofia apreendesse a verdade. Mas não Nietzsche.
O perspectivismo nietzschiano defende que o que nos resta são apenas interpretações da verdade que usamos para construir nossa realidade. Para definir quais são as interpretações mais desejáveis ter-se-á que avaliar o valor das interpretações. Questionar a supervaloração a essas interpretações da verdade que são dotadas de uma moral doente, faz parte do projeto de transvaloração dos valores, que não é apenas uma inversão de valores, pois se fosse ainda estaríamos operando na mesma lógica da moral de rebanho. Trata-se de destituir o valor moral das coisas imorais[1]. O caráter perspectivo dos valores morais não é apenas da ordem epistemológica, é antes do âmbito da existência, isto é, o perspectivismo está ligado à existência na medida em que as interpretações são uma tentativa do homem de preservar a si mesmo, na medida em que se estabelece um jogo de forças. Nas palavras de Nietzsche: “em toda estimativa de valor se trata de uma (…) conservação do indivíduo, de uma comunidade, de uma raça, de um Estado, de uma igreja, de uma crença, de uma cultura”[2], a ideia de verdade é, portanto, moral.
Valorar uma interpretação como verdade, sem antes lançar mão da suspeita é imprudente, e o risco se potencializa quando o indivíduo procura impor essa verdade como um valor universal. A verdade enquanto universal tem em Nietzsche um aspecto negativo: trata-se de impor uma obediência, negando, por outro lado, a suspeita, a crítica e a singularidade. Diz Nietzsche:
Na presença da moral, como diante de toda autoridade, não se deve pensar, menos ainda falar: aí – se obedece! Desde que o mundo é mundo, autoridade nenhuma se dispôs a ser alvo de crítica; e criticar a moral, toma-la como problema, como problemática: o quê? Isso não era – não é – imoral? – Mas a moral não dispõe somente de toda espécie de meios de apavoramento para conservar longe de si as mãos críticas e os instrumentos de tortura: sua segurança repousa mais ainda em certa arte do encanto, na qual é entendida – ela sabe “entusiasmar”[3].
O mundo tornou-se infinito
A verdade é deste mundo, e por isso é necessário insistir na multiplicidade de interpretações que o perspectivismo propõe, pois é através dele que Nietzsche interroga, sagazmente, os filósofos que pretensamente julgam possuir a verdade.
Para se opor à pretensa universalidade da verdade única, Nietzsche irá argumentar que todo conhecimento é perspectivo e que não temos nenhum método para o conhecer e para a verdade. Se existe um método seguro para conhecer a verdade não é por um compromisso com o que é verdadeiro, afinal a “metódica da verdade não foi inventada por motivos de verdade, mas por motivos de potência, de querer-ser-superior”[4]. O conhecimento que se quer perspectivo é incompleto, inacabado e por isso reconhece outras perspectivas[5]. O perspectivismo, portanto, não tem a pretensão de impor uma verdade, ao contrário, ele reconhece sua precariedade ao assumir que a perspectiva do perspectivismo é apenas mais uma perspectiva: “a perspectiva humana é um amplo e inomogêneo corpo de opiniões, crenças, preconceitos, teorias, hábitos, modos e padrões de comportamento”[6].
Ora, se a filosofia de Nietzsche não se assume como verdadeira, e sim como uma perspectiva, por que deveríamos lhe dar crédito? O aparente paradoxo se agrava quando o filósofo diz que o “conhecimento é um efeito ilusório da afirmação fraudulenta de verdade”[7]. Se Nietzsche concebe que o conhecimento é apenas um efeito ilusório de uma afirmação fraudulenta do que é verdadeiro, seria então assumir que o conhecimento elaborado por ele mesmo é uma fraude? É, naturalmente, uma honestidade filosófica por parte de Nietzsche, pois se o filósofo pretendesse estabelecer uma verdade, sua filosofia entraria em colapso – ou no mínimo seria dogmática, pois estaria praticando justamente aquilo que se pretende combater. Portanto, Nietzsche não é como o cético que diz que toda verdade é falsa, menos a sua própria verdade. Faz-se necessário Nietzsche assumir que sua filosofia é apenas mais uma interpretação, o que o leva a dizer que: “acontecendo de também isto ser apenas uma interpretação – e vocês se apressarão em objetar isso, não? – bem, tanto melhor”[8]. O filósofo alemão convida seu leitor a suspeitar dele próprio, portanto.
O perspectivismo defende uma multiplicidade de interpretações[9] em recusa à imposição de uma verdade universal. Diz o filósofo: “mas penso que hoje estamos ao menos afastados da ridícula imodéstia de decretar, a partir de nosso ângulo, que somente desse ângulo se pode ter perspectivas. Ao contrário, o mundo se tornou para nós outra fez ‘infinito’: na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre em si infinitas interpretações”[10]. Temos, nesse sentido, não mais uma verdade universal e sim “infinitas interpretações”. Para Nietzsche, não existe interpretação que seja verdadeira e justa[11]. No entanto, existem interpretações que são abusivas, mesquinhas, arbitrárias. Para definir se uma interpretação é saudável ou não estabelece-se o critério da vida, isto é, a interpretação que realçar a vida e ascendê-la é menos abusiva[12]. Essa é a regra de corte para avaliar as interpretações, é a bússola da filosofia de Nietzsche.
O filósofo alemão faz uma história da verdade sem possuir a verdade. Explica Michel Foucault: trata-se, para Nietzsche, diz o filósofo francês, de “pensar a história da verdade sem basear-se na verdade”[13]. A verdade é um erro, um erro que para Foucault tem uma vantagem: a verdade “tem a seu favor o fato de não poder ser refutada, sem dúvida porque o longo cozimento da história a tornou inalterável”[14]. Para Nietzsche, o conhecimento verdadeiro não é mais “real” do que a “aparência”, sendo justamente o inverso, isto é, a aparência é mais real do que uma verdade ilusória. Assevera Nietzsche: “Não passa de um preconceito moral que a verdade tenha mais valor que a aparência; é inclusive a suposição mais mal demonstrada que já houve”.
Referências
ARANHA, Maria Lúcia Arruda e MARTINS, Maria Helena pires. Filosofando: introdução à filosofia. 4° ed. São Paulo: Moderna, 2009.
CAMARGO, Gustavo. Sobre o conceito de verdade em Nietzsche. In: Revista Trágica: estudos sobre Nietzsche – 2° semestre de 2008 – Vol.1 – n°2 – pp.93-112.
CORBANEZI, Eder. Perspectivismo e relativismo em Nietzsche [Dissertação de Mestrado – USP]. São Paulo, 2013.
DA SILVA, JOSEMAR. O papel do perspectivismo na filosofia de Nietzsche. Salvador- Bahia, 2007. (Dissertação de mestrado).
DESCARTES, René. Meditações sobre filosofia primeira. Trad. Fausto Castilho. Ed.bilíngue em latim e português – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004.
DESCATES, René. Regras para a direção do espírito. Trad. Artur Mourão. Edições 70.
FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história. In: Microfísica do poder. Org. Roberto Machado. 28 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014a.
FOUCAULT, Michel. Aulas sobre a vontade de saber. Tradução: Rosemary Costhek Abílio. São Paulo. Ed. Martins Fontes, 2014b.
ROCHA, Silvia. Os abismos da suspeita: Nietzsche e o perspectivismo. In: Revista O que nos faz pensar, n°18, Setembro de 2004.
HADOT, Pierre. O que é a filosofia antiga? Trad. Dion Davi Macedo. São Paulo: Editora Loyola, 1999.
NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. In: Obras incompletas. Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho; posfácio de Antônio Cândido. 5ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. Coleção: Os pensadores.
NOTO, Carolina. Vontade e verdade em Foucault. In: Philósophos, Goiânia, v.15, n. 2, p. 11-28, jul./dez. 2010.
Notas:
[1] Cf. DA SILVA, 2007, p.84.
[2] NIETZSCHE, apud CORBANEZI, 2013, p.57.
[3] NIETZSCHE, apud, DA SILVA, 2007, p.87. Obra: Aurora.
[4] NIETZSCHE apud CAMARGO, 2008, p.100 [itálico no original].
[5] Não é um conhecimento universal, perfeito e imutável tal como supõe a teoria das formas de Platão.
[6] NIETZSCHE apud CORBANEZI, 2013, p.46.
[7] NIETZSCHE, apud FOUCAULT, 2014, p.197.
[8] NIETZSCHE apud CAMARGO, 2008, p.109.
[9] É preciso notar uma clara distinção que existe entre relativismo e perspectivismo. Ambos reconhecem uma variedade de visões, de interpretações. No entanto, o relativismo supõe que todas são igualmente válidas. Ocorre o oposto para o perspectivismo. Nietzsche supõe que existe uma multiplicidade de interpretações e, no entanto, aponta que as interpretações não tem o mesmo valor. Como mostramos anteriormente existem interpretações abusivas, mesquinhas, rasteiras. O relativismo requer uma igualdade e uma ausência de hierarquia entre as interpretações. Para Nietzsche, as interpretações não são equivalentes postulando uma hierarquia entre as interpretações. O que determina se uma interpretação é elevada ou não é o critério da vida. A interpretação que fazer a vida realçar é mais desejável que a interpretação que provoca uma vida decadente. Um exemplo de que o relativismo supõe uma equivalência e de que todas as interpretações são boas pode ser visto no relativismo cultural. Os hábitos de uma cultura comparados à outra se mostram diferentes; assumem-se assim visões variadas de um mesmo hábito. No entanto, não se pode supor que um hábito é superior a outro hábito, uma vez que se concebe que todos os pontos de vista do relativismo são equivalentes.
[10] NIETZSCHE apud CORBANEZI, 2013, p. ????
[11] Cf. NIETZSCHE apud CAMARGO, 2008, p.107.
[12] Nesse sentido devemos nos perguntar: qual modo de vida devemos preservar? A vida de qual espécie?
[13] FOUCAULT, 2014a, p.196.
[14] FOUCAULT, 2014b, p.60.









