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por , especial para o LiceuOnline.

Por David Maciel*

As eleições para as presidências da Câmara e do Senado deixaram uma lição clara para o movimento dos trabalhadores e toda a esquerda: o bloco no poder não quer a saída de Bolsonaro, mas sim sua domesticação. Para tanto, não apenas releva todos os crimes cometidos desde os primeiros dias de mandato ─ intensificados imensamente durante a pandemia ─, mantendo no escuro das gavetas os mais de 60 pedidos de impeachment já protocolados, como também busca criar as condições políticas mais favoráveis à aprovação da pauta política e econômica do golpe de 2016.

Daí as declarações de diversas lideranças empresariais contra o impeachment e/ou pelo apoio à candidatura de Arthur Lira, o que funcionou como um ukaze imperial para todos os partidos da direita da ordem que apoiavam a candidatura de Baleia Rossi. A adesão, aberta ou velada, do DEM, PSDB e MDB ao candidato do governo deixou a esquerda da ordem “com a brocha na mão”, apoiando sozinha um notório golpista, “homem de Temer” na Câmara e fâmulo do governo nas votações parlamentares.

No “toma lá, dá cá” das negociações, subiram à mesa verbas, cargos, ministérios e talvez uma vaga na chapa de Bolsonaro em 2022, sonho do DEM de ACM Neto e Caiado. No Senado, a vitória do governo foi ainda mais acachapante, pois o vitorioso Rodrigo Pacheco também contou com o apoio dos maiores partidos da esquerda da ordem, PT e PDT.

Com a vitória de Lira e Pacheco, o caminho para a aprovação do que ainda falta da pauta política e econômica do golpe fica facilitado, pois o que sobrou da decapitada oposição de direita concorda com essa pauta, e a oposição de esquerda derreteu ainda mais sob o peso do cretinismo parlamentar e da inação. No momento, a pauta do golpe implica avançar no programa de privatizações de empresas e recursos públicos, aprofundar o ajuste fiscal e reforçar ainda mais o aparato repressivo e a violência como mecanismos de controle social.

Entre os projetos prioritários para o governo no Congresso, estão: a privatização da Eletrobrás; a mineração em terras indígenas; a legalização da grilagem de terras por meio da “regularização fundiária”; a liberação de novas áreas florestais para o desmatamento, a mineração e o agronegócio; a reforma tributária; o desmanche final do serviço público com a reforma administrativa; a autonomia do Banco Central; a facilitação da posse e do porte de armas; a redução da maioridade penal; o excludente de ilicitude, que garante a impunidade das forças armadas e polícias na repressão às lutas sociais e no trato cotidiano com os pobres.

Mesmo com a segunda onda da covid-19 galopando no país inteiro, enquanto a vacinação avança a passo de tartaruga, e com a expectativa de que a crise econômica e social se agrave em 2021, o bloco no poder, particularmente o grande capital, aposta no aprofundamento do neoliberalismo e do autoritarismo, pois pretende manter os superganhos obtidos com a pandemia em 2020. Enquanto a economia regredia a taxas inéditas e a renda dos trabalhadores era deprimida pelo desemprego, pela redução salarial e pela inflação, quase todos os setores da economia conquistaram índices positivos de crescimento e lucratividade, intensificando o processo de concentração e centralização capitalista.

Neste ano, o grande capital pretende manter esta trajetória de sucesso avançando ainda mais sobre os bens públicos e reduzindo os custos com o trabalho, ao mesmo tempo em que reforça os mecanismos repressivos de controle social, de modo a impedir que o desalento popular se transforme em protesto e mobilização. Afinal, o golpe de 2016 precisa continuar reconfigurando as relações entre capital, trabalho e Estado e o sistema de representação política, o que implica a desregulamentação econômica, a privatização do Estado e dos bens públicos, a supressão dos direitos sociais e trabalhistas, a precarização do mundo do trabalho e a restrição do espaço político dos trabalhadores.

Se para isto é preciso permitir a fascistização do aparelho de Estado e da vida social, a implosão do rito judiciário, o desvertebramento dos partidos, e cortejar o fascismo para que a ameaça de golpe continue no horizonte como um fator de dissuasão sobre as forças de esquerda e o movimento dos trabalhadores, tanto que bem! Mesmo num cenário de agravamento inimaginável da pandemia, com a propagação de novas cepas da covid-19 ainda mais contagiosas, a normalização da vida cotidiana e a vacinação a conta-gotas sendo furada de todos os lados por escroques de todos os tipos, se depender das classes burguesas, para os trabalhadores o pior ainda está por vir!

Outra lição deixada pela eleição para as presidências da Câmara e do Senado é o vazio do compromisso da direita da ordem com o que resta de democracia no país e com a contenção do bolsonarismo. Em nome do pretenso “compromisso democrático” dos principais protagonistas do golpe de 2016, a esquerda da ordem deixou-se levar pelo canto de sereia da “frente ampla”, levando-a à prática em diversos lugares nas eleições municipais do ano passado e agora no apoio a Baleia Rossi.

No voto, a esquerda da ordem levou uma “lavada”, e, em termos políticos, sofreu uma grave derrota política e ideológica, pois contribuiu para legitimar o golpe de 2016 e seus agentes aos olhos das massas trabalhadoras, tornando-se ainda mais refém da direita da ordem na oposição ao bolsonarismo. O malogro eleitoral e político destas iniciativas é hoje mais do que evidente, dando razão aos que alertavam contra tamanho equívoco político e ideológico. No entanto, prevaleceu o “cretinismo parlamentar”, determinado pela barganha por cargos na mesa diretora e nas comissões parlamentares e pela ilusão quanto à capacidade da dinâmica parlamentar de expressar a real correlação de forças entre as classes e grupos sociais numa situação de crise de hegemonia como a que vivemos.

A situação de Rodrigo Maia expressa com nitidez esta desconexão: de articulador de primeira hora do golpe de 2016, principal liderança política da direita da ordem e das frações não-bolsonaristas do bloco no poder e presidenciável em 2022, em uma semana Rodrigo Maia foi reduzido à condição de figura menor, traído pelo próprio partido e pelos principais aliados. Será lembrado como o maior “engavetador” de pedidos de impeachment da história do Brasil. Enquanto isso, a direita da ordem busca mostrar serviço, reafirmando seu compromisso com o ultraliberalismo de Guedes e com a pauta política e econômica do grande capital.

A lição que fica para os trabalhadores, movimentos sociais e forças de esquerda é que, sem mobilização de massas, sem ocupação das ruas, sem a resistência obstinada contra este genocídio programaticamente estendido no tempo e no espaço, as negociações e manobras parlamentares, a indignação moral e os panelaços e apitaços desde as janelas e varandas não serão capazes de deter o genocídio em curso, a ofensiva burguesa e a escalada fascista, menos ainda derrubar Bolsonaro e Mourão. Impeachment Já! Vacina para todos já

 

*David Maciel é doutor em História e professor da Faculdade de História da UFG. Autor de História, política e revolução em Marx e Engels (edições Gárgula).

Publicado originalmente como editorial no site Contrapoder, e artigo no site A Terra é redonda.

Sobre o(a) Autor(a)

Publicado no Liceu Online por:

Cristian Junior

Mineiro metido a engraçadão, corinthiano e professor. Mestre em História pelo Programa de Pós Graduação em História da UFG. Tem experiência na área de História Política, com ênfases em História do Brasil Recente, Neoliberalismo no Brasil, Governo Collor (1990-1992), História da Imprensa e Charges e História. Como membro de grupos de pesquisa, atua nas áreas de Capitalismo e História e Filosofia Contemporânea.

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