Pierre Ansart (1922–2016), filósofo e sociólogo francês, foi um dos pioneiros em trazer à tona a importância das emoções, sentimentos e afetos na vida política. Professor Emérito da Universidade Paris VII, Ansart dedicou sua carreira a investigar como as paixões coletivas influenciam decisões, instituições e fatos políticos, propondo uma abordagem que rompe com a dicotomia entre razão e emoção.
Seu livro La gestion des passions politiques (1983) é uma obra seminal que inaugura uma nova perspectiva para as Ciências Sociais e para a História, ao reconhecer que os afetos não são apenas periféricos, mas centrais na experiência política cotidiana.
A dimensão afetiva da vida política
Ansart propõe que a política não pode ser compreendida apenas por meio da racionalidade. Emoções como esperança, cólera, entusiasmo, ressentimento e medo estão presentes em campanhas eleitorais, partidos, movimentos sociais e decisões institucionais. Ele cunha conceitos como:
- Dimensão afetiva da vida política: vínculos e repulsas que moldam instituições e heróis políticos.
- Sensibilidade política: evolução coletiva das emoções, da indiferença à paixão.
- Paixões coletivas: reorganização das paixões individuais em práticas políticas.
Esses conceitos formam um léxico essencial para os estudos sobre afetividade e política.
A gestão das paixões políticas
O cerne do pensamento de Ansart está na ideia de que as paixões políticas não apenas existem, mas são geridas. Essa gestão não é necessariamente consciente ou planejada, mas ocorre por meio das instituições, dos discursos e das práticas simbólicas. Ele propõe oito desafios analíticos para compreender essa gestão, entre eles:
- Identificar os sinais das emoções, sentimentos e paixões.
- Compreender a gênese histórica dos afetos.
- Analisar a continuidade e descontinuidade dos sentimentos ao longo do tempo.
- Observar o papel dos grupos e dos indivíduos na construção das paixões coletivas.
- Investigar as relações intersubjetivas e a circulação dos afetos.
- Estudar a transformação rápida das afetividades políticas em contextos de conflito.
- Relacionar afetos e ações políticas.
Ansart não oferece uma metodologia fechada, mas caminhos para que historiadores e cientistas sociais possam investigar o papel dos afetos na política.
O ressentimento como paixão política
Um dos aspectos mais relevantes da obra de Ansart é sua análise do ressentimento. Ele dialoga com Nietzsche e Max Scheler para mostrar que o ressentimento é uma constelação afetiva complexa, que pode surgir tanto entre desiguais quanto entre iguais. Ansart defende que:
- O ressentimento pode ser utilizado politicamente como ferramenta de mobilização.
- Ele pode ser reforçado por desejos de vingança, humilhações e perdas de autoridade.
- A democracia, embora idealmente terapêutica, também pode ser palco para a gestão e exaltação dos ressentimentos.
Essa abordagem é especialmente útil para compreender fenômenos políticos contemporâneos, como o uso estratégico dos afetos por lideranças populistas.
Jair Bolsonaro: um caso de gestão afetiva
Bom exemplo da gestão das paixões políticas é a atuação de Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil. Bolsonaro mobilizou intensamente os afetos coletivos ao longo de sua trajetória política, especialmente durante sua campanha presidencial e governo. Seu discurso é marcado por forte simbolismo nacionalista, evocando a bandeira brasileira, o patriotismo e a ideia de ameaça externa — seja ela comunista, globalista ou institucional.
Frases como “Essa é a nossa bandeira, jamais será vermelha!” expressam uma gestão emocional que articula medo, orgulho e ressentimento. Bolsonaro constrói uma narrativa de pertencimento nacional e de enfrentamento contra inimigos simbólicos, ativando sentimentos de indignação, revolta e desejo de restauração de uma ordem moral e política.
Esse caso mostra como a gestão dos afetos pode ser racionalizada e instrumentalizada para fins políticos, reforçando a atualidade e relevância do pensamento de Ansart. A análise das emoções políticas no bolsonarismo revela como líderes podem operar sobre o inconsciente coletivo, reorganizando paixões individuais em práticas políticas de massa.
Pierre Ansart oferece uma contribuição fundamental ao reconhecer que os afetos são constitutivos da vida política. Sua proposta de gestão das paixões políticas abre espaço para uma análise mais rica e complexa da ação política, que inclui o inconsciente, a memória, os vínculos simbólicos e os ressentimentos.
Em tempos de uso estratégico das emoções, seu pensamento se mostra cada vez mais necessário para compreender os mecanismos que movem os indivíduos e os coletivos na arena política.
Para saber mais:
ANSART, Pierre. A gestão das Paixões Políticas. Curitiba: Editora UFPR, 2019.
ANSART, Pierre. Em defesa de uma ciência social das paixões políticas. História: questões e debates. v. 17, n. 33, p. 145-164, jul./dez. 2000.
ANSART, Pierre. História e memória dos ressentimentos. In: BRESCIANI, Stella; NAXARA, Márcia (org.). Memória e (res)sentimento: Indagações sobre uma questão sensível. Campinas SP: Editora UNICAMP, 2009, p. 15-36.
ANSART, Pierre . La gestion des passions politiques. Lausanne: L’age d’homme, 1983.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Companhia de Bolso São Paulo: 2009.
SCHELER, Max. Da reviravolta dos valores. 2. ed. Petrópolis RJ: Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária, 2012.
Imagem de capa: Atelier de création libertaire. Modificado por ChatGPT.









