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por Douglas de Castro Carneiro, especial para o LiceuOnline.

Este ensaio, nasce como uma resposta ao convite feito pelos idealizadores do site “Liceu On Line” de um texto de minha autoria que fora publicado anteriormente. Nesta breve apresentação procuro apresentar Sêneca dentro do panorama  da filosofia estoica e a importância do debate sobre a morte.

  O estoicismo não era somente a filosofia de Zenão de Cício, o fundador da doutrina, mas também uma escola que compreendia alunos e escolarcas. Tradicionalmente, distinguem-se três períodos da história da escola: O antigo estoicismo que tem como seu centro de atividade na Atenas do século III a.C e que se destacam alguns nomes tais como Zenão de Cítio, Cleanto e Crísipo.  

  O estoicismo médio, no século II a.C., período no qual este sistema filosófico perde seu vigor original e começa a se latinizar(Diógenes O Babilônio, Antipater de Tarso, Panécio de Rodes e Posidônio). O estoicismo imperial e dos primeiros séculos da era cristã, basicamente abandonam quase por completamente a ideia da lógica e da física, não se interessando mais pela moral. Seus principais representantes foram Sêneca, Musônio Rufo, Epicteto e Marco Aurélio (BRUN, 1997, p.9). 

  Após enumerarmos os principais representantes da filosofia estoica. Iremos nos focar na forma como Sêneca compreendia tal sistema filosófico.  Aos olhos de Sêneca, a filosofia, era o amor, o impulso, pela sabedoria, que se definia pelo bem supremo do espírito humano. Ainda que existissem várias maneiras de definir a filosofia, o pensador a interpretava, como sendo o estudo da virtude(OMENA, 2007, p.76).  

 A exortação do estoicismo em favor de saberes que conciliasse o pensar e o agir fez com que essa fosse uma característica da escola particularmente valorizada pelos romanos.  Um pensamento convergente com essa nova forma de pensar e agir sobre a sociedade pode ser observado em Sêneca quando este propõe um modelo de sociedade e do governo na sabedoria.  Tal grau, de sabedoria seria necessário particularmente aquele que detinha o poder sobre todos; o governante sábio, fundado na ponderação e no equilíbrio que remontam a filosofia estoica(COELHO, 2016, p.70-71).  

 A filosofia escrita por Sêneca pretendia ultrapassar os limites da eloquência, para só assim alcançar a prática da Uirtus, o homem deveria retirar os preceitos da filosofia e ocupar-se de temas válidos, para enfrentar as vicissitudes e combater os vícios, este era o  caminho para se atingir a felicidade, pois feliz era aquele que confia à razão, a gerência de toda a vida (GOMES, 2020, p.93).

 Os estoicos acreditavam que o prazer era visto como um vício, assim como a saúde, a liberdade e a vida não eram vistas com bons olhos. Afinal, a virtude era a única qualidade. Quem disso estivesse ciente, com certeza escolheria a virtude, uma vez que a vida era indiferente, assim como a morte não era ruim (BRENNAN, 2005, p.42).

 Uma das interpretações de Sêneca foi proporcionar uma forma de orientação que pudesse possibilitar para seus contemporâneos um instrumento de aperfeiçoamento moral fundamentado no estoicismo, para que dessa forma,  todos aqueles que buscassem nesse conhecimento possibilitado pelos seus textos filosóficos e até mesmo trágicos engajassem em um processo de aperfeiçoamento moral, alcançado desse modo, a possibilidade de enfrentamento e superação de todos os tormentos e temores próprios da condição humana, como por exemplo, o medo da morte (PIRATELI, 2019, p.11).  

 A vista disso, a filosofia senequianas mostrava no estoicismo algumas considerações sobre a natureza do ser humano, portanto, mostrava que o indivíduo alcançava um patamar moral e digno, uma vez que os valores da morte mostram uma aproximação da vida com a dignidade e uma forma de enfrenta-la por si mesma(GUADARRAMA, 2013, p.47).  

O caminho filosófico estoico era constituído por um aprendizado que levava o ser humano a desprender a alma dos impulsos e atrações do corpo, uma vez que devido a atuação dos sentidos diante da morte, estes alteravam a percepção da mente e deformava a verdade (OLIVEIRA, 2018, p. 85).  

Tal prerrogativa nos leva a compreender que as reflexões estoicas sobre a morte se associam às implicações éticas (CARNEIRO, 2021, p.96).  O vício era visto como algo prejudicial, então o sábio deveria escolher a morte, assim como os outros excessos que só trazem angústia. 

Isto posto, entendemos que o processo da construção da filosofia senequianas se deu de forma continua e teve sua coroação com a morte. É o aproximar-se do bem que traz sentido à nossa existência. Devendo sempre, almejar a proximidade do bem e o distanciamento daquilo que é mal. O último objetivo do homem é a “Tranquilidade da Alma”.

Para Elorduy Eleuterio (1972, p. 40), os estoicos não se contentavam com remédios puramente negativos, nem a fuga do mundo, nem a pobreza, tampouco a meditação sobre a morte. O medo da morte em Sêneca, lança sobre a vida humana uma terrível sombra. Aceitar a morte é a lição mais difícil, mas também a mais importante, já que ela busca a tranquilidade da alma. Isso só pode ser feito se aprendermos a administrar corretamente nosso tempo (EDWARDS, 2014, p. 330). Em suma, após apresentarmos breves reflexões sobre Sêneca, o estoicismo e sua compreensão sobre a morte devemos apresentar a seguir nossas considerações finais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Viver em um país, onde pouco se lê, pouco se interpreta e pouco se reflete, fez-me voltar a um tema que considero essencial na compreensão do mundo romano: “Sêneca, o estoicismo e a morte”. Tal tópico que hoje é emulado por escritores de “auto ajuda” que pouco conhecem o ambiente social, político e cultural que fora desenvolvida tal filosofia de origem grega, que migrou para o território italiano ganhando força no Império Romano e com um grande destaque na representatividade de Sêneca. Para além dos seus escritos, poucos textos do estoicismo imperial sobreviveram tais como as reflexões do imperador Marco Aurélio e alguns registros de Epiteto. Novamente faço o convite aos leitores do site Liceu On line que se debrucem sobre a obra de Sêneca e compreendam a beleza da filosofia estoica do seu rico pensamento.

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

   BRUN, J. El Estoicismo Universidad Autonoma del Mexico,1997.

BRENNAN, T. The Stoic Life: Emotions, Duties and Fate Oxford: Oxford University Press,2005.

CARNEIRO, D. C  Do poder à família na aula imperial: imagens da morte nas obras as Troianas e Agamêmnon de Sêneca (01 a.C. 65 d.C.). 2021. 155 f. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2021.

COELHO, J.PP. A Humanitas em Sêneca: Educação, Estado e Poder no Principado Neroniano. 2016. 184 f. Tese(Doutorado em Educação)-Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2016.

EDWARDS, C. Death and the time. In: DAMSCHEN, G. HEIL, A. Brill’s Companion to Seneca: philosopher and Dramatist. Leiden/Boston. Brill,2014, p.323-342.

ELEUTERIO, E. El Estoicismo. Madrid: Gredos,1972.

GUADARRAMA, O. F La Muerte en el pensamento de Seneca: Uma Leccion Moral. La Colmena Mexico. 78, p.45-52, abr/jun/2013.

GOMES,  E .M. C. O. Morte e luto nas consolatórias de Sêneca: uma análise da filosofia como remedium contra o sofrimento (século I D.C.). 2020. 204 f. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2020.

OMENA, L. M  Pequenos Poderes na Roma Imperial: O povo miúdo na ótica de Sêneca (2007). 225f. Tese(Doutorado em História)- Universidade de São Paulo, São Paulo,2007.

OLIVEIRA, L. O Suicídio: Um problema também filosófico. Revista Natureza Humana. São Paulo, v.20, n.1, p.83-97, jan/jul, 2018.

MESQUITA, F. D.G Cartas de Sêneca a Lucílio e a metáfora do teatro: uma análise da representação do tempo estóico romano no século I d.C.. 2020. 144 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2020.

PIRATELI, M. A A Educação para a Morte nas Tragédias de Sêneca. 2019. 202f. Tese(Doutorado em Educação)- Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2019.

 

  

 

Sobre o(a) Autor(a)

Douglas de Castro Carneiro

Doutor pelo programa de pós-graduação em História (Universidade Federal de Goiás), na área de concentração: Culturas, Fronteiras e Identidades e na linha de pesquisa: História, Memória e Imaginários Sociais.
Publicado no Liceu Online por:

Cristian Junior

Mineiro metido a engraçadão, corinthiano e professor. Mestre em História pelo Programa de Pós Graduação em História da UFG. Tem experiência na área de História Política, com ênfases em História do Brasil Recente, Neoliberalismo no Brasil, Governo Collor (1990-1992), História da Imprensa e Charges e História. Como membro de grupos de pesquisa, atua nas áreas de Capitalismo e História e Filosofia Contemporânea.

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    internet. Compartilhei no meu facebook. Obrigado.

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