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por Rodrigo Patto Sá Motta, especial para o LiceuOnline.

Hoje, mais do que nunca, é necessário analisar sinteticamente o bolsonarismo para entender suas visões (e obsessões) sobre o mundo acadêmico e científico. Entendo por bolsonarismo as ideias e práticas associadas à figura de Jair Bolsonaro, assim como o movimento político criado em torno dele, o “mito” na expressão dos seguidores fanáticos.

O bolsonarismo foi favorecido por uma conjuntura de crescimento de propostas de direita radical, que convergiram para transformar em liderança nacional um político que durante cerca de 30 anos teve presença menor no cenário público. O ponto central da atuação parlamentar do ex-capitão Bolsonaro, desde quando começou a carreira política como simples vereador na cidade do Rio de Janeiro, sempre foi o antiesquerdismo, conectado à defesa da memória da ditadura militar e de seus heróis. Significativamente, seus heróis foram mais os militares que combateram a esquerda (com armas e instrumentos de tortura) e menos os generais à frente do governo entre 1964 e 1985. Bolsonaro nunca mediu palavras na defesa da violência da ditadura, falando abertamente – e de modo elogioso – sobre a tortura e afirmando que os militares deveriam ter matado mais pessoas (“30.000”).

Ele foi um dos disseminadores da visão direitista radical de que após o fim do regime militar as elites civis permitiram o retorno da esquerda à cena pública e ao poder, o que marcou o caráter progressista da Constituição de 1988 e estimulou o ativismo dos movimentos sociais (agitadores comunistas, na sua linguagem). Tais discursos se agudizaram nos anos 1990, quando o Estado começou investigações oficiais sobre os assassinatos e desaparecimentos da ditadura e foram criadas as primeiras políticas de reparação. Nesse contexto organizaram-se grupos de militares fora da ativa para defender uma memória positiva da ditadura – como TERNUMA (Terrorismo Nunca Mais) – que passaram a denunciar a influência da esquerda nos governos pós-regime militar e as ações violentas cometidas por grupos revolucionários nos anos 1960-70.

Nos anos iniciais da “Nova República” outros grupos de direita estavam em ação, como os ruralistas contrários à reforma agrária, os religiosos conservadores em batalha contra comportamentos “imorais”, ou os grupos neoliberais críticos do intervencionismo estatal e do aumento de gastos sociais implicados na Constituição de 1988. Mas, além de atuarem separadamente, essas outras forças de direita não recusavam integralmente o regime democrático em construção e tampouco faziam a defesa da ditadura.

A ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder, em 2003, mudou esse cenário e aguçou o ativismo da direita radical. Nesse contexto destacou-se Olavo de Carvalho, jornalista e filósofo sem diploma que se tornou intelectual público da direita radical com discurso talhado para atrair os religiosos conservadores e os militares anticomunistas. Sua estratégia para atrair atenção baseou-se em ataques virulentos e degradantes contra intelectuais célebres da esquerda acadêmica, na expectativa de que os alvos respondessem e lhe dessem oportunidade de criar celeuma pública. A intenção não era debater ideias, mas ridicularizar e manchar reputações, com base em artifícios retóricos e sofismas. O ‘negócio’ funcionou, pois aos poucos Carvalho se tornou liderança reconhecida nos círculos da direita radical, ao mesmo tempo em que ampliou esse público e criou estratégia discursiva de luta contra os valores esquerdistas nos meios culturais e acadêmicos. Carvalho tornou-se uma espécie de guru da direita radical (inclusive da família Bolsonaro), atuando principalmente nas redes sociais (Orkut, Facebook etc.) e também como professor em cursinhos de formação. Seu sucesso estimulou o surgimento de outras figuras disputando o mesmo mercado, em cooperação ou em rivalidade com ele, logo igualmente célebres. Eles se reapropriaram do anticomunismo tradicional para forjar um movimento antipetista, o que levou à criação do termo comuno-petismo. Carvalho colocou em circulação no Brasil, no início dos anos 1990, um argumento central nos discursos direitistas recentes: a esquerda teria adotado estratégia gramsciana nos anos 1970, após a derrota da luta armada, visando conquistar posições nos meios acadêmicos e de imprensa para impor suas ideias ao país.

A fermentação direitista durante os anos de governo do PT tinha conexões internacionais, o que é perceptível nos textos desses intelectuais públicos. Ademais, sabe-se que a extrema direita dos EUA criou canais de financiamento para grupos congêneres em todo o mundo. Não é à toa que Carvalho se mudou para aquele país em 2005, desde então comandando seus liderados à distância. Outro aspecto da conexão norte-americana implica as religiões evangélicas, profundamente ligadas a matrizes do norte e cada vez mais influentes no Brasil (cerca de 30% da população), constituindo segmento particularmente sensível a discursos conservadores sobre comportamentos. No entanto, o discurso da direita radical é bem enraizado na história brasileira, especialmente no que toca ao legado da ditadura militar e à tradição anticomunista que tem como pilares os eventos de 1935-37, 1946-48, 1961-64 e 1968-72.

Portanto, um conjunto de lideranças e movimentos de direita de várias tonalidades se constituiu ao longo dos governos do PT, crescendo principalmente nas mídias sociais e por fora das instituições centrais no debate público tradicional (partidos, imprensa, sistema educacional). Com a crise dos governos petistas a partir de 2013, provocada tanto por seus erros como pela ação dos adversários insatisfeitos com as políticas orientadas à esquerda, a direita radical ampliou seu raio de ação e começou a convergir com segmentos da direita moderada. O antipetismo tornou-se muito influente. Ele não impediu a vitória apertada de Dilma Rousseff em outubro de 2014, mas, revigorado pelo impacto da operação Lava Jato e o fortalecimento do discurso anticorrupção, foi capaz de abrir caminho ao impeachment fraudulento de 2016.

Nesse contexto despontou a figura de Jair Bolsonaro, que passou a circular em outras regiões do país (principalmente nas grandes passeatas antipetistas de São Paulo em 2015-16) para tornar-se conhecido nacionalmente. Seu perfil se adequava bem à sensibilidade antipetista e antiesquerdista em ascensão, em que se destacavam anticomunismo, ataques a países socialistas ou assim considerados (Cuba, China, Venezuela, Bolívia), patriotismo verde-amarelo representando rejeição ao ‘vermelho’, conservadorismo moral (machismo, homofobia) escudado em discursos religiosos, defesa de ações violentas para lidar com a criminalidade (defesa do direito ao armamento) e acusações de que a esquerda era responsável por aumento da corrupção. A mobilização direitista e a crescente popularidade de Bolsonaro contribuíram para valorizar a memória da ditadura, vista como campeã na luta antiesquerdista e como período em que os ‘bandidos’ eram punidos. Além disso, ele tinha o perfil de político antissistema, embora fosse parlamentar por muitos anos, pois sua condição de marginalidade política o excluiu dos esquemas anteriores de governo. Para ampliar sua aceitação no campo da direita e aproximar-se mais do centro, Bolsonaro fez uma jogada oportunista: aderiu ao liberalismo econômico, que era estranho à sua trajetória, e passou a ser um defensor do empresariado contra o ‘peso’ representado pelo Estado (os liberais que o aceitaram foram igualmente oportunistas). Some-se a tudo isso a utilização de eficiente aparato para explorar as mídias sociais e mais a crise dos partidos tradicionais de centro e direita, e fica claro que se formou uma ‘tempestade perfeita’ em favor de Bolsonaro.

Ele construiu seu projeto de poder apoiado em forças poderosas, como mercado, empresariado (urbano e rural), lideranças religiosas e parcelas do judiciário. Mas, atuou por fora e contra instituições muito influentes até então, como a mídia tradicional (com nuanças), os meios culturais, as universidades e os partidos políticos. Não é surpreendente que, após vitorioso, Bolsonaro usasse o Estado para golpear algumas dessas instituições, que ele considera implicadas com o petismo, o comunismo e a esquerda em geral, inimigos que em discursos de campanha e de posse ele jurou derrotar (ou destruir).

O projeto bolsonarista tem chances de dar certo, ou seja, pode consolidar-se e permanecer? Os ideólogos da direita radical, embora mal educados e afeitos a palavrões, não ignoram que apenas a repressão é insuficiente, por isso mesmo falam tanto em guerra cultural. Sabem que é preciso vence-la para construir um projeto de poder sólido e duradouro, que implique realmente mudanças culturais e nos valores sociais. Então, essa espécie de gramscianismo de direita pode dar certo?

Primeiro, suas lideranças são bem mais rústicas do que parece necessário em uma luta por hegemonia. Se é certo que a vitória na guerra cultural implica sempre a ocupação de posições de poder, a simples eliminação dos adversários da esfera pública pode não bastar. A direita tem cursos de formação e intelectuais jovens, mas o grosso do  seu ativismo é inspirado no estilo olavista, que funciona mais à base de pontapés do que pela sedução das ideias. Além disso, é um tipo de guerra cultural travado mais nas mídias sociais, que fazem comunicação de ideias de forma superficial e ligeira. Será possível uma hegemonia efetiva e duradoura à base apenas de memes e palavrões?

A busca por hegemonia com métodos trogloditas pode acabar mal, enterrando o sonho de um domínio liberal (na economia) e conservador (na moralidade e na política) duradouro. Os liberais têm razões para temer, pois sua coabitação ou adesão ao bolsonarismo pode trazer grande desprestígio ao liberalismo.

 

 

Texto adaptado. Publicação original na Adusp.

Imagem destacada: Divulgação. 

Sobre o(a) Autor(a)

Rodrigo Patto Sá Motta

Professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Publicado no Liceu Online por:

Cristian Junior

Mineiro metido a engraçadão, corinthiano e professor. Mestre em História pelo Programa de Pós Graduação em História da UFG. Tem experiência na área de História Política, com ênfases em História do Brasil Recente, Neoliberalismo no Brasil, Governo Collor (1990-1992), História da Imprensa e Charges e História. Como membro de grupos de pesquisa, atua nas áreas de Capitalismo e História e Filosofia Contemporânea.

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