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por Marcos Manuel Ferreira, especial para o LiceuOnline.

Muito pior que a pandemia é o que não se aprendeu com ela. A falta de educação, o déficit educacional de aprendizagem, o negacionismo científico, a empáfia do “achismo” irresponsável que condenou milhares de cidadãos à morte, sob argumentos explícitos de desprezo pela vida do outro, pela falta de empatia, regidos pela batuta do discurso estúpido, sob a égide do castigo divino. O terreno fértil da ignorância pariu cemitérios e hospícios, indigentes e invisíveis.

 

As históricas feridas do descaso e as vergonhas nacionais evisceraram ainda mais, exalando o fétido odor do abandono, sob os auspícios da parvoíce triunfante. A educação mundial foi impactada bruscamente e se viu obrigada a adotar mudanças radicais do dia para a noite. Além da exclusão, também digital — mundialmente, 1 a cada 3 alunos — dos já excluídos, a grande preocupação com os discentes e seu processo de aprendizagem foi o escopo constante durante a pandemia — além de novas preocupações que foram surgindo pelo caminho —, o que é justificável e exigiu ações rápidas que minimizassem ao máximo o impacto social, econômico, educacional e psicológico, cabendo aos professores, a responsabilidade e a condução desse movimento. Contudo, as aulas remotas revelaram muito mais que uma alternativa, tornaram-se objeto de reflexão, a partir do momento em que o professor se tornou um espectro, invisível, além de uma constante ameaça, claro.

 

O nível de empatia, deferência e o apoio dispensado aos professores, por parte de alguns — diretores, alunos, pais, sindicatos — foi algo oprobrioso. A começar pelo não envolvimento dos estudantes durante as aulas, sempre, em grande parte, distantes, camuflados e ferrenhos no pleno exercício do direito de reclamar, salvo raríssimas exceções.

 

Tornou-se um ultraje para os estudantes, pais e dirigentes empresariais de instituições escolares implorar-lhes para que ligassem a webcam de seus respectivos aparelhos durante as aulas, tornou-se um gesto, por parte dos professores, de vitupério. Motivo de advertências e ameaças de demissão para o profissional que o fizesse, sob o impropério de que os professores “estavam constrangendo os estudantes”. Direito pleno do aluno e usurpado do professor fantasma.

 

Entendo, em parte, que se é direito do mais interessado assistir à aula com a câmera desligada, deveria ser também direito do mais necessitado. Na verdade, na maioria das vezes, não houve aulas, houve longevos e enfadonhos monólogos, para os “você sabe com quem está falando?”. Os estudos antropológicos de Roberto da Matta revelam e explicam. Com raríssimas exceções — que fique claro —, “as telas sempre às escuras” nunca responderam aos incontáveis: “bom dia, boa tarde, boa noite, como vocês estão, alguma dúvida? até amanhã”, etc., dos incansáveis professores; alguns alunos nunca tiveram a hombridade de abrir o microfone para um cumprimento, uma reciprocidade, um gesto mínimo de empatia, numa demonstração mínima de educação, princípios elementares, ainda que tacanhos, em um cenário quase mediúnico: “fulano, você está aí, manifeste-se”! E o que é mais preocupante e lamentável, sob o aval de todos!

 

Não obstante, eram ágeis nas interlocuções conspiratórias para tecer críticas infames às aulas que nunca assistiram, que nunca interagiram, das metodologias às quais sequer percebiam, mesmo nunca se fazendo presentes — ainda que estivessem imersos na invisibilidade espiã. Alguns, se aproveitando do falso “anonimato” da câmera e do microfone desligados, para ao menos demonstrarem o interesse que nunca tiveram e a empatia pelo professor explicitada um pouco mais na pandemia, ignorando o saber, o conhecimento, típico de um país em que as instituições escolares e seus responsáveis legais legitimam comportamentos constrangedores, afirmando que “não poderiam exigir que o cliente abra a câmera durante as aulas, para não constrangê-los, para não contrariá-los, para que não saiam e os professores não percam seus respectivos empregos”. Realmente, se “o povo armado jamais será escravizado”, o povo ignorante já o é. “Ser culto para ser livre”, e ter coragem para enfrentar os desafios, as dificuldades, a realidade com hombridade e empatia.

 

Assistimos a um conluio covarde, deplorável, uma rede de cumplicidade, uma inversão de valores generalizada e constrangedora. É no mínimo incômodo, perturbador e notório, a total falta de interesse em assumir responsabilidades, atribuindo o fracasso da educação brasileira tão somente à escola, ao professor, isentando os demais sujeitos envolvidos no processo de qualquer compromisso com a questão; o ensino remoto durante a pandemia desvelou outra realidade, a falta de empatia pelo professor fantasma, real e presente, apenas os alunos que nunca estavam lá. Para muita gente, foi necessária uma pandemia para perceberem a importância da escola e a valorização da educação — não como depósito dos filhos indesejados — mas o papel desempenhado pelo professor nesse embate e nesse processo. A escola não é o lugar para “compensar” a ausência dos pais; a educação se constrói em casa e se fortalece na escola, que acolhe, orienta, ensina, apoia… Mas, tem coisas que a escola não consegue suprir, a presença de pai e mãe, por exemplo.

 

O escárnio e o desrespeito pelo professor, por parte de algumas ilibadas autoridades públicas, gestores de negócios educacionais, ao zurrarem que os professores “não estavam trabalhando ou não queriam trabalhar”, “vagabundos” e oportunistas de plantão — na sonora estupidez de alguns políticos, justiça seja feita, o deleite do ignorante reside na sua limitada capacidade cognitiva. Realmente, esse isolamento não ensinou muito, mas contribuiu para tirar as máscaras dos já mascarados, sem trocadilhos. “Nem toda inovação é avanço, nem todo retrocesso é atraso. Às vezes, o futuro exige um retorno ao essencial”, segundo o professor Renato Casagrande.

 

Talvez, a grande lição legada será para os fervorosos defensores do modelo educacional homeschooling. O isolamento social obrigou muitos genitores/as a serem pais e mães; por algum tempo, tiveram que interromper a terceirização dos próprios filhos. Obrigou alguns reprodutores/as a fazerem o que nunca fizeram: ser família de verdade — não de slogan eleitoreiro —, que acolhe, que respeita, que ama, que cuida, que educa, que protege etc. Reunir apenas aos fins de semana para irem à igreja me parece muito mais um sentimento de culpa, medo ou as mãos estendidas esperando a recompensa, do amor que nunca praticaram, além de um proselitismo de autoafirmação. A instituição escolar e seus profissionais sempre assumiram papéis que seriam dos pais, dos responsáveis. O isolamento evidenciou uma realidade lamentável: alguns pais não aguentam, não suportam os próprios filhos, suas crias, não conseguem auxiliá-los numa atividade de alfabetização, e arrotam empáfia — descrita nos estudos de Roberto da Matta — de que não precisam da escola e de seus reles professores. Intelectuais que estudam, se qualificam a vida inteira, para se ajoelharem aos pés da ignorância e de seus devotos. “São eles que pagam seu salário”, vociferam os cúmplices; quanto mais nossos clientes ignorarem-nos, melhores deverão ser nossas aulas, porque se eles saírem, perderemos nossos empregos no moedor de dignidade que fomenta uma educação instituída para não dar certo. Esse é o nível de barganha imposto ao ensino brasileiro, em que o fracasso triunfou sobre um sistema controlado sob a égide da imposição de um discurso proselitista ora religioso, ora negacionista, ora de cortes, ataques e perseguições sistemáticas ao conhecimento científico e aos professores. “O desrespeito ao professor retrata a decadência de uma sociedade”.

 

A não valorização dos profissionais da educação é vexatória. Os empresários do ramo de administração de professores, empresas sem muito ou nenhum compromisso com a educação — finalidade é o lucro — então, as salas de aula são necessariamente superlotadas, salários e condições de trabalho cada vez mais precarizados, contemplando os interesses dos seus exigentes clientes, na base do quanto pior, melhor, sob os olhares omissos e negociáveis dos órgãos fiscalizadores. Essa pandemia eviscerou ainda mais essas mazelas da educação, a marginalização dos profissionais da educação, os contínuos ataques à ciência, às universidades, o obscurantismo que tem invadido as direções escolares, numa histeria de estupidez assustadora.

 

Contudo, algo é inegável: muitos desses jovens clientes são vítimas do abandono afetivo, intelectual de suas “famílias de bem” e a escola, novamente, assume o protagonismo, o papel que muitos pais se recusam, o de serem pais. Exigem uma postura do outro — professor — numa espécie de compensação do fracasso e das frustrações pessoais, concedendo carta-branca aos filhos, respaldados pelas mensalidades que compram e pagam tudo dentro do espaço educacional, inclusive o respeito, a deferência. Um passe-livre para fazerem o que quiserem, a geração que não pode ser contrariada e os soberbos agentes do “comércio do ensino” avalizam suas condutas, confrontando o corpo docente, numa demonstração explícita de que valores basilares defendem para a educação brasileira.

 

Portanto, por essa e por outras, a grande lição que o professor aprende todos os dias na educação — com raríssimas exceções —, definitivamente, não é a empatia, infelizmente. Até a próxima catástrofe, penso que essas posturas vergonhosas e lamentáveis continuarão sendo a garantia de empregos aos professores e às favas com os escrúpulos e a dignidade. Pelo atual marchar da carruagem, intelectuais, professores, serão dispensáveis na sociedade brasileira; as novas exigências para o mercado de trabalho não serão mais os famigerados diplomas universitários, mas atestados de subserviência, cabo eleitoral, sabujos na condução de um sistema educacional, que não é uma crise, é um projeto. Educação não é sacerdócio, não se é profissional da educação por amor, romantizar os problemas e a precarização não é resiliência, é ignorância. Trabalho com amor, não por amor. A classe trabalhadora sempre será a responsável pelos fracassos, exatamente por ser quem de fato trabalha.

 

Feliz Todos os Dias dos Professores, trabalhadores e trabalhadoras, intelectuais que exercem uma atividade profissional, que por si só é um ato revolucionário. “Aos nobres professores, que lutam exaustivamente para evitar um colapso ainda mais grave da nação, resta o desejo de que sua resiliência seja, finalmente, coroada com o respeito e a dignidade que lhes são devidos”, faço minhas as palavras da professora Lo-Ruama Bastos.

 

Professor Fantasma

Não é pseudônimo, nem anonimato. É no que nos transformaram: persona non grata.

 

Imagem de capa: Montagem por ChatGPT.

 

Sobre o(a) Autor(a)

Marcos Manuel Ferreira

Professor, Pedagogo, Historiador e Escritor. Doutorando pela UFG (Aluno Especial) em Performances Culturais; Mestre em História – Cultura, Religião e Sociedade; Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Especializando em Relações Internacionais; Pedagogo com Habilitação em História da Educação Brasileira e Historiador. Contato eletrônico: [email protected].
Publicado no Liceu Online por:

Jéssica Fernanda de Sousa

Edição - Liceu Online

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