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por Adrian de Souza Santos, especial para o LiceuOnline.

A partir de 1950, é impossível contar uma História do Brasil que não passe pela televisão. A nova tecnologia chega ao país já deixando marcas na cultura nacional, alterando configurações e revelando discussões acerca da crescente Indústria Cultural. Neste contexto de desenvolvimento do meio, a telenovela surge como um dos principais produtos da vitrine, instigando debates e fomentando novas observações acerca da sociedade e do cotidiano. Desde a primeira telenovela diária, 2-5499 Ocupado, exibida pela pioneira TV Excelsior em 1963, muitos avanços foram obtidos com relação à tecnologia e a forma de se fazer televisão, contudo, a veia melodramática do brasileiro permaneceu como uma característica marcante da identidade nacional (Borelli; Ortiz; Ramos, 1991).

 

Neste bojo, a criação da Rede Globo de Televisão no Rio de Janeiro em 1965 representa o início de uma importante fase para a TV e as telenovelas no Brasil. Com equipamentos modernos e uma equipe capacitada, a nova emissora rapidamente se insere no cenário brasileiro, alcançando destacada qualidade e estabelecendo-se como hegemônica no país. Este vertiginoso avanço se deve ao elo estabelecido com a Ditadura Militar, que favorece seu crescimento e utiliza-se do seu alcance para uma mútua legitimação política e social (Oliveira, 2017). A partir dos anos 70, a Globo torna-se a principal produtora e exportadora de telenovelas do país, posição que confere a emissora destacada hegemonia na Indústria Televisiva Brasileira (Hamburger, 1998).

 

Em maio de 1988, estreia Vale Tudo (1988) na faixa das 20h na Rede Globo. Escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, a telenovela rapidamente conquista o público devido ao enredo que mistura dramas familiares, conflitos geracionais e extensas críticas sociais à corrupção, violência urbana e falta de perspectiva de futuro que assolavam o Brasil da Nova República, recém saído de uma ditadura militar. A obra torna-se canônica na teledramaturgia brasileira e é constantemente relembrada através da personagem Odete Roitman (Beatriz Segal), cujo suspense em torno de sua morte movimentou apostas e especulações durante treze dias, sendo o verdadeiro assassino revelado apenas no último capítulo, exibido em 07 de janeiro de 1989.

 

Sua produção e veiculação atravessa a promulgação da Constituição Federal de 1988, sendo a última novela a passar pelo processo de censura prévia do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP). Repleta de dilemas morais e éticos, a novela fomentava no final dos anos 1980 o debate popular acerca das atitudes tomadas pelas personagens, trazendo o questionamento: “Vale a pena ser honesto no Brasil?” Na Nova República que se iniciava, quais as expectativas estavam em jogo para o Brasil? Quais padrões seguir, quais modelos consumir? Vale Tudo (1988) constrói, ao mesmo tempo, representações sobre o recente passado ditatorial vivido pela nação e também a respeito das disputas políticas e ambições sociais que delineiam os chamados “novos tempos” de redemocratização.

 

Em comemoração aos 60 anos de existência da Rede Globo, em 31 de março de 2025 estreia Vale Tudo (2025), remake homônimo da clássica telenovela que parou o país no final dos anos 80. Adaptada por Manuela Dias, a trama conta com um enredo híbrido que mistura grande parte dos mesmos personagens da obra original, mas também inclui novos personagens, contextos e tramas paralelas. Ajustada para a nova conjuntura social e política brasileira, a trama movimenta debates nas redes sociais acerca de questões raciais, afetivas e políticas, inserindo-se em um movimento de convergência onde a emissora aposta no diálogo entre mídias diversas (Jenkins, 2009).

 

Apesar de críticas ao esvaziamento de algumas personagens e o excesso de merchandising descontextualizado da trama, que rendem comparações e piadas nas redes sociais, percebe-se que a telenovela brasileira continua a movimentar discussões entre os telespectadores. Um claro exemplo se deu quando a personagem Lucimar (Ingrid Gaigher), ao abordar o processo de solicitação da pensão alimentícia para a sua filha, fez com que disparasse o número de buscas no Google pelo referido direito. Neste sentido, observa-se também o quanto a televisão ainda detém a capacidade de sensibilizar pautas reais, permanecendo como um dos meios de comunicação mais influentes no Brasil.

 

Diante dos 37 anos que separam as duas versões, refletir sobre a intencionalidade da escolha feita pela Rede Globo para rememorar a trama em um contexto de celebração da sua própria trajetória, é também refletir sobre as novas tensões e silenciamentos propostos pela obra no Brasil de 2025. Tendo como pano de fundo, mesmo que indiretamente, um país que tenta se reerguer após quatro anos de retrocessos sociais e econômicos causados pelo governo de Jair Bolsonaro e os impactos severos da pandemia de COVID-19, indaga-se em que instância o remake foi capaz de mobilizar o telespectador e como a íntima relação do brasileiro com a TV – e, principalmente, com a Rede Globo – ainda permanece forte.

 

Referências:

BORELLI, S.; ORTIZ, R.; RAMOS, J. M. Telenovela: História e Produção. 2. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.

HAMBURGER, E. Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano. In: NOVAIS, F.; SCHWARCZ, L. M. (eds.). História da vida privada no Brasil – contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

 

 

 

Imagem de capa: Querido Clássico.

Sobre o(a) Autor(a)

Adrian de Souza Santos

Mestrando no Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH/UFAM) com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM). Graduado em História pela UFAM. Pesquisador no Laboratório de História Oral e Audiovisual do Amazonas (LABHORA/UFAM). Desde 2019 realiza estudos voltados para a utilização da telenovela como fonte histórica através dos diálogos que Vale Tudo (1988) estabelece com o contexto da redemocratização brasileira.
Publicado no Liceu Online por:

Edição - Liceu Online

Revista online de Humanidades. @liceuonline

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