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por João Paulo Capelotti, especial para o LiceuOnline.

Jafar Panahi elabora mais um dilema moral típico do cinema iraniano – uma premissa aparentemente simples mas que vai se desdobrando em questões cada vez mais complexas. Aqui o protagonista é Vahid, que por coincidência se depara com um sujeito que pode ou não ter sido seu torturador quando ele era um preso político, e portanto sofria com os olhos vendados as agruras da repressão dos aiatolás. A imagem de uma árvore seca, com dois grandes galhos retorcidos no meio do deserto, não parece estar lá por acaso, pois a arquitetura do roteiro se constrói em bifurcações: o sujeito é ou não é o temível Eqbar Perna-de-Pau?; Vahid vai matá-lo ou não? Poderia ser a matéria-prima de um drama pesado (e não há como qualificar de outra forma os relatos das vítimas sobre o estrago que a tortura gerou na vida delas), mas Panahi prefere enxertar na trama elementos de uma comédia de erros, tudo dentro do espaço de um dia caótico, com a van empoeirada de Vahid juntando cada vez mais vítimas do torturador na tentativa de confirmar ou não a identidade do homem desacordado no porta-malas. A quantidade de idas e vindas do roteiro, e mesmo das crises de consciência de Vahid em separar sua vingança privada de justiça (a exemplo do que vemos no final de “O segredo dos seus olhos”), até soam como artifícios de roteiro (isto é, estão lá porque senão não tinha filme), mas o fato é que Panahi amarra muito bem os mil e um problemas do enredo, como a discordância entre os elementos do grupo sobre o que fazer, a aproximação da polícia corrupta ou mesmo o surgimento em cena da filha pequena e muito esperta do sequestrado, que obviamente não tem culpa de nada. É um filme ágil e com um humor situacional meio perverso, com ótimos atores e com a câmera sempre muito bem posicionada, em que tudo tem uma função narrativa (já a primeira cena tem a importância de mostrar do que um personagem é capaz). Mas é nos instantes finais que o filme de Panahi mostra sua enorme força dentro da sua simplicidade, já que o espectador, só de ouvir um determinado barulho, já fica com o mesmo desconforto dos personagens, ao pensar no mal que ele simboliza e no horror que ele ameaça. É um final amargo e que, para o que pode ensinar ao Brasil, ilustra, de maneira alegórica mas inequívoca, por que anistia pra golpista é uma péssima ideia.

 

Nota: 4,5/5

Sobre o(a) Autor(a)

João Paulo Capelotti

É advogado e pesquisador, e gosta de cinema desde que se entende por gente.
Publicado no Liceu Online por:

Edição - Liceu Online

Revista online de Humanidades. @liceuonline

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