Na história social do Brasil é recorrente imagens ou conceitos que evidenciam uma lógica de oposições, de antagonismos e de separações a respeito do país. Brasil está partido ao meio. Cindido. Muitas dessas analogias tomam o Rio de janeiro como objeto de análise, cidade que constitui o espaço romanesco de Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Falar do Rio de Janeiro é, portanto, falar do Brasil.
Exemplo desse jogo de ambivalências em nosso corpo social é o conceito de “Cidade Porosa”, de Bruno Carvalho, que cobre dois séculos de “história cultural do Rio de Janeiro”. Em seu livro que tem o nome de seu conceito, o autor apresenta um Rio que possui fronteiras aderentes entre dois polos, a cidade velha e a cidade nova, que por sua vez surge por decreto real de Dom João VI, em 1811, o que desencadeia a ocupação de regiões pantanosas por uma população diversa, como: Judeus, Africanos (a “pequena África), ciganos e imigrantes. Se “porosidade” passa a ideia de aderência entre duas dimensões, não significa que as fronteiras estão dissolvidas. Pelo contrário. A cidade onde se passa o romance de Lima Barreto é atravessada por um contraste entre populações tão distintas. Isso significa que o conceito de “Cidade porosa” é capaz de expor um Rio de Janeiro em conflito com suas diferenças e de apresentar suas contradições, não apenas entre ricos e pobres, mas entre o antigo e o moderno.
Outra imagem capaz de mostrar um Brasil cindido é “Cidade partida”, do jornalista Zuenir Ventura, publicado em 1994. Nesse livro Zuenir parte de um conflito que culminou na morte de 21 moradores de favela e ficou conhecido como Chacina de Vigário Geral, ocorrida em 1993. A chacina começa como uma represália, agentes das forças armadas do Estado invade a favela de nome homônimo após meia-noite e executa moradores inocentes. A cidade está fraturada. Há, desse modo, um corte entre a rua e o morro, entre ricos e pobres, entre militares e civis, entre negros e pobres. A noção de que o país passa por uma polarização política apenas desde a corrida eleitoral de 2017, que veio a eleger um presidente que possui fascínio pelo autoritarismo e pela violência, é incompleta. Na verdade, o Brasil sempre esteve partido. Seus polos distintos sempre estiveram em colisão desde sua fundação colonial predatória. E é a partir desse húmus que Lima Barreto intencionalmente escreve seu romance sob a marca do conflito entre núcleos desiguais.
Se há esforços intelectuais a fim enfatizar um Brasil partido capaz de promover um autoimperialismo e devorar a si mesmo, muito maior foram os discursos que buscaram apresentar um país em harmonia, cujo epíteto da cidade do Rio de janeiro, a “Cidade Maravilhosa”, sintetiza sua manifestação. Um empreendimento dessa natureza é o mito da democracia racial, que promovia a miscigenação pacífica como elemento definidor de um “espetáculo de raças” pacífico e que nunca esteve presente na obra de Lima, a não ser como objeto a se fazer incisiva oposição. Publicado em folhetim em 1911 e em livro quatro anos depois, o romance mais popular do escritor simboliza um período sociopolítico de convulsões e de contradições. O que faz o Brasil, Brasil? Qual a identidade do povo brasileiro? O que nos singulariza diante de outras nações? Como nos apresentaremos ao mundo enquanto um país moderno? Triste fim de Policarpo Quaresma participa desse debate, todavia, o faz por outros meios.
Desde 1822, ano de nossa Independência, o país, por meio da literatura, procura construir uma definição de identidade nacional. O escritor José de Alencar, nesse sentido, é exemplar desse esforço de lançar as bases de nosso nacionalismo através da figura heroica do indígena. Ainda no campo da literatura, é em 1922, com o modernismo paulistano, associado posteriormente na década de 30 do mesmo século com a nova República de Getúlio Vargas e o pensamento de Gilberto Freyre, que assistimos a dedicação coletiva de elaborar uma nacionalidade através do elemento negro e de muitas outras parcelas da população excluídas do processo de modernização brasileiro. Fusão já inicialmente empreendida de maneira intrigante por Dom Pedro II e seu Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), que possuía a missão de tramar uma narrativa de nacionalidade que passasse pela confluência coordenada das raças. No entanto, em Lima Barreto, e Triste fim de Policarpo Quaresma prova isso, temos um romance que não aposta na harmonia, que não elogia uma suposta simbiose sem violência entre negros, indígenas e brancos europeus; antes nosso escritor objetivou expor os conflitos que constitui essa antiga terra de Santa Cruz.
Lima Barreto é extemporâneo. Em um momento de euforia com a modernidade da Belle Époque, em um contexto de otimismo ingênuo sitiado pelo ufanismo, o escritor carioca prefere observar as sombras, as contradições e escrever sobre os personagens que ficaram de fora desse projeto civilizatório que nunca foi levado a cabo de fato. Se a primeira república que depôs Dom Pedro II procurou esconder séculos da escravização, Lima fez questão de denunciar por meio de uma “literatura militante” a falseabilidade de um hino vazio cantado a plenos pulmões pelos republicanos e que diz: “Nós nem cremos que escravos outrora/ Tenha havido em tão nobre país”. Barreto insistiu em denunciar a euforia das luzes, do progresso, do positivismo e Triste fim de Policarpo Quaresma é demonstração de um conflito entre um Brasil ideal e o real, entre patriotas – como o próprio Lima que propõe uma definição de “unidade nacional” que passa pela exposição incisiva de uma segregação racial confundida como diferença social, e os ufanistas arrivistas que tiravam proveito próprio com o fim da monarquia, e sobretudo o conflito entre brancos e negros. Ou seja, se em 1889 a jovem República procurava esquecer quatro milhões de pessoas sequestradas na Costa da África para realizar trabalhos forçados, conforme os versos de Medeiros e Albuquerque, Lima povoa seu romance com personagens negros e denuncia os bloqueios impostos a eles dentro da sociedade de classes.
Há um sistema de oposições, dualidades e conflitos que encadeia Triste fim de Policarpo Quaresma e que é fruto de uma intervenção política de seu escritor no interior de um debate sobre identidade nacional e sua questão racial. Lima localiza o mito da não-violência brasileira e seu engodo de harmonia de raças no racismo científico, arcabouço ideológico para o mito da democracia racial. Se a literatura oficial e a inteligência brasileira buscavam construir uma narrativa capaz de definir uma identidade nacional através da miscigenação – que inverte a lógica europeia que vê degenerescência no elemento negro enquanto os eugenistas do Brasil identificam-nos como a saída para nos apresentarmos ao mundo enquanto nação branca e moderna – Barreto, por seu turno, constrói relações raciais marcadas por conflitos e tensões.
Esse circuito de oposições e colisões em Triste fim de Policarpo Quaresma se manifesta no choque entre o Brasil real e o país ufanista, afinal, “a pátria que quisera ter era um mito”; no confronto entre subúrbio e centro; e na segregação racial que se faz ver através de uma reforma agrária enquanto política de branqueamento. Essas três dimensões estão unificadas no bojo de um racismo científico que define uma estrutura de cidadania excludente, marca das contradições da modernidade brasileira.
Consideremos esse primeiro aspecto, o choque entre o Brasil real e o Brasil ufanista. Um dos grandes mitos fundadores da identidade nacional brasileira é o mito da “não-violência”. E o mito fundacional de uma nacionalidade apenas se sustenta às custas de um orgulho coletivo e de muito patriotismo. No caso brasileiro, o país escolhe narrar seus marcos históricos apagando a violência subjacente: a invasão é travestida de descoberta; a independência de 1822 é resolvida com um grito à borda de um rio; e a República não é golpe, é sinal de modernidade. Nosso protagonista, o Major Quaresma, é contaminado pela euforia nacionalista em voga na primeira república, o que explica a motivação do personagem. O Major dedica-se ao estudo da Modinha, música que julga ser “a mais genuína expressão da poesia nacional” (Barreto, 2011, p. 75-76), ao passo que lhe escapa sua origem europeia; sua fascinação pela história do Brasil o põe em contato com brasilianistas, todavia, a maioria são viajantes estrangeiros; e o rio Amazonas só se sustenta como a maior via fluvial do mundo depois que decepa muitos quilômetros do rio Nilo. “Policarpo era patriota”, mas seu patriotismo é vazio e é posto à prova ao longo do enredo.
O nosso Major Quaresma parece fazer eco a compulsão patriótica de escritores como Afonso Celso, poeta responsável por um grande louvor ao Brasil na obra “Por que me ufano do meu país”. Por exemplo, na repartição da secretaria da Guerra, nosso personagem reage com virulência ao comentário do colega que suspira ansioso para uma viagem pela Europa e declara: “Ingrato! Tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visitar a dos outros!” (Ibidem, pág. 88). Afonso Celso em sua ode convoca os brasileiros a terem orgulho de sua pátria, sua beleza natural e sua extensão de terra e apaixonadamente diz: “Somos brasileiros! Levantai a cabeça, transbordantes de ufania” (Celso, 2002, p. 10). Por qual motivo? Ora, o brasileiro possui as maiores belezas naturais, os mais fascinantes rios, e a nação mais promissora. Policarpo Quaresma parece concordar com o poeta, pois acredita que tudo que se planta nessa terra dá frutos, até sua plantação ser corroída pela burocracia e pela saúva.
A ruína dos três sonhos do personagem é o choque entre o Brasil ufanista e o Brasil profundo, áspero, violento e pouco cordial. O romance de Lima é estruturado em três episódios tristes de Major Quaresma. O primeiro é a ruína da concordância geral de um amor pelas tradições nacionais, como o fracasso do requerimento em Tupi que solicita alterar a língua oficial do país por uma língua indígena – o resultado é uma longa estadia no hospício; a segunda ruína é a destruição de sua agricultura no Sítio do Sossego, duro golpe na imagem de Pátria fértil; e, por fim, a desilusão política na ocasião da Revolta da Armada durante o governo autoritário do Marechal Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, que culmina em assassinatos arbitrários pela pátria que um dia amou. O fracasso de Policarpo Quaresma é o fracasso do Brasil enquanto nação e evidencia uma modernidade aos pedaços.
O segundo aspecto desse sistema de colisões e de oposições é o confronto entre o centro e o subúrbio. Lima Barreto, em entrevista para a Revista Época, em 1916, dizia que a “classe média” é o meio onde se passa seu romance. Meia verdade, afinal, há longas descrições do subúrbio, capítulos inteiros em que se realiza uma análise quase etnográfica do espaço suburbano, borda da cidade onde Major Quaresma vai se aninhar sempre às 16 horas depois do seu expediente. Ocorre que há um conflito entre centro e periferia, entre o local onde o trovador Ricardo Coração dos Outros reside e onde gostaria de residir, ou seja, cisão entre o subúrbio e Botafogo. Mesmo gozando de estima da “alta sociedade suburbana” (Barreto, 2011, p. 90), como nos diz o narrador, nosso cantor insiste em desejar acesso aos salões nobres do centro. A “cidade partida”, de Zuenir Ventura, marcada por uma separação entre centro e periferia já existia muito antes da cachina de 1993.
O último e terceiro aspecto desse jogo de oposições próprio de um país partido ao meio que convém destacar, é a segregação racial. Em seu Diário íntimo Lima Barreto registra que “A capacidade mental dos negros é discutida a priori e a dos brancos, a posteriori”. Nosso escritor percebia, portanto, uma distinção e uma oposição entre brancos e negros no Brasil. Em seus depoimentos íntimos Lima descreve como se sentia violentado pelos discursos do racismo científico da época, que entendia que a mistura de raças promoveria uma degeneração na prole “mestiça”. Depois de crescer alarmado com o prognóstico, resolve revidar em sua literatura militante e negra, denunciando o racismo existente em um país que se pretendia branco e moderno.
Na disputa interpretativa a respeito do cruzamento de raças, do branco e do negro, os poligenistas divergiam. Afinal, esse encontro com a diversidade racial era benéfico ou seria motivo para perigosos cruzamentos genéticos, cuja consequência é a delinquência, o vício e a criminalidade? O Brasil, na figura de João Batista Lacerda, eugenista e então presidente do Museu Nacional Brasileiro, aposta na primeira opção: a miscigenação além de benéfica é desejável porque é a garantia de um futuro brilhante para o país. O motivo? Com o fluxo migratório branco, a miscigenação iria garantir um branqueamento da população brasileira. Nas palavras do eugenista:
A seleção sexual contínua aperfeiçoa sempre ao subjugar o atavismo e purga os descendentes de mestiços de todos os traços característicos do negro. Graças a este procedimento de redução étnica, é lógico supor que, no espaço de um novo século, os mestiços desaparecerão do Brasil, fato que coincidirá com a extinção paralela da raça negra entre nós. (Lacerda, 2011, p. 239).
Conforme a historiadora Ynaê Lopes, em Racismo brasileiro: uma história da formação do país[1], o Brasil transforma o branqueamento em política de estado, permitindo a entrada no país de brancos europeus e restringindo o acesso aos negros de África, ou aos asiáticos. Triste fim de Policarpo Quaresma retrata a imigração italiana no país e os benefícios que o governo utilizava para atraí-los, como terras e máquinas agrícolas. É conhecida a cena em que a afilhada do Major Quaresma, ao fazer um passeio de carroça pela região do Sítio Sossego, identifica amplas terras em miséria, sem cultivo, observação que a deixa perplexa: “o que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre”, acentua o narrador (Barreto, 2011, p. 222). O que Olga viu foi um espetáculo desanimador: grandes faixas de terra sem cultura, sem gado, sem casa de tijolos, havia apenas algumas lavouras de café e milho, e seu pensamento conclui – atravessado pela presença do narrador: “Não podia ser preguiça só ou indolência” (Barreto, 2011, p. 223).
No outro dia Olga investiga junto a Felizardo, trabalhador de Policarpo, o motivo de tanta penúria e dele escuta: “Terra não é nossa… E a ‘frumiga’?… Nós não ‘tem’ ferramenta… isso é bom pra italiano ou ‘alamão”, que governo dá tudo… Governo não gosta de nós” (Barreto, 2011, p. 225). Desse modo, Lima Barreto revela um processo de branqueamento arquitetado pelo governo brasileiro via reforma agrícola que, como vimos, serviu para beneficiar o europeu em vez de indenizar ex-escravizados.
Lima Barreto denuncia em Triste fim de Policarpo Quaresma uma cruzada contra a cidadania da população negra no Brasil. Por essa razão sua literatura é o marco inicial do romance negro no Brasil.
[1] Desde a Primeira República a imigração de pessoas brancas no Brasil é incentivada. No Governo Vargas recebe estatuto de lei, conforme o decreto de número 7967, de 1945, que expressa a seguinte condição para a entrada no país: “à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia” (Lopes, 2022, p. 226). A imigração era uma aposta na miscigenação baseada em teorias eugenistas a fim de embranquecer o Brasil.
Para saber mais:
BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Penguin, 2011.
CARVALHO, Bruno. Cidade porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro : Objetiva, 2019.
CELSO, Afonso. Por que me ufano do meu país. eBooksBrasil, 2002.
LACERDA, João Batista. Sobre os mestiços no Brasil. In.: SCHWARCZ, Lilia. Previsões são sempre traiçoeiras: João Baptista de Lacerda e seu Brasil branco. Fontes, n. 18, v. 1, jan./mar. 2011, p. 225-242.
SANTOS, Ynaê Lopes. Racismo brasileiro: uma história da formação do país. São Paulo: Todavia, 1922.
VENTURA, Zuenir. Cidade partida. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
Imagem de capa: Criada por ChatGPT.









