A indústria cinematográfica estadunidense está repleta de filmes históricos, ora como retrato crítico de sua própria história, ora como exaltação ufanista, comum em produções sobre a Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Nesse sentido, o cinema não é apenas uma representação do passado, mas também evidencia a capacidade da indústria cultural em criar e manipular narrativas, reforçando o soft power[1] dos EUA.
Vários presidentes foram retratados no cinema: filmes premiados com grandes atuações, como Lincoln (2012), de Steven Spielberg, com a impecável atuação do britânico Daniel Day-Lewis; Todos os Homens do Presidente (1976), sobre o escândalo Watergate na presidência de Richard Nixon; e JFK (1991) e Nixon (1995), de Oliver Stone, verdadeiros clássicos da década de 1990. Entretanto, entre os presidentes, há aquele que é pouco lembrado pelo público brasileiro: Lyndon B. Johnson.
Lyndon B. Johnson, ou LBJ, como ficou conhecido, foi o presidente entre dois personagens marcantes da política estadunidense: John F. Kennedy e Richard Nixon. O carisma de JFK e, claro, seu trágico assassinato, bem como os escândalos de Nixon, podem ter ofuscado a imagem de LBJ para o grande público fora dos EUA. Porém, a presidência de Johnson foi um ponto de virada na história dos Estados Unidos.
É na presidência de LBJ que o Partido Democrata “perde” politicamente o Sul, região em que o partido era uma força hegemônica, além do envio em massa de tropas estadunidenses para lutar no Vietnã. A aprovação e a ampliação dos direitos civis também ocorreram no governo Johnson. Destacam-se ainda os programas da “Great Society”, que deram maior amparo médico aos mais pobres e aos idosos: o chamado Medicaid e o Medicare, programas existentes até os dias atuais.
Lyndon B. Johnson foi retratado no cinema diversas vezes, seja de forma indireta ou em filmes de tom mais biográfico. No presente texto, optei por analisar três filmes biográficos sobre o presidente texano: All the Way (Até o Fim), de 2016, dirigido por Jay Roach; LBJ, também de 2016, dirigido por Rob Reiner; e Path to War (Bastidores da Guerra), de 2002, dirigido por John Frankenheimer.
Cada filme representa um momento decisivo da presidência do democrata. All the Way e LBJ abordam o início da presidência, enquanto Path to War retrata as decisões políticas relacionadas à Guerra do Vietnã. Antes de analisarmos os filmes, faz-se necessária uma breve contextualização do governo LBJ, marcado por reformas, concessões políticas, protestos e pela Guerra do Vietnã.
O Governo Lyndon B. Johnson e o Partido Democrata
A composição ideológica do Partido Democrata contemporâneo é recente. Hoje, dentro da lógica política interna dos EUA, o partido se situa no campo “progressista”, no sentido “liberal”. Os “liberals” estadunidenses não correspondem ao chamado liberalismo clássico, mas sim a liberais no sentido moral, especialmente nas pautas de costumes.
É importante ressaltar que os Estados Unidos nunca tiveram uma forte tradição consolidada de movimentos trabalhistas ou social-democrata, muito menos marxista, se comparado a Europa ou a América Latina.
O que corresponde à “esquerda” nos Estados Unidos está relacionado a políticas progressistas nas pautas de costumes, a uma visão mais cosmopolita e a um maior apelo às instituições multilaterais.
A exaltação dos supostos valores democráticos também é uma característica do Partido Democrata, a ponto de justificar intervenções estrangeiras para exportar tais valores para outros países.
O Partido Democrata passou por uma significativa mudança ideológica ao longo dos anos. A divisão política dos Estados Unidos entre o Partido Republicano e o Partido Democrata reflete, em certa medida, a própria divisão entre Norte e Sul.
O Partido Democrata representava o Sul agrário e os grandes proprietários de terra, sendo o partido da segregação até a década de 1960, enquanto o Partido Republicano representava o Norte industrial.
Um ponto de mudança importante foi o New Deal do democrata Franklin D. Roosevelt e o surgimento dos democratas do Norte. Os democratas do Norte, em sua grande maioria, eram compostos por imigrantes e trabalhadores sindicalizados.
O Partido Democrata do Norte era, na prática, um outro partido se comparado aos democratas do Sul. Os nortistas passariam a defender o legado do New Deal, de uma maior expansão do papel do Estado na economia.
Após a Guerra de Secessão (1861–1865), os democratas do Sul conservaram seu poder regional, mas perderam protagonismo no cenário nacional[2]. Com o avanço das pautas reformistas no século XX, pós New Deal, essa ala passou a ocupar uma posição cada vez mais distante dos centros de poder. Portanto, a presidência de Johnson foi significativa. Um sulista do Texas na Casa Branca.
John F. Kennedy representava um clássico democrata do Norte. Descendente de irlandeses e católico, era uma figura jovial, com grande oratória e presença. Kennedy derrotou o então vice-presidente Richard Nixon em uma das eleições mais acirradas dos Estados Unidos. Era a vitória dos democratas do Norte e o início da mudança do mapa eleitoral dos Estados Unidos.
JFK, como forma de unir o dividido Partido Democrata, havia escolhido o sulista do Texas Lyndon B. Johnson para ser seu vice-presidente. Johnson era um experiente político, um exímio negociador no Congresso e era a figura ideal para articular com os democratas conservadores do Sul e com a oposição republicana.
Durante a presidência de JFK, Lyndon B. Johnson teve atritos com um outro Kennedy: Robert F. Kennedy[3], irmão do presidente e procurador-geral da Justiça. Uma figura em ascensão, que ofuscava o vice-presidente e mirava nas eleições futuras. Era visto como um sucessor de John Kennedy.
Tudo muda em 22 de novembro de 1963, quando John F. Kennedy é assassinado em Dallas, no Texas. Lyndon B. Johnson assume o governo, fazendo o juramento no Air Force One, no caminho de volta para Washington. Os Estados Unidos perderam o jovial e carismático Kennedy para o cansado e antipático Lyndon B. Johnson.
A presidência de Johnson foi marcada pelo acirramento das lutas pelos direitos civis no Sul dos Estados Unidos. Johnson teve de lidar com protestos e repressão dos governos sulistas sobre a população negra.
O aspecto de articulador do texano entra em conflito com a não aceitação do Sul em acabar com as leis segregacionistas. É nesse contexto que surge a figura do republicano Barry Goldwater, o responsável pelo chamado “renascimento conservador” nos Estados Unidos.
Barry Goldwater vai tentar preencher o vácuo deixado pelo Partido Democrata no Sul. Os sulistas, como justificativa para a manutenção das leis segregacionistas, argumentam que o governo central estava violando o federalismo, desrespeitando os direitos dos estados de legislar. Barry Goldwater entra na campanha eleitoral de 1964.
Apesar de LBJ vencer com certa folga, a oposição de Barry Goldwater aos direitos civis gera frutos no Sul. O republicano venceu em importantes estados sulistas: Louisiana, Mississippi, Alabama, Geórgia, Carolina do Sul, além do Arizona, seu estado natal. O Partido Democrata jamais recuperaria o Sul, que seria um cinturão republicano a partir de então.
O primeiro e único mandato eletivo de LBJ seria marcado por crises internas e externas. Estados sulistas, como o Alabama, negando o direito de voto aos negros, e a Guerra do Vietnã, que se arrastaria por 8 longos anos e levaria à derrocada do governo.
Em 1968, um Lyndon B. Johnson fraco discursou em cadeia nacional, prometendo não se candidatar nas eleições. Richard Nixon venceu as eleições daquele ano, aprofundando ainda mais o conflito no Vietnã.
LBJ – A Esperança de uma Nação (2016) – Direção: Rob Reiner
Dentre os filmes aqui analisados, LBJ definitivamente é o mais fraco. Apesar da boa atuação de Woody Harrelson, o filme peca pela falta de criticidade. É um grande dramalhão presidencial. O foco é o início da presidência de Johnson, intercalando cenas da vice-presidência com as da presidência, pós-assassinato de John F. Kennedy.
O filme opta por uma análise mais psicológica do governante texano, evidenciando sua insegurança ao substituir alguém como Kennedy, que exalava carisma. As cenas da vice-presidência ilustram o conflito de Johnson com Robert F. Kennedy, irmão do presidente, que, na prática do dia a dia presidencial, assumia para si as atribuições da vice-presidência, enquanto LBJ é mostrado como alguém excluído do jogo do poder.
É uma representação um tanto quanto exagerada. LBJ foi um exímio articulador político desde o início do mandato de John F. Kennedy. Ele era a ponte que estava cada vez mais frágil, entre os democratas do Norte e os democratas do Sul.
As escolhas de roteiro são equivocadas. O filme passa muito tempo na era Kennedy, e falta uma maior análise dos anos iniciais do governo Johnson.
As questões sobre direitos civis são trabalhadas de forma tímida. E, quando mostradas, há uma exaltação da atuação da figura do governante em detrimento do movimento negro estadunidense, principalmente sob a liderança do reverendo Martin Luther King Jr.
No fim, o filme é uma grande exaltação da figura de Johnson, mostrado como um presidente acidental que despertou a “esperança de uma nação”.
All The Way (Até o fim, 2016) – Direção: Jay Roach
Excelente filme com uma atuação grandiosa do Bryan Cranston, famoso por Breaking Bad. O filme, que tem como produtor o Steven Spielberg, tem um elenco de peso, trazendo ainda Frank Langella, Anthony Mackie e Bradley Whitford.
O longa aborda aspectos que o filme de Rob Reiner deixou passar. Aqui, a figura de John Kennedy não é mostrada. A trama já se inicia na presidência de Lyndon B. Johnson. O longa retrata muito bem a articulação de Johnson em relação aos direitos civis.
O governante texano teve que costurar acordos e desagradar antigos aliados sulistas para que as leis passassem no Congresso. A relação turbulenta de Johnson com os democratas sulistas é retratada de forma excepcional, principalmente na figura do senador Richard B. Russell Jr., interpretado por Frank Langella.
Richard Russell era um dos principais líderes dos democratas do Sul e líder da coalizão conservadora sulista no Congresso, que tentava frear as medidas mais reformistas do governo federal.
O senador Richard B. Russell Jr. era amigo íntimo de Lyndon B. Johnson. A relação dos dois no longa é um reflexo das tensões que Johnson teve que lidar para a aprovação dos direitos civis.
No fim, o senador Russell se viu derrotado, as leis de direitos civis foram aprovadas. O Sul perdeu o Partido Democrata, e Lyndon B. Johnson perdeu um antigo aliado e amigo.
O foco de All the Way é justamente o primeiro ano de governo de LBJ e as articulações políticas em torno da aprovação dos direitos civis. Filme fundamental para entendermos a virada política dos Estados Unidos do século XX. O filme termina com a eleição de 1964, com o triunfo de Johnson sobre Barry Goldwater.
Diferente da exaltação chauvinista de LBJ, em All the Way é mostrada a importância do movimento negro estadunidense, a pressão e liderança de Martin Luther King Jr.. Lyndon B. Johnson não era um progressista reformista, mas um pragmático.
Isso é exemplificado pela desconfiança que Johnson tinha de King, ao ponto de o FBI, na figura de J. Edgar Hoover, espionar e difamar o reverendo, com conhecimento da presidência, ou seja, é uma obra que, apesar do melodrama típico de filmes presidenciais, tem uma abordagem mais crítica do tema tratado.
Path to War (Bastidores da Guerra, 2002) – Direção: John Frankenheimer
Enquanto os outros filmes abordam a fase inicial do presidente Lyndon B. Johnson, aqui o foco é especificamente a Guerra do Vietnã. A questão do Vietnã já era um tema da política externa dos Estados Unidos desde o governo de Dwight D. Eisenhower.
Na presidência de John F. Kennedy ocorre o primeiro envio de conselheiros militares para a Indochina, e, na presidência de Johnson, o envio sistemático de tropas militares para invasões terrestres.
O presidente Johnson aqui é interpretado pelo ator irlandês Michael Gambon, famoso por interpretar Albus Dumbledore na saga Harry Potter. Todos os anos da presidência do democrata são retratados, sempre com o foco no Vietnã, em uma abordagem minuciosa do tema.
Tratando-se da Guerra do Vietnã, penso que seja a obra definitiva sobre os aspectos políticos do conflito. As reuniões de gabinete, os conflitos de visões sobre a guerra, são tratados de forma excepcional.
O Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara, um dos principais arquitetos para o envio de tropas para o Vietnã, é interpretado por Alec Baldwin. As discussões iniciais do filme são sobre o envio de tropas para o Vietnã. Inicialmente, os Estados Unidos estavam focando em bombardeios, que se mostravam ineficientes, dada a ampla resistência dos vietcongues e a fragilidade do Vietnã do Sul.
O governo de Lyndon B. Johnson, que contava com vozes contrárias ao envio de tropas militares, como a do advogado e conselheiro do presidente, Clark Clifford, foi convencido por Robert McNamara a enviar as primeiras tropas. Mesmo com a pressão do Secretário de Defesa, a palavra final foi do presidente. O filme deixa isso explícito, para não eximir a culpa de LBJ no desastre do Vietnã.
Já em 1965, quase 200 mil soldados estadunidenses foram enviados para o Vietnã. A cada ano que se passava, mais e mais soldados eram enviados, mais e mais soldados eram mortos.
O governo democrata se viu preso em um atoleiro do qual não conseguia sair. É sabido que, desde 1963, o Pentágono tinha relatórios de inteligência nos quais mostrava que a Guerra do Vietnã não podia ser vencida. Os chamados Pentagon Papers são tema do premiado filme The Post (2017).
A Guerra do Vietnã enfraqueceu o governo de Johnson. Protestos tomavam as ruas dos Estados Unidos. O conflito do Vietnã moldou a opinião pública dos estadunidenses. Foi a primeira guerra a ser televisionada; imagens de atrocidades, com soldados estadunidenses e vietnamitas mortos, eram constantemente mostradas em televisão aberta. Mesmo com aspectos reformistas, como a implementação dos direitos civis e a “Great Society”, que vai dar uma maior cobertura médica para a população, Johnson se viu em um beco sem saída, abrindo mão da reeleição.
O filme termina com o fatídico discurso de Lyndon B. Johnson em TV aberta, no qual falava que não iria aceitar a nomeação do Partido Democrata para as eleições de 1968 e sobre o cessar-fogo de 30 dias na Guerra do Vietnã. A guerra seria intensificada pelo presidente eleito nas eleições daquele ano, Richard Nixon. Os Estados Unidos, derrotados e humilhados, assinariam o acordo para retirada do Vietnã em janeiro de 1973. Também em janeiro de 1973 falece Lyndon B. Johnson.
Os três filmes aqui analisados mostram diferentes facetas de Lyndon B. Johnson. De certa forma, se complementam, ainda que de forma desigual. LBJ apela para a exaltação da imagem do democrata, reduzindo o papel dos movimentos sociais. All the Way reforça a habilidade de negociação de Johnson. Apesar de abordar o movimento negro, Johnson é exaltado como o responsável pelo fim da segregação. Path to War aborda as decisões políticas da sangrenta Guerra do Vietnã, tomadas por homens engravatados que custariam a vida de centenas de milhares de inocentes.
O cinema estadunidense ainda tem dificuldades em adotar um tom mais crítico em relação às suas figuras históricas. Em muitos momentos, suaviza ou omite os custos humanos de decisões tomadas por governantes eleitos. A presidência de LBJ é cheia de contradições: avanços sociais internos convivem com a guerra e o financiamento de golpes de Estado na política externa. Hollywood molda a memória histórica e reforça narrativas que privilegiam a imagem do líder, minimizando as contradições políticas e sociais dos Estados Unidos.
Referências Bibliográficas;
Bornet, Vaughn Davis. The Presidency of Lyndon B. Johnson. Lawrence, KS: University Press of Kansas, 1983.
Chomsky, Noam. O poder americano e os novos mandarins. Tradução de Clovis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2006.
Dallek, Robert. Nixon e Kissinger: parceiros no poder. Tradução de Bárbara Duarte. São Paulo: Zahar, 2009.
[1] Soft Power é a capacidade de um país influenciar outros atores internacionais por meio da atração cultural, ideológica e diplomática, em vez do uso de coerção ou incentivos econômicos. O conceito foi proposto por Joseph S. Nye Jr., sendo central na análise das relações internacionais contemporâneas
[2] Após a Guerra Civil (1861-1865) os estados Sul foram ocupados temporariamente por tropas federais do Norte durante a reconstrução, que durou até 1877.
[3] Robert F. Kennedy foi tragicamente assassinado em 5 de junho de 1968, em Los Angeles, após vencer as primárias presidenciais do Partido Democrata. Era considerado favorito para vencer as eleições gerais de 1968.
Imagem de capa: Lindon Johnson. Crusoé.









