skip to Main Content

por João Paulo Capelotti, especial para o LiceuOnline.

Quando as luzes da sala de cinema se acenderam e subiam os créditos de “Hamnet”, as pessoas demoraram para se levantar e, quando o fizeram, saíram em silêncio, algumas ainda fungando. A última cena do drama da diretora Chloé Zhao é também a melhor, e parece sintetizar suas qualidades mais marcantes: grandes atores em desempenhos bastante emotivos, capricho e detalhe na direção de arte e nos figurinos e a música de Max Richter (aqui, a conhecida “On the nature of daylight”, que já embalou os finais também muito dramáticos de “Ilha do Medo” e “A chegada”, embora o compositor tenha composto uma trilha original e muito bonita para o resto do filme). “Hamnet” fala da dor do luto, mas também de como a arte pode oferecer algum conforto ou elaboração dessa dor (algo que se pode ver no recente “Valor sentimental“, embora se trate de um tema clássico, já presente em obras como “Desejo e reparação”). Mas, até chegar lá, Zhao e a corroteirista Maggie O’Farrell, em cujo livro o filme se baseia, tomam seu tempo para explicar ao espectador a dinâmica daquela família que será afetada pela tragédia, o que aumenta o impacto da catarse final, já que a essa altura nos afeiçoamos e compreendemos os personagens de Paul Mescal, Jessie Buckley, Emily Watson e Jacobi Jupe. A cineasta também é cuidadosa com o simbolismo do que escolhe fotografar. A primeira cena mostra Agnes, vestindo vermelho, em meio à natureza. Não só o verde das árvores a complementa, como a cor do seu vestido transmite sua energia passional, associada ao fogo, que estará ausente nas roupas de tons marrons que vestirá durante o luto. Já William Shakespeare, que veste um verde-claro complementar ao vermelho usual de Agnes, surge pela primeira vez atrás das grades de uma janela, que simbolizam como ele está preso em seu próprio mundo das ideias, ainda que ele consiga olhar para o exterior e o ter refletido na sua obra, da mesma forma que as árvores do entorno se refletem na vidraça.

 

Avaliação: 4/5

 

Imagem de capa. Frame de “Hamnet”. A Terra é redonda.

Sobre o(a) Autor(a)

João Paulo Capelotti

É advogado e pesquisador, e gosta de cinema desde que se entende por gente.
Publicado no Liceu Online por:

Jéssica Fernanda de Sousa

Edição - Liceu Online

Comentários...

Leia também...

Back To Top
Política de Privacidade

Leia nossa Política de Privacidade em nossa página clicando aqui.

Cookies estritamente necessários

O cookie estritamente necessário deve estar sempre ativado para que possamos salvar suas preferências de configuração de cookies.