As TVs de tubo e os celulares Nokia – bem como as lan houses e a proeminência da TV, e não da internet, como a fonte de fama – denunciam que estamos em meados da década de 2000, embora essa marcação temporal jamais seja explicitada no longa do diretor Douglas Soares. Morador de Curicica, no subúrbio do Rio de Janeiro, Tunico, com terno e peruca acaju que lhe dão um ar de Silvio Santos, é um “papagaio” profissional, uma dessas pessoas do povo que aparece atrás dos repórteres em entradas ao vivo. Numa noite, após um desastre num parque de diversões que rende uma matéria explorando a tragédia, Tunico acolhe em sua casa Beto, um jovem que parece ter a pretensão de aprender tudo o que seu mentor pode lhe ensinar. Mas não demora para o espectador mais atento perceber que temos aqui uma espécie de adaptação de “A malvada” (“All about Eve”) de Joseph L. Mankiewicz, o grande ganhador do Oscar de 1951. Mas mesmo para quem não viu o clássico a história é bastante previsível: logo fica claro que Beto não quer apenas aprender com Tunico, ele quer ser Tunico, quer tomar o lugar dele. Mas falta aqui o devido aprofundamento psicológico: por que, afinal de contas, ele faz tudo isso? É pela fixação com a fama? É para sair da pobreza? É para poder dar vazão a seus desejos reprimidos? O filme não responde a nada disso, e na verdade mal lança essas perguntas – e não ajuda que, aparentemente guiado pelo diretor, Ruan Aguiar interprete Beto de maneira tão quieta e mecânica, deixando apenas indícios de conflitos internos que nunca atingem a superfície. E aí mesmo a duração enxuta de 90 minutos soa demasiada para tão pouco conteúdo. Salvam-se no fim a ótima direção de arte, que recria as casas suburbanas desse período próximo com muita competência, e a atuação de Gero Camilo, que infunde em Tunico as doses certas de oportunismo, frieza, fragilidade e desamparo que tornam seu personagem detestável e igualmente digno de pena, como era também a de Bette Davis no filme que serviu de moldura a este projeto.
Avaliação: 2/5
Imagem de capa: Papagaios. Black&CO.









