É impossível resumir a vida de uma pessoa em duas horas, mas o que boas cinebiografias fazem é pelo menos dar um vislumbre sobre o que motiva o personagem central, por que ele é daquele jeito e fez o que fez. No recente “Homem com H”, por exemplo, se nota que Ney Matogrosso sempre se pautou pela transgressão, o que perpassa desde o título do filme (a escolha de gravar um forró com ar de provocação) até a cena final ao som de “Eu quero é botar meu bloco na rua”. Em “Michael”, por outro lado, terminamos o filme sem saber muita coisa sobre o protagonista – e não porque ele fosse realmente uma esfinge, como parece ser o caso de “Jackie” (o olhar de Pablo Larraín sobre a enigmática Sra. Kennedy), mas porque o filme não parece querer fazer qualquer pergunta sincera sobre Michael Jackson. O cantor é definido aqui como alguém traumatizado pela violência paterna e pela exploração que sofreu na infância e que busca refúgio na caridade e na construção de um verdadeiro zoológico em casa. Há elogios sobre sua voz, sobre sua criatividade e talento musical, sobre como ele parece pioneiro em forjar o que viria a ser o standard do pop (uma música dançada com coreografia pelo próprio cantor e bailarinos de apoio). Mas o que o inspira, como é seu processo criativo ou quem ele é fora dos palcos são questões absolutamente ausentes do filme do diretor Antoine Fuqua, que se esmera em reconstituir shows, videoclipes, programas de TV e outros momentos icônicos de Michael já impregnados na memória coletiva, e conta com o talento de atores esmerados em copiar seus sósias da vida real nos mínimos detalhes. “Michael”, por isso, passa longe de ser inassistível e flui bem principalmente em seus dois terços iniciais. O final parece sofrer com alguma gordura e pelo menos um show que poderia ser cortado sem prejuízo para a narrativa (parecia haver apenas a vontade dos produtores de dar mais um check na discografia do cantor). Mas o grande problema do filme é que, no fim das contas, ele não parece se justificar em si mesmo se está focado na reconstituição do que já vimos e não nos seus bastidores. Por que então assisti-lo e não rever o clipe original de “Thriller”?
Avaliação: 2,5/5
Imagem de capa: Michael. Escotilha.









