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por Marcos Manoel Ferreira, especial para o LiceuOnline.

Aludir acerca das virtudes de quem quer que seja — vero ou não — sempre foi mais plácido e balsâmico por massagear egos. Um paradoxo do cotidiano, em que ser honesto, parece ofensivo, risível, provocativo, bizarro. Nas palavras da patrística Agostiniana, “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem”. Dizer o que todos querem ouvir é eficaz, mélico, ventila poético, ainda que não genuíno! Nessa perspectiva, Freud corrobora com essa ideia, quando afirma que “Podemos nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio”.

A corrupção na sua acepção, no seu mais imerso sentido lato sensu corresponde à decomposição das relações humanas, éticas e morais, manifesta como pandemia nacional, coadunada à vaidade, à soberba e à arrogância de indivíduos insaciáveis. “Corresponde à ideia de decomposição. Na esfera das relações humanas em particular, está relacionado ao subornoː ato ou efeito de se corromper, oferecer algo para obter vantagem em negociata onde se favorece uma pessoa e se prejudica outra”.

A necessidade de uma reflexão profusa e mais demorada acerca dessa questão, insidiosamente, em simbiose com a desonestidade e a imoralidade política — não tão somente —, que permeia todos os setores da sociedade e desnuda o quanto os princípios éticos do certo ou errado, tem sido uma linha tênue! “Nosso caráter é o resultado da nossa conduta”, afirmou o filósofo grego Aristóteles.

No Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda, de Jessé de Souza, de Roberto da Matta, do “você sabe com quem está falando?”, do “jeitinho que não é desonesto”, é hábito. Normal, estrutural. Contudo, imoral, desrespeitoso. Segundo a ONG Anticorrupção Transparência Internacional, numa avaliação de 2020 entre 180 países, ocupamos a 94ª. posição no nível de percepção de corrupção. O que, indiscutivelmente, exorta o surgimento de governos populistas, vociferando políticas retrógadas, ignorando o avanço do abismo social, a exclusão sempre invisível aos olhos do Estado e das elites, o aparelhamento das instituições, que deveriam estar a serviço do povo, investigar e combater esse piáculo e não de joelhos.

Argumentar e ponderar sobre essa excrescência moral enraizada nas relações pessoais, sociais e institucionais, requer acima de tudo disposição, ousadia e atitude, principalmente, diante de um sistema perverso, covarde, omisso, sob a égide de uma sociedade em que alguns arautos do puritanismo, paladinos da moral, hipócritas por natureza, camuflados em discursos proselitistas, sempre na penumbra de habeas corpus preventivo, em total absonância com a retórica religiosa tão propalada em nome de uma blindagem moral de “cidadãos de bem”, acima de qualquer suspeita, em que o desvirtuamento está sempre atribuído as práticas do outro. “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa”, que fomenta as benesses dos “sabe com quem você está falando?” de foro privilegiado.

O nível de mentalidade alicerçada na cultura da “facilidade e da esperteza”, atingiu um patamar tão preocupante, que para muitos, a corrupção, a trapaça tornaram-se algo “aceitável” e “natural”, sob a perspectiva do “todo mundo faz”. Indiscutivelmente, uma vergonhosa inversão de valores que incrementa um comportamento nacional e reverbera de geração em geração.

Quantos reiteram de modo explícito e categórico que “todo político é ladrão”. Naquela máxima popular de quem “não é corrupto, quando for eleito, tornar-se-á”. Desembocando na reflexão latente: E desde quando ser ladrão é/seria habitual e admissível? No universo futebolístico, por exemplo, a colossal paixão nacional, observa-se, um festival de comportamentos, atitudes reprováveis e de desonestidade explícita. Isso impele para uma revisão de conceitos, frente a convicção de que não podemos perpetuar a ideia de que o errado é certo, numa nítida evidência que ser ético, constrange! A histórica cultura da “esperteza”, da “malandragem” e do “jeitinho brasileiro”, do levar vantagem em tudo é muito diferente de ser honesto. A corrupção ordinária, a desonestidade travestida de sucesso, abre abismos sociais, invisibiliza a justiça, a ética e afaga o mal caratismo.

Em todos os segmentos da sociedade, possuem pessoas honestas, de conduta íntegra, bem como aquelas desprovidas de qualquer brio ou princípios. Indivíduos competentes, confiáveis, bem intencionadas, comprometidos e idealistas, como também, os incompetentes, de moral duvidosa, sórdidos. Seja político, jogador de futebol, militar, professor, médico, advogado, pastor, padre, bispo católico, bispo evangélico, médium, ateu, à toa, empreiteiro, empresário, banqueiro, famoso ou anônimo, a corrupção é desvio de caráter, um crime vil, que fere a alma, que não tem “cara”; já o resultado, nota-se em cada analfabeto deste país; em cada criança abandonada, em situação de risco social, familiar; na qualidade da educação; na insegurança da segurança pública; nas rachadinhas; na constrangedora e sempre ruidosa ingerência estatal; suas frágeis instituições subservientes; os fiéis sabujos onipresentes nas promíscuas e íntimas relações entre o público e o privado! Já dizia Rui Barbosa, “não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem” e como são longevos!

A proposta desta provocação é um convite a uma reflexão antropológica, filosófica, histórica, moral, política e na medida do possível, como cada um se percebe nesse processo, sendo mais um ou fazendo a diferença. Um despertar para algo que nos parece, infelizmente, familiar e “genuíno”. Quem sabe, um despertar desse estado letárgico em que se encontra a sociedade corrompida, de indivíduos mais conscientes e críticos, intolerantes à desonestidade, que precisam ter clareza e a certeza, que corrupção não é exclusividade de classe política ou qualquer outra categoria profissional. Um espectro intrínseco nas nossas relações diárias e inerente à condição de indivíduos involuídos e velhacos. E as grandes reflexões filosóficas, sociológicas em Rousseau, Hobbes, Maquiavel, Nietzsche, etc. O homem é bom por natureza, mas a sociedade o corrompe? Ou o homem é o “lobo do homem”? “To be or not to be, that is the question”, em Hamlet de Shakespeare.

O desvirtuamento se manifesta nas mais singelas e “ingênuas” atitudes do nosso dia a dia. Como “oferecer” um trocado ao policial como compensação por uma “gentileza” ou por um “quebra-galho”. Aquele que suborna é tão corrupto e infame, quanto o que aceita o suborno. O estúpido que vive dando carteirada por ser autoridade — e ainda se apresenta com a clássica e ordinária empáfia: “você sabe com quem está falando”? Isso quando o parvo, não é amigo do amigo de um meritocrata dos privilégios, típico do ranço do colonialismo provinciano e patriarcal que nos pariu, das raízes malditas, vergonhosas do defunto insepulto do coronelismo e da Cleptocracia.

Aquela “insignificante” e ingênua cola na escola — que o delituoso de forma patética ainda ironicamente, típico dos apodrecidos — diz: “quem não cola, não sai da escola”, profundo! Para muita gente, colar, tentar enganar quem quer que seja, normal! É aí que reside o problema. O que fura a fila da cantina, do banco, do estádio, do cinema; que transgride as leis e alguns princípios básicos da boa convivência, também acredita que é normal, “todo mundo faz”. Que direta ou indiretamente sempre prejudica alguém; o “jeitinho brasileiro”, todos, igualmente, no mesmo time de detestáveis, que arrebentam com a Nação, comprometem o combalido presente e ameaçam o já cada vez mais incerto futuro, repetir o passado.

Barão de Montesquieu afirmou, que “a corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios.” Portanto, de nada adianta ir para as ruas com cartazes, palavras de ordem criticando a corrupção e suas ameaças, os “mensaleiros”, o “petrolão”, os milicianos sob proteção de gente graúda, por exemplo, se na primeira oportunidade, o indivíduo tropeça e ignoram princípios, valores elementares e básicos, mesmo sabendo da ilegalidade do seu ato. O constrangedor nepotismo, o Caixa 2 disfarçados de legalidade e prática política. Ou seja, de nada valerá as ferrenhas críticas à corrupção e a desonestidade do outro, se no “nosso” cotidiano, sempre “estamos” tentando ludibriar ou trapacear alguém, ainda que seja, enganar-se.

Nessa perspectiva, a necessidade de repensarmos atitudes valorosas e reavaliarmos princípios éticos básicos, elementares, como o respeito, a empatia, a educação, são imprescindíveis. O Brasil é um país gigantesco por natureza, povo trabalhador por excelência, sofredor e vítima da famigerada prevaricação dos ilibados, a incompetência dos administradores públicos e avalizados por seus currais eleitorais.

Ainda que sombrio nesses tempos difíceis, precisamos ser realistas esperançosos, como em Ariano Suassuna, por uma grande transformação, que fará da cegueira da ignorância, da parvoíce triunfante, um caminho diferente, de possibilidades, alicerçado na dignidade e em cidadãos conscientes, críticos e intolerantes a injustiça, pois “Se não há justiça para o povo, que não haja paz para o governo”.

Usufruir do que nos aguarda num horizonte ainda incerto, o verdadeiro exercício do respeito ao próximo, ao erário público, na construção da verdadeira cidadania, ainda tem sido um direito longínquo, restrito e negado a muitos humildes e anônimos brasileiros, que constroem o patrimônio dos “honoráveis bandidos”, convictos da impunidade das leis e da miopia dos “deuses terrenos” desta republiqueta de bananas e patentes. Em palácios, nas alcovas de paraísos fiscais, offshore, presídios, chefiados por milicianos e gângsteres, fazendo inveja a qualquer organização criminosa – Yardies, Yakuza, Cosa Nostra.

Portanto, acredito ser a educação, conditio sine qua non — doméstica, escolar — a arte, o debate de ideias, o contraditório, a leitura, a reflexão, possibilidades e caminhos mais próximos, para repensarmos nossos valores e princípios morais, éticos e filosóficos. Na incansável luta pela transformação e a construção de uma sociedade mais fraterna, equânime, justa e honesta. Reconhecendo-nos dentro do processo histórico e antropológico, no qual, estamos todos inseridos e convictos de que somos nós, os únicos responsáveis por nosso sucesso ou fracasso por um mundo melhor, ou não. “Um povo corrompido não pode tolerar um governo que não seja corrupto”.

Sobre o(a) Autor(a)

Marcos Manoel Ferreira

Professor, Pedagogo, Historiador, Escritor. Pedagogo com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador; Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana e Mestre em História – Cultura, Religião e Sociedade. professormarcosmanoelhist@gmail.com
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