Do mesmo modo como “Ainda estou aqui”, “O agente secreto” fala do Brasil durante a ditadura militar por meio de uma família destruída pela perseguição política patrocinada pelo regime. Mas enquanto o longa de Walter Salles era um drama clássico, o filme de Kleber Mendonça Filho adota uma estrutura não-linear e múltiplos pontos de vista. “O agente secreto” subverteu todas as minhas expectativas – o que eu acho ótimo –, ao quase sempre se desviar do que eu imaginava para o desenvolvimento do roteiro ou mesmo de qual seria o foco da história. Até o título soa enganador, ou no mínimo irônico, já que as únicas coisas que aproximam o protagonista de um espião são o uso de um nome falso e o fato de ter gente perigosa em seu encalço. O interesse de Mendonça Filho é a memória, e como ela pode ser reconstruída a partir de rastros em vídeo, áudio, documentos ou até mesmo as recordações imprecisas de uma criança resgatadas anos depois em uma conversa – ou, ainda, como a memória de um fato inusitado, como uma perna encontrada dentro da barriga de um tubarão, pode se reconfigurar como lenda urbana das mais bizarras. Mas esses temas de fundo nunca atrapalham a fruição de “O agente secreto” como thriller (já que o filme bebe deliberadamente na gramática do gênero, criando uma atmosfera de tensão e paranóia que perpassa quase toda a narrativa) ou até como comédia, porque há um humor quase onipresente e muito cortante e eficaz, que diverte mas também critica de modo impiedoso a burrice e o atraso. O elenco liderado por Wagner Moura é impecável, a começar por ele mesmo, mas quem rouba a cena é Tânia Maria na pele de Dona Sebastiana, que tem as melhores tiradas do filme. A fotografia de Evgenia Alexandrovna é granulada na medida exata, recriando a textura típica dos anos 70 sem ficar chamando a atenção para si mesma; igualmente merecedores de aplausos são os meticulosos trabalhos de figurino e direção de arte. As 2h40 fluem bem, ainda que seja possível apontar algumas gorduras, como a cena com Udo Kier que apenas reforça algo que já estava claro (a escrotidão do delegado). Mas é uma nota de rodapé que não desmerece os acertos muito mais numerosos do filme.
Nota: 4,5/5
Imagem da capa: Divulgação (disponível aqui).









