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por João Paulo Capelotti, especial para o LiceuOnline.

Sergei Parajanov nasceu e cresceu na Geórgia, em família de ascendência armênia, e estudou cinema em Moscou e Kyiv. Foi de certa forma uma das maiores pedras no sapato da Mosfilm, a agência que controlava a produção cinematográfica na antiga União Soviética, se recusando a seguir os códigos narrativos do establishment – e pagando por isso com a liberdade durante boa parte da vida. De modo similar ao que faria em “A Cor da Romã” (1969), que é talvez a cinebiografia mais doida que eu já vi, em “Sombras dos Ancestrais Esquecidos” (1965) o enredo é o aspecto menos importante do filme. Na essência, acompanhamos Ivanko, que se apaixona ainda criança por Marichka, filha do homem que matou seu pai. Com a morte trágica dela, Ivanko tem um período de luto mas acaba cedendo depois ao casamento com Palahna, embora a lembrança de Marichka jamais o deixe e o conduza também à morte. O que interessa mesmo a Parajanov é a ambientação da história nos Cárpatos, a região montanhosa na fronteira com a Romênia, a manutenção dos diálogos no dialeto local (para o horror da Mosfilm, que queria todos os filmes falados em russo) e o retrato dos costumes da região no que diz respeito ao vestuário, ao exercício da religiosidade, aos modos de morar e viver. Parajanov é um esteta que adora brincar com a imagem (colocando filtros vermelhos, grudando a câmera numa árvore tombando, ou ainda mostrando o ponto de vista do sujeito assassinado, com direito a sangue escorrendo na tela no estilo da vinheta dos filmes do 007). Muito da história acaba sendo contada por meio das cantigas entoadas pelos figurantes, quase como um coro grego, o que algumas vezes me deixou com uma grande cara de interrogação. Mas Parajanov não parece ter uma preocupação de clareza: sua obra é um convite à pura fruição estética que o cinema pode proporcionar.

 

Nota: 3,5/5

Sobre o(a) Autor(a)

João Paulo Capelotti

É advogado e pesquisador, e gosta de cinema desde que se entende por gente.
Publicado no Liceu Online por:

Edição - Liceu Online

Revista online de Humanidades. @liceuonline

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