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por João Paulo Capelotti, especial para o LiceuOnline.

“Springsteen: salve-me do desconhecido” tenta fugir das armadilhas típicas das cinebiografias (mostrar a vida do personagem central do berço ao túmulo, de maneira superficial e episódica) ao se focar num momento bastante específico da vida do músico. Com o fim de uma turnê de sucesso, os executivos da gravadora já estão como urubus esperando um novo disco repleto de hits. Mas Bruce, contrariando as expectativas, aluga uma casa em sua cidade natal e, isolado de frente para um lago e com as folhas das árvores já amareladas do outono, é tomado pelas memórias da infância e do pai alcoólatra e violento. Impregnado de melancolia, escreve as letras de um álbum, “Nebraska”, muito mais folk, que ia na contramão do rock energético que ele fizera até ali. O roteiro do diretor Scott Cooper é ousado por buscar seu personagem no que seria o fundo do poço e por se focar justamente em sua batalha contra a depressão. Mas faz isso do jeito mais quadrado possível. Springsteen é retratado como gênio incompreendido, que enxerga além do pragmatismo dinheirista da gravadora, o que justificaria seus chiliques e teimosias, ou mesmo o gelo dado num potencial interesse amoroso (um amálgama de vários casos verdadeiros do cantor). Jeremy Allen White, um ator talentoso, fica com pouco para trabalhar tocando praticamente uma nota só. Jeremy Strong se sai melhor como seu empresário com paciência de Jó, fazendo milagre com diálogos constrangedoramente expositivos que tentam explicar ao público o significado, bastante evidente, das músicas do álbum. No fim, ainda há tempo para uma reconciliação do cantor com o pai, antes de uma rápida cena com a mãe, escanteada pela trama a um papel marginal (um desperdício do talento da atriz Gaby Hoffmann). O resultado é uma obra que passa longe de ser inassitível, e tem mesmo pontos positivos, como as cenas em que Springsteen está no palco ou compondo, ou ainda a cuidadosa reconstituição de época do ano de 1982. Mas, dada a importância dele para a história da música, o resultado é bastante sem sal.

 

Nota: 2/5

 

 

Imagem de capa: Mostra.org

Sobre o(a) Autor(a)

João Paulo Capelotti

É advogado e pesquisador, e gosta de cinema desde que se entende por gente.
Publicado no Liceu Online por:

Edição - Liceu Online

Revista online de Humanidades. @liceuonline

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