Sempre gostei muito de trilhas sonoras, e a que Philip Glass compôs para este filme é uma das minhas preferidas da vida: o peso dramático dos violinos é complementado à perfeição pelas notas límpidas do piano. Mas até então não havia visto o filme a que ela serve tão bem, que deu a Nicole Kidman seu Oscar de melhor atriz (no ano em que o prêmio principal foi para o apenas mediano “Chicago”). Ela está sensacional no papel da escritora Virginia Woolf, que batalha contra a depressão enquanto escreve seu romance “Mrs. Dalloway”. Na verdade, não há sequer uma nota falsa no elenco impressionante que ainda conta com Meryl Streep, Ed Harris, Jeff Daniels, Toni Collette e Miranda Richardson. A montagem do veterano Peter Boyle se inicia com paralelos no cotidiano das três protagonistas, mas também sabe trabalhar com elipses que potencializam as decisões do roteiro, como a de não mostrar diretamente a cena definidora do destino da personagem da sempre ótima Julianne Moore, cuja decisão em nome da própria felicidade a tornou uma figura monstruosa para sociedade. O diretor Stephen Daldry, longe de se limitar a um teatro filmado, dosa bem o simbolismo de elementos como a água, que aqui representa a depressão, que chega a invadir um quarto de hotel num momento metafórico similar ao que Lars Von Trier faria anos mais tarde em “Melancolia”, e que também está presente nas cenas de abertura e encerramento, o que confere uma coesão estética e temática ao conjunto. Mas por mais trágico que pareça, existe uma grande beleza em “As horas”, que envolve a tomada de consciência sobre a própria vida, e de como o que pode soar trágico ou cruel seja na verdade libertador, especialmente para as mulheres.
Nota: 5/5
Imagem: Divulgação.








