skip to Main Content

por , especial para o LiceuOnline.

Por Daniela Cristina Pacheco*, especial para o LiceuOnline.

Imaginemos um grande armário em sua estrutura imponente a ocupar um lugar significativo na sala. Abrimos suas gavetas onde repousa as escondidas alguns objetos de aparência insignificante. Estes, por fim, nos chamam atenção. Ora, objetos ordinários são, todavia, os componentes fundamentais do armário e, por que não, o motivo mesmo de sua existência!

Nesta metáfora que evocamos a sala seriam todas as ações humanas. O armário o recorte histórico, as realidades humanas das quais são possíveis obtermos algum conhecimento, e as gavetas um modo próprio de organizar, estruturar e pensar a história: a micro-história que se abre a revelar as singularidades dos atores históricos bem como dos acontecimentos.

Neste diminuto texto abriremos as gavetas pra observar dois objetos em questão. O primeiro, a narrativa fílmica de O Retorno de Martin Guerre (1982) do diretor Daniel Vigne com a colaboração da historiadora norte-americana, Natalie Zemon Davis, especialista em História da França, que desenvolveu pesquisas tanto para a rodagem do filme quanto para o livro homônimo publicado no ano seguinte ao filme. Segundo, o livro Atos impuros – a vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença (1987) de Judth C. Brown. Narrativas estas chegaram a nós por meio de duas micros-historiadoras que se propuseram a tornar audíveis as vozes que ecoavam nos muros da disciplina histórica e eram ignoradas.

Os objetos referenciados foram trabalhados por meio da micro-história visto que  essa abordagem permite o enriquecimento da análise do social de forma mais complexa, levando em conta aspectos diferentes, inesperados e multiplicados da experiência coletiva (Prefácio LEVI,2001,p18). Essas abordagens nos permitiram, como leitores, apreender as experiências individuais, traduzindo assim uma subjetividade de condições objetivamente vividas e compartilhadas pelos membros de um mesmo grupo. Deste modo,

A Micro-História não se relaciona necessariamente ao estudo de um espaço físico reduzido, embora isto possa até ocorrer. O que a Micro-História pretende é uma redução na escala de observação do historiador com o intuito de se perceber aspectos que de outro modo passariam despercebidos. Quando um micro-historiador estuda uma pequena comunidade, ele não estuda propriamente a pequena comunidade, mas estuda através da pequena comunidade […]. (BARROS, 2004, p. 153)

 

Os micros- historiadores partem do específico para o geral, isto é

 

A redução de escala, o interesse por destinos específicos, por escolhas confrontadas a limitações, convidam a não se deixar subjugar pela tirania do fato consumado – ‘aquilo que efetivamente acontece’ – analisar as condutas individuais e coletivas, em termos de possibilidades, que  o historiador pode tentar descrever e compreender. ( Prefácio LEVI,2001,p19-20).

 

O retorno de Martin Guerre é uma narrativa referencial dentro da micro-história, pois permite a observação de aspectos e pormenores da vida cotidiana de Artigat, uma pequena aldeia francesa do século XVI, e relata a vida de um homem, Martin Guerre, que abandona sua esposa, Bertrande de Roll após alguns anos de casamento, motivado pela falta de adaptação à vida conjugal e comunitária.

Quando muito jovem Martin casa-se com Bertrande, no entanto, não consegue consumar o enlace matrimonial. Por anos foi exposto a toda a sorte de remédios, rezas, unguentos. Diante dessa situação, muitos dos familiares dele e membros da aldeia acreditavam que Guerre fora acometido por um feitiço, suspeitas essas que foram confirmadas quando por intervenção de um ritual feito por um velha feiticeira o faz conseguir ter sua primeira relação sexual, engravidando, assim, sua esposa. Desgostoso com a vida camponesa e familiar da aldeia rouba seu próprio pai, que o repreende, e, indignado, utiliza a acusação como pretexto e foge para Espanha, onde serve ao exército.

Sua esposa fica na aldeia a esperá-lo seguindo as normas, mantendo se pura até seu retorno ou comprovação de sua morte. Passado alguns anos, de forma surpreendente Martim retorna, sendo reconhecido por amigos, familiares e sua esposa, fornecendo até mesmo provas da autenticidade da sua identidade, relembrando fatos vivenciados com os mesmo. O homem que havia abandonado sua casa e família em busca de aventura e fuga dos constrangimentos vividos a posteriori. Durante seu afastamento seus pais vieram a falecer, fato que levou seu tio Pierre Guerre a cuidar de seus bens da família. Bertrande com o retorno de seu esposo passa a viver uma vida feliz e apaixonada. Passado um tempo de seu retorno, Martin pede ao seu tio o controle de seus bens, mediante este pedido seu parente estranhando a atitude se contende com o sobrinho ao ponto de acusá-lo de ser um impostor que usurpava a identidade do verdadeiro Martim Guerre. Tal fato leva a aldeia a ficar dividida. Até mesmo o padre duvida da sua verdadeira identidade. Mas Bertrande e as irmãs dele ficam ao lado de Martim.

Para a resolução deste caso convoca-se um renomado jurista, Jean Cores, para  Artigat, o qual buscou provas para julgar o acusado tendo por testemunha principal Bertrande, a esposa do acusado, que teve sua vida privada esmiuçada e analisada pelo jurista que, mediante as evidencias, considera o acusado inocente.

Inconformado com a resolução do caso, Pierre Guerre obriga a esposa de Martin a assinar um documento de acusação levando-o a ser julgado em Touliuse. Segue os julgamentos e Martin consegue mediante todos no interrogatório mostrar-se inocente. No fim do processo, quando por fim seria decretada sua inocência, um homem com uma perna de pau entra declarando ser o verdadeiro Martin Guerre. Os juristas pedem que a família o reconheça juntamente com Bertrande que acaba declarando o homem recém-chegado como seu legítimo esposo. O impostor vendo a impossibilidade de provar o contrário admite sua verdadeira identidade: Arnud Tihl, conhecido como Pausette. Com a resolução do caso o acusado é condenado à fogueira.

Daves compôs tal narrativa mediante o acesso à documentação elaborada pelo jurista Jean Coras e o magistrado Le Suer no Arrest Memorable. Na sua análise, a autora fugiu da macro análise estrutural, como forma de evitar as deformações que poderiam ser impressas no cotidiano das pessoas envolvidas no fato. Ao adotar a micro-história como análise para compor a narrativa, a princípio para a narrativa fílmica e depois para o livro, ela conseguiu perceber as características próprias da aldeia de Artigat e, tendo como fio condutor a narrativa da figura de Martin Guerre, ela trabalhou com aspectos do cotidiano, da economia e da vida privada dos moradores da aldeia.

Outra obra que no demonstra a construção de narrativas por meio da micro-história é o livro Atos impuros- a vida  de uma freira lésbica na Itália da renascença, da historiadora Judith C. Brow, que pesquisou a vida da Irmã Benedetta Carlini de Vellano, abadessa do Convento Mãe de Deus, que foi condenada por manifestar seus desejos sexuais por outras mulheres, passando-se por uma mística em que por meio de supostos êxtases, perdia a consciência e mantinha relações sexuais com outras freiras afirmando ser tomada por um entidade mística. A partir do caso Benedetta, Brow conseguiu apreender as representações da sexualidade das mulheres homo-afetivas na Itália renascentistas e como o lesbianismo era (in)compreendido e negado até mesmo pela ausência de vocábulos ou conceitos para nomear tal prática.

O fato é que durante muito tempo os europeus acharam difícil aceitar que as mulheres pudessem realmente ser atraídas por outras mulheres. Sua visão da sexualidade humana era falocêntrica – as mulheres tinham de ser atraídas pelos homens, e os homens tinham que ser atraído pelas mulheres e não havia nada numa mulher que pudesse despertar o desejo sexual de outra mulher. (BROWN, 1987,p14)

 

Outra razão para ignorar a sexualidade lésbica era a crença de que as mulheres eram tidas como naturalmente inferiores aos homens. Assim, percebiam essa sexualidade como um esforço de certas mulheres de desafiar os homens e ultrapassar sua própria natureza (BROWN, 1987,p21).

Nessa investigação eclesiástica sobre a vida de Benedetta Carlini nos é possível observar as práticas em detalhes de uma mulher que subverte comportamentalmente a sociedade, a religião e a fé, porém, nos leva a compreender o comportamento renascentista e ocidental em relação à sexualidade lésbica mediante a sociedade a qual se inseria. A condenação dela, paradoxalmente, fez com que se propagassem os ecos da sua história que muitos procuraram esconder levando-a a condenação.

As duas narrativas não se igualam apenas na sua metodologia de elaboração, por serem construções históricas de indivíduos comuns, um camponês e uma religiosa lésbica, que outra possibilidade de análise histórica lhe dariam espaço e poderiam ser protagonistas de análises sérias? Também o que me chama atenção é que nas duas narrativas as personagens fingiram ser o que não são: Pancette em Martin Guerre e a freira em uma mística casta. Outro fato de encontro das narrativas é a exposição da vida sexual de duas mulheres: Bertrande e Benedetta que, de certa maneira, subverteram as normas da condutas femininas nos levando a compreender o regime social e religioso que influenciava tais comportamentos femininos. Também é válido destacar que tanto a temática (a sexualidade) quanto as personagens (mulheres) não ocuparam o protagonismo das análises históricas tradicionais.

Retornando à metáfora do armário é possível compreender que o que compõem os móveis, muitas das vezes, não são as estruturas aparentes e sim o que se guarda nas gavetas. A micro-história trabalha nesta perspectiva, analisando o que muitas vezes foi ignorado e abrindo as gavetas, ela, possibilita dar vozes aqueles que foram para  fogueiras do esquecimento. Das cinzas destes sujeitos podemos adentrar nas vidas deles as quais com um olhar aguçado podem vir a ser composição essencial para pintar o cenário histórico do passado, tal como podemos ver na narrativa fílmica de Martin Guerre e a história de Benedetta.

 

*Daniela Cristina Pacheco é Mestre em História pela UFG. “Historiadora e pedagoga. Professorando por aí…”
Lattes: http://lattes.cnpq.br/9574471004893999

 

Referências:

BARROS, José D’Assunção. O campo da história – especialidades e abordagens. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

BROWN, Judith C. Atos impuros- a vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença. Ed brasiliense, 1987, p11-40.

REVEL, Jaques. A história ao rés-do-chão. Prefácio a Levi,Giovanni. A herança imaterial-trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII, p.7-37.

VIGNE,Daniel; CARRIÈRE, Jean-Claude; Lewis Janet;  Davis, Natalie Zemon . O Retorno de Martin Guerre(Le Retour de Martin Guerre)[ filme/dvd] direção de Daniel Vigne  , França, 1982.

Sobre o(a) Autor(a)

Publicado no Liceu Online por:

Cristian Junior

Mineiro metido a engraçadão, corinthiano e professor. Mestre em História pelo Programa de Pós Graduação em História da UFG. Tem experiência na área de História Política, com ênfases em História do Brasil Recente, Neoliberalismo no Brasil, Governo Collor (1990-1992), História da Imprensa e Charges e História. Como membro de grupos de pesquisa, atua nas áreas de Capitalismo e História e Filosofia Contemporânea.

Comentários...

This Post Has 46 Comments

  1. Excelente e importante reflexão. Parabéns, também, pela sensibilidade! As meta-narrativas não são a única opção para uma boa historiografia. A micro-história me surpreende pelos detalhes. Abraço forte!

    1. A narrativa traz com clareza uma excelente alternativa a perspectiva de análise histórica, e se constrói de forma muitíssimo coerente. É uma leitura instigante e se destaca, sobretudo, por sua fluidez e pela eloquência da autora. Uma ótima experiência!

  2. O artigo se mostra infinitamente interessante em sua análise, detalhamento e destaque para as micro- histórias, estas que trabalham esmiuçado e observando os pequenos pontos, que mais a frente serão observados também no geral, porém esse estilo de narrativa e estudo proporcionam uma riqueza e compreensão maior dos fatos, característica que foi destaca no texto, que além de observar e ressaltar esse estilo, também nos faz ansiar para conhecer estas obras analisadas com tanta sensibilidade. No mais, só tenho algo a acrescentar: parabéns pelo ótimo artigo!

    1. Realmente, a Micro- História nos instiga olhar as minúcias. Espero que venha reconhecer as obras apresentadas, pois, são de grande valia e riqueza. Abraço.

  3. Parabéns, Daniela!

    Com o seu texto é possível vislumbrar, por meio das gavetas da micro-história, o protagonismo de mulheres que não sucumbiram diante de padrões estabelecidos, mas deixaram elementos para que conhecêssemos, ainda que marginalmente, mas de forma substancial, aspectos de suas existências num determinado espaço e tempo.

    1. Parabéns por um Conteudo super interessante, são pessoas assim, que dedicam seu tempo a cultura a valorizar nós mulheres que teremos um mundo melhor e igual!! 👏👏👏

    2. Histórias como dessas mulheres nos fazem abrir gavetas e reconhecer a presença feminina na história, a qual, muitas vezes foram relegadas ao esquecimento.

  4. Daniela,

    Excelentes reflexões! esse texto chegou em uma excelente hora: vou começar uma disciplina eletiva que partirá de micro-narrativas e/ou narrativas autobiográficas… obrigado!

  5. Daniela, amo histórias. São a forma de muitos se identificarem ou se desligarem da realidade opressora na qual eles vivem. Lhe desejo muito sucesso e espero que você continue trazendo ao conhecimento do público a realidade desse período e de outras sociedades. E espero que você rode esse mundo inteiro dando palestras. Abraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também...

Back To Top