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por Cristian de Paula Sales Moreira Júnior, especial para o LiceuOnline.

O presente ensaio se caracteriza como notas tomadas do Curso de Extensão Universitária “Igreja Ortodoxa e Igreja Católica: Diferenças e Aproximações”, ministrado pelo professor Dr. José Jivaldo Lima ao Grupo de Pesquisas em Filosofia do Direito e História da Filosofia (Quaesitionis Coetus) – UFG.

Parte 01:

Primeiramente, é preciso compreender que a Igreja Ortodoxa e Igreja Ortodoxa Oriental são comunidades distintas, com princípios distintos e discrepantes. Os ortodoxos orientais têm em semelhança com a Igreja Ortodoxa o fato de que usam ícones não tridimensionais (imagens planas) para veneração – note-se que na mentalidade católica, tanto latina romana, quanto ortodoxa, não há adoração, como pensam os evangélicos, mas há veneração–, por exemplo; foi contra a adição da Filioque (o Espírito Santo procede do pai e do Filho) – O Espírito Santo para Ortodoxos e Ortodoxos Orientais procedem apenas do Pai, não também do Filho – ao Credo;  contra a infalibilidade do Papado; e contra o dogma latino da Imaculada Conceição de Maria (a mãe de Cristo teria sido imaculada, por intervenção, mas não concebida imaculada ela mesma). Apesar de existir diferenças, a Igreja Católica Ortodoxa respeita a autodeterminação das outras Igrejas, tanto a oriental quanto a Apostólica Romana.

A Igreja Ortodoxa e as Igrejas Ortodoxas Orientais são consideradas cismáticas, e não hereges, pelo catolicismo apostólico romano. O Cisma se refere a quem comunga sua fé, mas se separou. Heresia se refere àquele que nega sua fé – neste caso se definem as igrejas que surgiram a partir dos movimentos da Reforma Protestante. Enquanto a Igreja Ortodoxa aceita os sete primeiros Concílios Ecumênicos, já no quarto Concílio, o Concílio Calcedoniano de 451, algumas igrejas e comunidades orientais se separaram da Igreja Romana, fundando, então, o Catolicismo Ortodoxo Oriental. Não aceitaram a fórmula duofisitista, ou seja, de que Cristo tem duas naturezas. Aderiram ao monofisitismo, de que Cristo tem apenas uma natureza, apenas uma Vontade.

Interessante, também, notar que os cristãos de Constantinopla, ortodoxos, não gostavam, e não gostam até hoje, de serem chamados de “bizantinos”, como é comum entre evangélicos ou não-católicos em geral. Isso porque, quando Constantino mudou o nome da cidade de Bizâncio para Constantinopla, ele estaria levando o Império Romano para o Oriente, mas não a cidade de Roma. Eles eram, então, romanos, constantinopolitanos, não por serem cidadãos da cidade de roma, mas por serem cidadãos do próprio Império Romano, agora com uma nova sede. Até hoje o patriarcado de Constantinopla se chama A Segunda Roma, então, se entende segunda historicamente, mas  primeira em questão de primazia, isto é, de autoridade. O Patriarcado de Moscou é chamado de Segunda Roma, porque foi a segunda capital imperial.

Cristo é, para os ortodoxos, uma unidade hipostática, isto é, possui duas naturezas (duofisita) e duas vontades (duotelita). Isso separa as Igrejas Ortodoxas das Igrejas Ortodoxas Orientais. Inclusive, os Orientais acreditam que Maria é mãe apenas de Cristo Homem, afirmando ser possível a separação entre essas duas naturezas, e essas duas vontades.

Uma outra diferença fundamental é entre a Igreja Católica Oriental e a Igreja Ortodoxa Oriental. Existiram comunidades que eram ortodoxas, mas se uniram à Roma, não precisando renunciar aos ritos, mas apenas aceitar o Papado. Roma, então, fez com que essas comunidades fossem consideradas Igrejas com Direito Próprio, para que tivessem o direito de ter um regime mais próximo ao ortodoxo. Essas se tornaram a Igreja Católica Oriental. O Catolicismo romano permite, por exemplo que, nessas igrejas que se separaram do ortodoxismo e se re-unificaram a Roma, os rapazes ordenados não sejam celibatários, isto é, podendo-se casar, diferentemente do apostolicismo latino.  Mesmo assim, o Católico Romano é proibido de mudar de rito; isto é, um católico apostólico romano não pode se tornar um católico oriental, mesmo com a reunificação. Em resumo, a Igreja Católica Oriental, é formada apostólico-romanos de direito próprio, apenas aceitos pelo Papado.

Simplificadamente, as comunidades da  Igreja Ortodoxa Oriental ficaram com a Igreja Apostólica Romana até o quarto concílio (A Igreja Ortodoxa, até o sétimo); já a Igreja Católica Oriental, então, é originária de comunidades orientais que se re-unificaram ao papado romano, mantendo seu direito próprio. Estes últimos também são chamados de uniatas.

Passemos, agora, para algumas observações pontuais.

Acho interessante o fato de que os católicos ortodoxos não têm o costume de se ajoelhar para as rezas. O ato de se ajoelhar foi criado pelos apostólicos romanos para veneração diante de ídolos, imagens tridimensionais.

Outra coisa que a ortodoxia preserva é a arquitetura. As Igrejas Romanas acabaram se tornando, ao longo dos séculos, como templos evangélicos. E não há arte sacra no mundo evangélico. Uma Igreja evangélica pode, simplesmente, operar em um salão quadrado, um galpão, ou qualquer coisa que seja. O mundo evangélico é iconoclasta, isto é, não há devoção aos ídolos, por isso a inexistência histórica de uma arte sacra. Isto é motivo de pesar por alguns católicos romanos.

Os templos ortodoxos até hoje são obrigatoriamente definidos pela arquitetura ortodoxa milenar – mesmo que haja apenas uma abóbada, elas são necessárias, por exemplo. A disposição geográfica dos templos é, também, sempre voltada ao Oriente – o catolicismo romano também fazia assim até a construção da basílica de São Pedro, inaugurada em 1626 no Vaticano, que já não é mais orientada. Isto porque no Cântico de São João Zacarias, Pai de João Batista, diz-se que Cristo é o Sol do Oriente. Isto acabou ficando como uma diferença profunda entre católicos e ortodoxos.

Sobre o papado: a sucessão de Pedro, para os ortodoxos, é entendida como  é para os orientais ou romanos. O Papa é o legítimo sucessor de São Pedro. O problema para os ortodoxos, e ortodoxos orientais também, é o Papa ser tido como a única autoridade na Igreja. A Ortodoxia não admite a concepção de que o sucessor de São Pedro, e mesmo São Pedro, fossem o primaz, a única autoridade depois de Cristo. Um dos motivos da separação em 1054 foi a exigência do Papa de que ele fosse aceito como a única autoridade da Igreja. Até o sétimo concílio havia uma hierarquia chamada Pentarquia, dentro da Igreja, em que as cinco igrejas estavam em comunhão, sendo chefiadas pelos papa, mas cada uma das autarquias tinham seu próprio patriarca, seu próprio “chefe”. Isso só se perdeu no século XI, em 1054. Constantino já no século IV, transferiu o império de Roma para Constantinopla, que até hoje se chama Nova Roma, o que demonstra a liberdade com que as comunidades católicas se auto-regulavam. Curiosamente, embora houvesse a separação do Ocidente e Oriente, não havia dogma nem de infalibilidade papal.

É obrigatório também, para os ortodoxos, o iconostácio, que separa o Altar da Nave da Igreja. Embora alguns católicos orientais tenham se latinizado neste sentido. Ele possui três portas: a porta real (só o padre ou o bispo podem entrar e sair por ela) e as portas laterais (onde diáconos e ministros podem entrar e sair para compartilhar o evangelho ou converter o pão e o vinho em carne e sangue de Cristo).

O catolicismo romano também tinha uma divisão do ano litúrgico muito próximo do ano ortodoxo, em que os domingos eram contados em torno das festas, até o segundo Concílio do Vaticano. Hoje não mais.

A partir de Trento, o catolicismo romano obrigou que todas as missas do rito romano, das igrejas latinas, seguissem unicamente a língua latina. No mundo ortodoxo, se privilegia a língua vernácula, a língua do povo, a língua da cultura. A Igreja russa reza em russo; a igreja ucraniana reza em ucraniano; a igreja brasileira reza em português; os árabes rezam em árabe; os ingleses rezam em inglês e assim por diante. O mundo latino ainda preserva, nos rituais romanos-latinos, em língua latina, a segunda pessoa do singular. “Pai Nosso, que está no Céu (…)”; “(…) Seja santificado o Teu nome (…)”. Representa uma certa intimidade na relação, desconhecida pelos judeus. As línguas vernáculas, entretanto, converteram este elemento para a segunda pessoa do plural, frisando a unidade da trindade: “Pai nosso, que estais no Céu (…)”; “(…) Seja santificado o Vosso nome (…)”.

Recepção do Batismo: na igreja ortodoxa se dá preferencialmente por imersão. Na igreja apostólica romana se dá por infusão. A ideia é que se tenha a sensação litúrgica da imersão, da entrada e saída das águas – isto demonstra como os reformadores protestantes não inventaram a roda. O batismo para os ortodoxos, como a divina liturgia, é chamado de divinos mistérios (todos os sacramentos são chamados assim, este é seu termo original). O termo sacramento é latino, o termo original é mistério, e envolve batismo, santo crisma e comunhão (eucaristia).

Outra “roda” não inventada pelos reformadores protestantes, é a comunhão em duas espécies: a carne, e o sangue de Cristo. Como a igreja apostólica romana já fazia a comunhão em apenas uma espécie, o pão, dá-se a impressão de que os reformadores protestantes se aproximam muito dos ortodoxos, mas, na verdade, esta crença já está dada entre os ortodoxos desde o início da igreja primitiva. Foi o apostolicismo romano que, num determinado momento, habituou-se de forma diferente.

Para os ortodoxos, o divórcio é tolerado. Não é uma aceitação por princípio, mas uma aceitação por exceção. O catolicismo romano não admite, depois da Idade Média, em hipótese alguma o divórcio, a não ser por declaração de nulidade. Se a igreja católica romana decidir que desde o início o matrimônio era nulo, os ex-contraintes são declarados solteiros desde sempre, não importando que tenham filhos, inclusive. Esta é a única forma. Ou o matrimônio é válido, e é válido para sempre, ou se é declarado a nulidade.

Na igreja ortodoxa, como vimos, aceita-se o divórcio e o clero, se é celibatário (por opção pessoal) pode-se ser indicado para os mosteiros, onde será monge e terá uma vida espiritual muito profunda, e os homens casados são direcionados para as paróquias. Como a cultura é oriental, não se tem o que chamamos de namoro. O casamento é direto, devendo ser apresentado antes da ordenação para a paróquia, logo após a formatura no seminário de Teologia.

Os ortodoxos não são proselitistas. Isto significa que não fazem campanhas de evangelismo. O fiel se aproxima por livre e espontânea vontade, e é admitido pelo padre.

As imagens ortodoxas são imagens planas, com exceção do crucifixo que é em alto relevo. Os ortodoxos não adotam imagens tridimensionais porque eram o tipo de imagens usadas pelos pagãos em suas adorações, principalmente os romanos. A igreja oriental, já latinizada, possui veneração a imagens tridimensionais também.

Os ícones ortodoxos são simbólicos, esta é também uma diferença fundamental. Os latinos são mais liberalistas: os romanos fazem as imagens praticamente literais, procurando traduzir a realidade literal do fato. As imagens ortodoxas, são simbólicas: o menino Jesus tem as orelhas maior do que a boca (a simbologia vem de que, no caso, quer que nós ouçamos mais e falemos menos); os anjos possuem seis asas; Jesus aparece sempre com o dedo apontado, abençoando. O ícone possui elementos que no relato bíblico não tem, ou o ícone não tem elementos que, às vezes, o relato tem. Os ícones ortodoxos são escritos. Não se fala “pintar ícones”, mas “escrever ícones”. O iconógrafo escreve (faz uma espécie de croqui) e depois pinta, tudo isso rezando. As tintas também são preparadas com rezas e orações. Depois, ele é levado para a Igreja para ficar 40 dias debaixo do altar. Depois dos 40 dias, o ícone é benzido e ungido. O Padre só faz isso quando o ícone é escrito, desenhado e pintado com tinta preparada com oração. Esta é uma distinção profunda dos ícones. Como o Pai nunca foi visto, os ícones dEle não são admitidos na Igreja. Só se poderia fazer ícones do que já foi visto. A Igreja Ortodoxa, porém, aceita que se reproduza a Sua imagem. Elas são feitas de um modo mecânico, e não são escritas. Embora não tenha a prática de escrever os ícones simbolizando D-S pai, a Igreja atualmente permite que se reproduzam imagens que  O simbolizam para devoção. É possível se ver, então, ícones da Trindade, em que, geralmente, D-S Pai é retratado como um homem idoso. Estes ícones são aceitos, reproduzidos, tolerados e abençoados. Mas, por não serem escritos, não têm o mesmo ritual de benção.

Passemos, agora, a uma breve observação sobre as diferenças de estrutura.

A Igreja Ortodoxa entende que a Igreja Católica é uma só, em Cristo. Cristo instituiu os apóstolos, que ao sair e evangelizar, começaram a criar Igrejas. Chama-se ao bispo dessas Igrejas de Patriarca. Os ortodoxos pensam que cada Igreja tem uma autogestão, isto é, o direito de ter uma gerência própria. O que a faz católica é ter a mesma graça, os mesmos sacramentos, a mesma doutrina. Então, a Igreja Ortodoxa é una por ter uma única fundação, e, claro, tem-se a mesma hierarquia. Mas entende-se que as hierarquias são particulares. Como dito anteriormente, até o cisma, tinha-se cinco grandes patriarcados, por isso era chamada de Pentarquia. Os católicos romanos enxergam a situação como comunhão ou  cisma. A igreja ortodoxa vê a comunhão e a não comunhão, apenas. Não necessariamente uma separação. Por exemplo: hoje, Moscou (Rússia) não está mais em comunhão com Constantinopla, por causa da Ucrânia. Isso para os ortodoxos é um pesar interno. A Ucrânia, no entanto, está em comunhão com Constantinopla, e com todas as igrejas que estão em comunhão com Constantinopla. Um ortodoxo russo não irá perguntar se a missa de um padre da Ucrânia é válida ou não, porque o bispo dele institui que aquela igreja não tem mais comunhão com Constantinopla. Então, ele não participa da Missa. No catolicismo romano o papa tem direito, poder secular e religioso, sobre toda ordem católica.

Parte 02:

É importante observar que existem outras Igrejas que também se chamam de Ortodoxas, aqui no Brasil, mas que se separaram da Igreja Comum que durou até 1054, com o chamado Cisma do Oriente que a dividiu em Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Católica Ortodoxa. Algumas comunidades haviam se separado antes disto, antes mesmo do quarto ou do sétimo Concílio, os quais já comentamos aqui. Estas comunidades existem até hoje e também se autodenominam Igrejas Ortodoxas Orientais, o que causa certa confusão. Eles utilizam essa nomenclatura porque o termo ortodoxo significa “reta-doutrina”. Nos países orientais é mais clara a distinção, pois que não utilizam esta terminologia portuguesa.

Agora, passemos a alguns pontos profundos de distinção entre a mentalidade Ortodoxa e a mentalidade Apostólica romana.

Existe uma distinção profunda no compreendimento da simplicidade divina: negação da distinção entre D-S e Suas Energias. Este conceito é comum: D-S por sua natureza divina é simples, isto é, não tem qualquer composição. Esta mesma simplicidade é comum nas Três Pessoas da Trindade. Para os ortodoxos, a igreja romana acabou firmando sua doutrina por cima da simplicidade divina. Já a Igreja Ortodoxa, crê na necessidade de afirmar que D-S, para além da sua natureza interna, simples, ele tem também a manifestação da sua natureza, o que a igreja ortodoxa chama de energias. Energia, aqui, vem de um termo grego comum que também se refere ao ato, isto é, é um outro aspecto do ato.  Para a Igreja Ortodoxa, D-S não se revela na sua simplicidade, porque a simplicidade divina é sempre incognoscível. Para a filosofia ortodoxa, conhecemos inteligivelmente mas não compreensivelmente. Isto será sempre, para os ortodoxos, um mistério. Conhecemos de D-S aquilo que Ele revela. Nenhum ser O vê: D-S manifestou, mesmo para Moisés, as suas Energias, que é distinta da sua essência. O catolicismo romano não faz essa distinção. São Tomás, por exemplo, pensa que tudo o que é de D-S pertence à simplicidade de D-S.

Entramos no próximo tema, conexo a este, do que é a Graça. Apostólico romanos acreditam que D-S está em nós por meio de sua Graça Criada. A Graça seria um elemento divino, mas que não faz parte da essência divina, e D-S a infunde em nós por meio de seu batismo. Para os ortodoxos, a graça faz parte da essência divina, sendo uma das suas manifestações, isto é, das suas energias.

Não há, neste sentido, uma graça criada, uma coisa externa a D-S, para os ortodoxos. Vias de regra, os apostólicos romanos acham que os ortodoxos são católicos sem papa. Veja que as diferenças entre estes conceitos criam formas de pensar muito diferentes. O Ortodoxismo acredita que D-S habita o ser humano pelas suas energias, se manifestando como Energia, ou como Pessoa. A teologia ortodoxa não está fundada na filosofia, mas exclusivamente na teologia, ou seja, na manifestação divina. D-S se manifestou como hipófise, e não como essência.

No catolicismo ortodoxo, os seres humanos são deificados. Quando a pessoa é batizada e crismada, quando se recebe os santos dons, a eucaristia, ela recebe o primeiro momento da sua deificação (theosis). Quando a serpente diz que os seres humanos seriam como deuses, ele não mentiu na possibilidade, mas nos meios e no fim. Os católicos apostólicos romanos acreditam na deificação pela graça, e pela graça se pode ver a D-S.

Sobre o pecado original: este termo, de origem Agostiniana, não é utilizado pela Igreja Ortodoxa. Os Ortodoxos chamam de Pecado Ancestral. A diferença está na interpretação do texto grego da Bíblia. São Paulo diz que “o pecado veio por um homem, e por causa deste pecado veio a morte”. Nas traduções latinas, diz-se que entrou a morte na natureza humana porque todos pecaram. A tradução ortodoxa, utilizada na bíblia de Jerusalém, diz “do mesmo modo que por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, e por causa da morte todos pecaram”. Os apostólicos romanos pensam que todos pecamos em Adão; a igreja ortodoxa não. Para os ortodoxos, quem pecou foram as Pessoas de Adão e Eva, e sofreram seus castigos. Nós não poderíamos sofrer, nós mesmos, os castigos deles. Todavia, o pecado maculou a natureza humana, que passa a ter o problema da morte, da privação da presença de D-S. A morte é consequência do pecado de Adão e, em nós, a morte causa o pecado. A obediência de Adão causou um problema em Adão e na natureza de Adão, não em D-S. O pecado não poderia, neste sentido, “ofender a D-S”. Se fosse assim, o homem precisaria de uma reparação. Por isso Cristo seria aquele que viria para reparação. O ato de Adão teve uma consequência: tirou a natureza do homem desta condição da Theosis, de poder ter a presença de D-S. A busca do ortodoxo, então, é para voltar à presença de D-S, já que D-S não se ausenta da presença do homem e, sim, o contrário. O meio é os santos sacramentos e a oração, em que se privilegia a oração de Jesus. Por esta distinção é que os apostólicos acreditam na necessidade de que Maria, mãe de Jesus, tivesse sido já concebida imaculada, no seio de Santana, para que D-S já a habitasse pura, isenta de pecado. A igreja ortodoxa acredita que ela foi concebida com a mesma natureza que nós, e ela, por sua própria vontade, optou por seguir a vontade de D-S, sendo tornada santa. E, nisso, Maria foi imaculada, no momento em que o anjo Gabriel a visita, que o encontra santa, porque Cristo, sim, deveria habitar um ventre imaculado. Isto é, esta condição, de imaculada, é a posteriori. A doutrina protestante, apenas para dar exemplo, não admite que ela foi imaculada. Para eles, Maria, mãe de Jesus, foi uma pecadora como qualquer um de nós.

Todos nós pecamos em Adão, e ofendemos a D-S. Essa ofensa exige uma satisfação. Veio Cristo, fez esta satisfação pela natureza, não pelas pessoas. Cada um de nós precisa fazer atos para que alcance a justiça divina. Todas as orações, desde a santa missa, os sacramentos, os atos, são meritórios e têm que satisfazer a justiça divina. Mesmo os pecados confessados, devem ainda satisfazer por este pegado. Se não, terá de ser pago em outra vida, o purgatório. Nesta doutrina de que há uma dívida com D-S, e que tem que ser paga pessoalmente por cada um, nesta vida ou na outra. Na outra, resta a necessidade de purgatório. Nem todo mundo está habilitado a entrar no Céu, e nem todo mundo é tão mal para ir para o inferno. Esta mentalidade, para os ortodoxos, é legalista. Para os ortodoxos, quando Cristo sofreu na cruz, e não era necessário que ele sofresse (isto é comum para ambas as igrejas católicas), ele satisfez plenamente toda e qualquer dívida nossa em relação ao Pai. Não há mais dívidas a pagar. Depois, os protestantes pegaram esta doutrina, mas não é originariamente deles. “Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos os nossos devedores”. Quando se perdoa um devedor, você não exige a dívida de volta. Por isso, para a igreja Ortodoxa, não há purgatório, nem indulgências. A penitência, determinada pelo padre, tem um caráter pedagógico apenas, pois que em Cristo os pecados são apagados. Inclusive a igreja ortodoxa não pratica a auto-flagelação, como havia até há algum tempo na igreja apostólica romana (hoje é menos comum, mas não inexistente).

Pecado Ancestral vs Pecado Original: O catolicismo romano, bem como os protestantes anglicanos e luteranos, entendem que todas as pessoas nascem com o pecado de Adão, o chamado Pecado Original e, por isso, precisam da redenção (inclusive, é por isso que os apostólicos romanos batizam já as crianças, enquanto a maior parte dos protestantes esperam que a pessoa tenha a “consciência” da necessidade de redenção, escolhendo por livre arbítrio). Ortodoxos, entretanto, acreditam no Pecado Ancestral: as pessoas não nascem com o pecado de Adão. O pecado de Adão é dele, somente. No entanto, as pessoas nascem com a “doença” da ausência de D-S. Elas não precisam de redenção, mas de uma reaproximação de D-S. É o inverso dos apostólico romanos.

Como não há purgatório, o que acontece com as pessoas que morrem, para os católicos ortodoxos? Na cosmovisão ortodoxa, há o Hades. O descanso ou tormento das pessoas que ainda não foram para o céu, e não foram ainda para o inferno.  Nele, embora não haja cumprimento de pena, há sofrimento. No purgatório, você sofre para se redimir da pena. Este sofrimento, no Hades, não é um sofrimento purgativo, é uma ausência da felicidade de estar com D-S, como estaríamos se fôssemos santos.  Por isso é que diz-se que, no Hades, as almas descansam. Céu e inferno só virão depois do Juízo final.

Outra diferença profunda é o Filioque. Este termo começou a ser usado em 534 no Concílio de Toledo, na Espanha. Se refere ao fato de o Espírito Santo proceder do filho e do pai, com obrigatoriedade de credo a partir deste Concílio. A Igreja Ortodoxa acredita que o Espírito Santo procede do Pai, retomando o original grego. No máximo, o Espírito Santo procede do Pai pelo filho, ou ainda, provém do Filho, mas não procede dEle, mas única e exclusivamente do Pai. Até o século XI, em 1013, a Igreja não tinha colocado esta doutrina como Credo Universal. Neste ano, o Imperador Henrique II instou ao papa Bento VIII para inserir o Filioque ao credo romano, ficando os latinos unânimes na profissão de tal Credo. Isto é, até os católicos romanos percebem que o Filioque não vem dos Concílios. As falas dos Santos, para ortodoxos, não devem ser levadas em conta se elas já tiverem sido condenadas pelos Concílios. Então, deve-se seguir os Concílios. Este foi um dos motivos fundamentais da separação entre a Igreja Apostólica Romana e a Igreja Ortodoxa.

Percebe-se que, no mundo católico, tudo é resolvido em Concílio.  A Igreja Ortodoxa, neste sentido, sempre acreditou na primazia do papado romano. Mas esta primazia, ou primado, não significa um poder sobre os demais. O problema é que o catolicismo romano desenvolveu a supremacia papal, que acabou resultando na infalibilidade papal, que é mais recente. A primeira Igreja, foi a Igreja de Jerusalém, não a romana. E o primeiro Bispo foi São Tiago. E a própria Igreja Ortodoxa de Antioquia, foi fundada por São Pedro e São Paulo, sendo a segunda Igreja. Se o Papa é sucessor de Pedro, então o bispo de Antioquia também o é.  No entanto, a Igreja Ortodoxa de Antioquia nunca rogou esta primazia. Os sete primeiros concílios são chamados de concílios ecumênicos, porque são universais, isto é, de toda a Igreja. Outra diferença de consciência histórica é que, para o mundo ortodoxo, quando o papa outorgava o concílio, ele outorgava para a igreja de roma, não para a igreja universal; mas os papas desenvolveram a consciência que eles outorgam para toda a igreja, universalmente. Na Igreja Ortodoxa, não existe homologação universal, mas apenas dentro de sua própria jurisdição. Para os ortodoxos, com a transferência da capital do império romano para Bizâncio, sendo fundada a cidade de Constantinopla, transfere-se também a primazia da Igreja para o Oriente. Constantinopla, por ser a nova Roma, goza da mesma prerrogativa, para os ortodoxos.

É com o papa Dâmaso I (366-384) que se aplica pela primeira vez a Roma a expressão de Apostolica Sedes. O título excluía, naturalmente, as outras igrejas apostólicas, já que Roma reivindica a suprema autoridade sobre as demais. Tal afirmação era a resposta de Dâmaso às pretensões da Igreja oriental expressas no cânon 3 do Concílio de Constantinopla de 381, que conferia ao bispo desta cidade lugar imediato ao bispo d Roma, por que Constantinopla era a “nova Roma”. A supremacia papal, não foi consenso nem mesmo na Igreja de Roma.

Foi o Papa Inocêncio I (402-417) que instituiu, a partir de decreto, que todas as causas maiores devem ser submetidas à Sé Apostólica, isto é, à jurisdição apostólica romana. Este dogma da infalibilidade papal é inaceitável para a ortodoxia, que entende que nenhum bispo é infalível, pois possui uma natureza humana.

O Papa Leão Magno (440-461) dizia que a Igreja Apostólica Romana tinha plenitude do poder das coisas espirituais, a partir do papa, funcionando como extensão para toda a Igreja Universal. Este foi um problema grave, pois não foi aceito pelos católicos orientais, que viriam a ser os católicos ortodoxos.

Uma diferença de ambas as Igrejas Católicas para com as igrejas reformadas protestantes, é a questão do sacerdócio. Para Lutero e Calvino, todo fiel pode ser sacerdote. Assim, eles tiram o poder do Padre, subvertendo a hierarquia da Igreja. Ele muda a concepção de ordem. E o Ministro ordenado é aquele que dá o sacramento, a Graça de D-S: é ele que batiza, que consagra o pão e o vinho, ele abençoa os enfermos, dentre outras coisas. Acho interessante a afirmação de São Gregório Magno (Papa de 590 a 604): “Qualquer um que se chame de Bispo Universal, ou deseja este título é, pelo seu orgulho, precursor do Anticristo”.

Pergunta para reflexão: Ao longo dos estudos, nota-se que, enquanto inserido dentro da cosmovisão ortodoxa,  percebemos uma certa “degradação”, ou mesmo uma “corrupção” – pode ser uma impressão –, da Igreja Apostólica Romana, quando se fala de alguns valores fundamentais que, ao longo do tempo, foram se transformando (como a arquitetura, por exemplo, que perde a perspectiva da arte sacra e se aproxima da mentalidade protestante da construção de templos; falo este exemplo porque é o primeiro que me vem à mente). Do ponto de vista do atual conflito entre Rússia e Ucrânia, algumas mídias ocidentais apontam para uma certa participação da Igreja Ortodoxa em apoio a Putin (acrescenta-se o exemplo que o professor deu da separação entre as Igrejas de Moscou, na Rússia, e da Ucrânia, que comunga com Constantinopla). Esta deterioração, pode ser vista como uma espécie de “contaminação” da igreja católica apostólica romana pelo mundo Ocidental, em que a Igreja Ortodoxa se considera mais “pura” e “verdadeira”? A Igreja Ortodoxa, mesmo não sendo proselitista, se vê, ou se auto-determina, como o, ou um, pilar para a re-purificação da sociedade, ou dos valores, se fundindo com o discurso de Putin (inclusive, em um evento em que discursou, enquanto acontece a guerra, em um estádio, para milhares de pessoas, o termo usado pelo presidente Putin foi mesmo o de “purificação”)?

 

Esta pergunta ainda está a ser respondida. Cabe, entretanto, alguns apontamentos.

O Ocidente nunca aceitou que Constantinopla fosse a Nova Roma. O Papa nunca reconheceu este título. Os ortodoxos não aceitaram, em contrapartida, a infalibilidade papal, o fato de ele se declarar o Vigário de Cristo, ou o Bispo de Roma. O papa desenvolveu a ideia de que ele tem um poder político, vindo de São Pedro. Isso para a Igreja Ortodoxa é uma degradação.

A Igreja Católica Romana aceitou a ideia de progresso, nunca aceita pelos ortodoxos. Para os ortodoxos, progride-se o entendimento do Dogma, mas não o Dogma em si. Para a visão ortodoxa houve, então, um afastamento, por parte da igreja católica romana, dos primeiros sete concílios.

A Igreja Ortodoxa ainda entende a  Igreja Católica Comum como dividida em patriarcados, como na Pentarquia, pois não acredita na infalibilidade papal.  Então, ela não comenta sobre outros patriarcados. É por isso que não se pronunciou sobre o Patriarcado de Moscou.

Para o mundo ortodoxo, o alinhamento dos valores católicos romanos aos valores do liberalismo americano, os tornam hereges. O americanismo, ou o liberalismo americano, de achar que toda religião é igual, que o importante é ser uma boa pessoa, é considerado, pelos ortodoxos, como heresia. É por isso que o catolicismo romano tem práticas ecumênicas consideradas heréticas pelos ortodoxos.

Para os ortodoxos o ecumenismo significa a pessoa poder ter sua religião, ser respeitada em sua religião. Boas ações podem ser feitas em conjunto, como um atos ecumênicos, por exemplo, com outras igrejas, ou até mesmo com outras religiões, mas não fazer cultos juntos como se tudo fosse a mesma coisa, assim como a Igreja Católica Apostólica Romana faz.

Para a Igreja Ortodoxa, há o entendimento de que Putin  não é ortodoxo. Ele se alinhou (não se aliou), se fez de pró-religião, pró-ortodoxo, defendendo que a Igreja Ortodoxa guarda ainda os verdadeiros valores da civilização, para angariar a simpatia dos ortodoxos. Mas há um movimento contra-americano, contra-ucraniano, e isso é inegável.

O porquê de os padres ortodoxos favorecerem Putin, pelo menos discursivamente, ainda é uma questão aberta.

Imagem da Capa:

The Council of Chalcedon- AD 451

Sobre o(a) Autor(a)

Cristian de Paula Sales Moreira Júnior

Mineiro metido a engraçadão, corinthiano e professor. Mestre em História pelo Programa de Pós Graduação em História da UFG. Tem experiência na área de História Política, com ênfases em História do Brasil Recente, Neoliberalismo no Brasil, Governo Collor (1990-1992), História da Imprensa e Charges e História. Como membro de grupos de pesquisa, atua nas áreas de Capitalismo e História e Filosofia Contemporânea.
Publicado no Liceu Online por:

guimaraes2001

Piracanjubense, graduando em História (UFG), pesquisador iniciante e professor em formação. Apaixonado por literatura e cinema, atualmente pesquisando sobre teoria e filosofia no movimento operário durante a ditadura militar (1964-1985).

Comentários...

This Post Has 17 Comments

  1. Muito bom!!
    Podemos ver através desse texto, que há muita diferenças e semelhanças entre as Igrejas Ortodoxas e as Ortodoxas Orientais e que ambas são muito complexas em relação à suas doutrinas e dogmas.

      1. Não se precipite. Embora existam diferenças estruturais fundamentais, alguma ou outra semelhança são, claro, possíveis. Veja, pelo menos até o quarto Concílio, todas as comunidades católicas eram integradas, não havendo separação. Acredito que as diferenças se acirrem a partir da ruptura em 1054. Leia o texto novamente.

      2. Acredito que você irá entender mais sobre o assunto quando ler o texto novamente com mais calmaria e nitidez, no texto você verá as diferenças e possíveis semelhanças.

    1. Realmente, Bruna! As semelhanças entre as Igrejas Ortodoxas e as Igrejas Orientais são mais claras do que entre estas e a Igreja Apostólica Romana. E, sim, cada uma com sua complexidade própria. Somos leitores inteligentes, então procuramos entender essa complexidade, ao invés de praticar reducionismos. Parabéns.

  2. Achei muito bacana esse texto, podemos vê através desse texto as diferenças e semelhanças da igreja católica aposta românica. Há diversas diferenças, e notório isso, não é?

    1. Oi, José Elton. Sim, existem diversas diferenças e isso é notório. Mas o senso comum não consegue estabelecer essas diferenças muito bem, e acaba colocando todos os católicos como sendo a mesma coisa. Isso é comum. Assim se faz, também, com os evangélicos, ou com qualquer movimento religioso, intelectual ou político.

  3. Olá professor! O conteúdo do seu texto me ajudou a entender melhor as diferenças entre a mentalidade apostólica e ortodoxa em suas crenças, costumes e etc. e a refletir sobre a possível “corrupção” no ponto de vista ortodoxo da igreja Apostólica Romana ao apoiar Putin.

    1. Oi, Emilly. Obrigado pela leitura. No caso, é a Igreja Ortodoxa a acusada de apoiar Putin na guerra contra a Ucrânia. Pelo menos teoricamente, a Igreja Apostólica Romana se caracteriza por ser ocidental, estando no outro espectro no problema. Abraços.

  4. Achei muito interessante e curioso a parte em que fala que os cristãos ortodoxos de Constantinopla não gostam de ser chamados de bizantinos. Achei essa palavra familiar e depois lembrei que vamos estudar sobre os bizantinos em História.

      1. Olá professor,boa noite!Achei interessante sobre o fato de os católicos ortodoxos não ter costume de se ajoelhar para rezar,antes de ler o seu texto eu acreditava que,todos que são católicos se ajoelhavam para as suas rezas,eu não imaginava que os ortodoxos só rezam em pé.

  5. Outro fato que achei interessante, é sobre a forma que os apóstolos romanos e os católicos ortodoxos, distinguem a morte e a ressurreição de Jesus Cristo,de forma diferente.Para os apóstolos romanos, Jesus salvou o homem e permitiu que ele alcançasse o céu pagando pelos seus pecados da humanidade a ser crucificado, já para os ortodoxos,a salvação é alcançada pela vitória de Cristo sobre a morte – já que ressuscitou,os ortodoxos não fixa no aspecto de Cristo ser crucificado já os apóstolos romanos sim.

  6. Professor quero parabenizar-lo pelo seu texto!Ficou compreensível o texto sobre a diferença da mentalidade apostólica e a mentalidade ortodoxa.Com certeza não só para mim,como para todos que leram seu texto ajudou a entender mais sobre as diferenças entre eles.

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