INTRODUÇÃO
O presente ensaio terá como foco a religiosidade no período colonial brasileiro, dando ênfase ao catolicismo. Evidenciando a sua diversidade e o sincretismo nela presente, o qual foi resultante da confluência de várias atuações culturais dos povos que aqui residiam, como os portugueses, africanos, indígenas e dentre outros.
A princípio será feito uma breve análise da chegada da Igreja Católica nas terras brasileiras e sua influência sobre a população já residente nesses territórios. Logo após, será deslindado como se procedeu a religiosidade popular colonial, trazendo do mesmo modo, aspectos que diferenciam a religiosidade pública e privada.
Este trabalho desenrolar-se-á a partir de uma análise bibliográfica dos seguintes autores e suas respectivas obras, como: Laura de Mello Sousa com o seu texto “O Diabo de a Terra de Santa Cruz” (1995); Luiz Mott com “Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e candulu” (1997); Maria Del Priore com sua obra ” Religião e Religiosidade no Brasil Colonial” (2004); e por último Gilberto Freyre com “Casa Grande & Senzala (2004).
1 O PRINCÍPIO DO CATOLICISMO NO BRASIL
Previamente, é importante evidenciar que os primeiros organizadores do catolicismo do Brasil colônia foram os jesuítas. Mas para isso houve todo o processo desencadeado com a chegada da Igreja Católica em 1500, como instituição e religião oficial do estado português. Objetivando expandir e disseminar suas concepções religiosas. Essa aparição foi possibilitada com a vinda de Pedro Álvares Cabral ao território que mais tarde se chamaria Brasil.
Desde o início do “descobrimento” das novas terras, já se demonstrava a forte tradição católica dos descobridores. Primeiramente, destaca-se a escolha do nome para as intitular, e assim tornarem-se donos. Para essa nomeação foi posto em vista a fé e a devoção ao catolicismo, a nomeando dessa forma, como Terra de Santa Cruz. Outra atitude que evidencia a presença dos preceitos religiosos, foi a realização de uma missa, logo após a chegada das caravelas em Porto Seguro, tendo como objetivo batizar e celebrar o achamento das novas terras (Del Priore, 2004).
A partir disso, segundo Mary Del Priore, os portugueses instalaram no Brasil uma sociedade cristã, visto que consideraram os nativos homens de boa feição e assim, adequados a receber a fé católica. Além disso, se identificavam como cristãos por direito e por nascimento, e os indígenas como pagãos e infiéis. Desse modo, começa um esquema de colonização e catequização. A salvação das almas se daria pelas operações promovidas pelos padres da Companhia de Jesus, os jesuítas, por meio do catecismo. Era responsabilidade desses representantes da Igreja Católica catequizar os povos originários.
Dessa forma, essa religião passou a demarcar o território conquistado. As igrejas recém fundadas, as ermidas, os oratórios levantados e as cruzes cravadas evidenciavam essa demarcação pelos portugueses, garantindo a supremacia sobre as almas que tinham que ser “resgatadas”, ainda que por meio da força, para Deus (Del Priore, 2004). No entanto, esse catolicismo que se implantou no Brasil colonial se defrontava com o paganismo indígena e com as crenças dos africanos. Por conseguinte, a religiosidade na colônia englobava inumeráveis rudimentos que constituíam vários sistemas religiosos.
Assim, o hibridismo, em que havia a presença de traços do paganismo e práticas ortodoxas, muitas vezes adaptadas e/ou abrandadas, proporcionando novas realidades religiosas, deram espaço para o sincretismo. Visto que a religiosidade não se conservou como nos locais de origem, mas ganhou novas particularidades ao se encontrar umas com as outras. Assim, “traços católicos, negros e indígenas misturavam-se na colônia, formando uma religião sincretica e especificamente colonial” (Souza, 1986, p. 97). Dessa maneira, a multiplicidade de crenças contribuiu para uma religiosidade popular deveras miscigenada e de particularidades únicas.
2.1 A RELIGIOSIDADE POPULAR NA COLÔNIA
Na colônia brasileira havia uma diversidade populacional, a maioria formada por portugueses, indígenas e negros africanos. Assim, consequentemente, existia uma multiplicidade de religiões e crenças. Diante disso, mesmo com a influência e dedicação, por parte dos representantes da igreja, em catequizar e expandir o catolicismo, não foi possível conter o surgimento de uma religiosidade popular miscigenada e de características peculiares. Uma vez que essas ações catequizadoras dos jesuítas foram falhas e ineficientes, tanto pela extensão territorial da colônia, quanto pela resistência à fé cristã.
Dessa forma, isso possibilitou que outras crenças se misturassem à religião católica, fazendo assim, surgir um catolicismo distorcido do seu contexto, distante das concepções básicas da doutrina católica e/ou até mesmo fingido. Desse modo, o escritor Luiz Mott (1997) reflete sobre isso no seu texto “Cotidiano e Vivência Religiosa: entre a capela e o calundu”, quando escreve que na colônia havia várias versões de católicos, dos mais autênticos aos pseudocatólicos. Em suas palavras ele menciona:
[…] podemos agrupar os colonos do Brasil num gradiente que vai do mais autêntico e fervorosos aos indiferentes, hostis à religião oficial, saber: católicos praticantes autênticos, que aceitavam convictamente os dogmas e ensinamentos impostos pela hierarquia eclesiástica, […]; Católicos praticantes superficiais, compriam apenas os ritos e deveres religiosos obrigatórios, mais como encenação do que como convicção interior; católicos displicentes, que evitavam os sacramentos e demais cerimônias sacras, não por convicção ideológica, mas por indiferença e descaso espiritual, muitas vezes incluindo em seu cotidiano “sincretismo” heterodoxos; pseudocatólicos: boa parte dos cristãos-novos, animistas, libertinos e ateus, que apenas por conveniência e camuflagem, para evitar a repressão inquisitorial, frequentam os rituais impostos e controlados pela hierarquia eclesiástica mas que mantinham secretamente crenças heterodoxas e sincréticas. (Mott, 1997, p. 175).
Diante disso, percebe-se que poucos são os católicos devotos e praticantes autênticos. Dessa maneira, há variadas formas de sincretismo praticadas na colônia, dentre elas pode se citar as praticadas pelos afro-catolicos, ou seja, negros africanos que adaptaram seus ritos e crenças ao catolicismo.
Nesse sentido, Laura Mello de Souza evidencia que os escravos negros costumavam utilizar, do mesmo modo que os indígenas, imagens e crucifixos em suas cerimônias sintéticas. Além disso, por conta da sobrevivência na colônia ser dificultosa, permeada de aflições e descrédito, muitos moradores tornaram-se descrentes, sem Deus, ou acreditavam que só o Deus dos cristãos não era suficiente, possuindo assim, vários deuses. Nesse sentido, Lázaro Aranha, por oportunidade da Primeira Visitação à Bahia, afirma que “havia o Deus dos cristãos e outro dos gentios” (Souza, 1986, p. 107-108).
Luiz Mott também expôs algumas práticas sincréticas no Nordeste, nas Minas e em quase toda a colônia, em que eram costumeiras as denúncias entre homens e mulheres que recorriam à feitiçaria. Essa busca de ajuda a curandeiros e calunduziros ocorria geralmente pela insuficiência da igreja, pela falta de assistência médica e também quando os remédios da botica não produziam efeitos. Desse modo, isso pode ser observado quando o autor descreve que:
João, preto, escravo, benzia panos para estancar sangue das feridas; os pardos Faustina e João Dias faziam quimbundos, enquanto Joana, também parda mas forra, benzia quebranto, olhado, carne-quebrada, ventre caído e bicheira, e Maria da Cruz, de igual condição, benzia olhado e carnes-quebradas (Mott, 1997, p. 194).
Outro aspecto que se fez presente na religiosidade popular da colônia, foi o forte apego aos santos. Havia dessa forma, uma certa afetividade e intimidade dos religiosos a determinados santos, cultivando assim, relações íntimas e até muitas vezes carnais com alguns deles. O escritor Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala (1992) evidencia esse fato de forma patente, quando descreve que na colônia mulheres inférteis passavam em seus corpos as imagens de São Gonçalo, ou seja, o proclamavam pedindo suas bênçãos por meio de atos íntimos.
De forma análoga, Luiz Mott descreve a relação afetiva que os colonos estabeleceram com Maria Santíssima, na qual tinham uma devoção preferencial. Segundo o autor a íntima aproximação com a santa na sociedade cristã, se dava no momento do nascimento de uma criança, em que muitas mulheres a tinham como comadre, ou seja, davam seus filhos para a Santa Maria ser madrinha. Desse modo, vários brasileiros nesse período colonial obtiveram como madrinha a própria Mãe de Deus (2004, p. 185). Desse modo, percebe-se que a afetividade religiosa realizada pelos devotos na colônia era uma forma de familiarizar-se, torná-la próxima e inseri-la no seu cotidiano.
2.2 RELIGIOSIDADE NO ESPAÇO PÚBLICO E NO PRIVADO
A colônia brasileira, diferentemente da metrópole, possuía poucos párocos e templos, e os que tinham ficavam dispersos, por conta da extensão territorial. Dessa forma, consequentemente, a maior parte da população encontrava-se sem a assistência de um eclesiástico, chegando a ficar anos sem vê-lo, sem participar da liturgia oficial e dos demais ritos religiosos. Desse modo, muitos moradores optaram por uma religiosidade privada, erguendo seus próprios locais de cultos, seja dentro de casa ou em igrejas e capelas construídas nas suas propriedades.
Assim sendo, na privacidade do lar era o espaço principal onde ocorria as práticas religiosas, não só as venerações pessoais dos católicos mais autênticos, mas também aquelas devoções que por serem heterodoxas convinha processar-se distante do público. Em visto disso, muitos residentes da colônia obrigados a conversão ao cristianismo, e assim forçados no espaço público a cultuar o catolicismo, única religião permitida na época, buscavam, no recesso do lar, vingar-se dos símbolos cristãos, os quais publicamente eram coagidos a adorar-los. Diante disso, a exemplo dessas represálias Luiz Mott descreve que:
Quanto a mulata Ana Jorge, moradora na Paragem dos Monsus, em Mariana, sobre ela passava a fama que judiava dos Santos, metendo-os debaixo do colchão antes de fornificar com seus amantes, e depois de açoitá-los, jogavam-os na parede dizendo: já que não lhe fizeram o que pedira, que levasse socos e açoites ( Mott, 1997, p. 190).
Quanto aos praticantes autênticos do catolicismo, tanto ricos como os mais humildes, reservavam no seu lar espaços considerados indispensáveis, onde praticavam as suas principais devoções, por exemplo as orações da Ave-Maria e do Padre-Nosso. Nesse sentido, Gilberto Freyre (1992) mostra a relevância do “quarto dos Santos”, lugar exclusivo onde os fiéis praticavam suas devoções e adoração às imagens sagradas. Desse modo, percebe-se que as imagens dos Santos eram o referencial da religiosidade familiar. Assim, em muitos lares coloniais era comum a presença dos símbolos cristãos na parede da sala, do quarto e em lugares de destaque, prontas para serem veneradas e ovacionadas. A casa era o local preferencial para a execução da religiosidade privada dos católicos.
A religião pública era diferente da praticada no espaço privado, visto que muitos, publicamente, por exemplo os cristão-novos, eram obrigados a expressar uma religiosidade parcialmente falsa, certo que no recesso do lar praticavam o sincretismo. Misturavam sua cultura, seus costumes com o catolicismo de forma depreciativa, em que no privado usavam as imagens sagradas para satisfazer suas necessidades, as agrediram e dentre outras condutas. Ações essas reprovadas pela a Igreja. Além disso, nas solenidades religiosas realizadas no âmbito público, era comum a ausência de reverência dos integrantes e o mau exemplo vindo dos curas e dos que celebravam. Esse mau comportamento poderia ser observado tanto nas suas vestimentas como nas risadas e olhares maliciosos direcionados às donzelas durantes as cerimônias. Ademais, os mais atrevidos chegavam a tocá-las de forma desrespeitosa (Mott, 1997). Essas práticas contribuíram para a preferência de alguns colonos à religiosidade privada.
CONSIDERAÇÕES PARCIAIS
O Brasil colonial pode ser caracterizado por uma diversidade de caráter religioso, por efeito da multiplicidade da população que aqui residia. Dessa forma, isso possibilitou a permanência de um catolicismo débil, propenso ao sincretismo, assim como também o surgimento de novas e criativas interpretações da religião católica.
Desse modo, tem-se na colônia brasileira uma catolicismo popular, permeado de particularidades interculturais e com condutas diferenciadas das realizadas na metrópole, que vai da adoração e relações íntimas do fiéis com as imagens sagradas, a blasfêmia e ódio dos não adeptos a fé católica, mas obrigados a aceitá-la. Além da instigante diferença da religiosidade praticada no âmbito público e privado, em que havia um jogo de cuidados e de liberdades de práticas.
REFERÊNCIAS
Cotidiano e Vivência Religiosa: entre a capela e o calundu In: MOTT, Luiz. História da Vida Privada no Brasil: cotidiano e a vida privada na América portuguesa. A. orgs. São Paulo: Companhia das letras, 1997
DEL PRIORE, Mary. Religião e religiosidade no Brasil Colonial. São Paulo. Ática, 2004.
FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. Rio de Janeiro: Record, 1992. ______. Nordeste. São Paulo: Global, 2004.
SOUZA, Laura de Mello. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.









