skip to Main Content

por Gabriela Fernandes., especial para o LiceuOnline.

Pensar na educação em tempos de pandemia nos permite perceber os desafios do
trabalho docente e o contexto de desigualdade e vulnerabilidade social. As atividades
escolares retornaram a partir no novo modelo de ensino emergencial e a busca por
novas metodologias e tecnologias eficientes para essa modalidade remota,
proporcionou um recente cenário em que escola, família e professor tiveram que
encarar um novo processo formativo. Nesse sentido, problematizar a educação em
tempo de pandemia é fundamental para a reflexão do trabalho docente, o currículo não
atende mais as reais necessidades da escola e contexto de vulnerabilidade dos alunos.
A pandemia alterou as formas de interações social e pode colocar em xeque os
paradigmas da educação. É fundamental que nos adaptemos as possibilidades de
transmissão do conhecimento oferecidas pelas tecnologias e que revisemos os
conteúdos que serão passados adiante do novo contexto que se coloca, visto que, a
educação está em constante movimento, pois ela acontece em todos lugares: formal e
não formal, em todas as redes e canais. Nessa perspectiva devemos questionar se a práxis docente em interlocução com o papel que a escola exerce atualmente na
implantação de práticas, combatem a desigualdade social e desempenham um papel
central na superação de dificuldades? Posto isso, é essencial destacar que nem todos os
alunos possuemos meios tecnológicos disponíveis, não são todas as famílias que podem
estabelecer várias conexões simultâneas, sustentando prejuízos educacionais. Esse
novo modelo de ensino remoto traz novos desafios para a escola e para os professores,
ao passo que, o exercício da docência se torna frágil mediante as dificuldades que
precisam ser enfrentadas, pois em vários casos não existiu uma rede de aperfeiçoamento
do professor, as atividades práticas no mundo digital sobrecarregam o docente na busca
de metodologias para manter a família ativa e participativa no processo educacional,
especialmente na educação básica.

A crise provocada pela pandemia da COVID-19, levou as escolas a adotarem o
ensino remoto emergencial para oferecer o ensino formativo escolar aos seus
estudantes, provocando diversos desafios ao trabalho docente. Nesse momento é pedido
aos professores uma readequação didática metodológica de ensino, sendo então
fundamental a existência de um trabalho produtivo, dinâmico e criativo, elaborando
novas formas de ação para suprir o modelo emergencial e garantir um ensino remoto
de qualidade. Pensando nisso, o trabalho docente que, embora muitas vezes não seja
fácil no cotidiano de aulas simultâneas, deve ser feita com “amorosidade aos educandos
com quem me comprometo e ao próprio processo formador de que sou parte, não posso
desgostar de que faço sob pena de não o fazer bem” (Freire, 1921 p.66). Sendo assim,
o trabalho pedagógico cria e concretiza novos fundamentos para o conhecimento
humano que deve ser feita com responsabilidade e ética.

Sendo assim, os meios tecnológicos que nesse contexto estão sendo ferramentas
essenciais para suprir as necessidades de distanciamento e prevenção sanitária
vivenciadas pelo momento atual, elevou visivelmente o aumento da organização de
rotinas, conteúdos e aulas que estão sendo estendidas para dentro de casa -home officeatingindo principalmenteo público licenciado feminino que também exerce muitas
vezes trabalho doméstico e materno. Pensar as novas tecnologias apenas como fonte de
inovação e maior acessibilidade, impõe uma ideia que desconsidera o problema da “exclusão digital” que atinge milhares de estudantes em situação de vulnerabilidade.
Em certa medida, essa ideia modernizadora simplista carrega consigo uma forma
neoliberal de se pensar os processos educativos.

É importante também dizer que as tecnologias não conseguem compor todas as
formas de ensino, distanciando a relação entre professor e aluno e reprimindo diversas
vezes a subjetividade do educando frente ao processo emancipador. Dessa forma, as
aulas se reduzem a apresentação e exposição de conteúdo.

A demanda do trabalho docente, consiste na reorganização do calendário
escolar principalmente nas escolhas de conteúdos “essenciais” sistematizados, até a
pratica simultânea pluralizada de ensino para alunos presencialmente e virtualmente.
Logo, podemos refletir que o trabalho docente é uma ação histórica através dos meios
de produção em uma sociedade

Tais implicações determinam o rumo da nossa educação. De acordo com Paro
2018:

… o papel do educador é muito mais complexo do que o
que usualmente lhe imputa o senso comum pedagógico. Na
visão tradicional, o bom professor é apenas aquele que tem
um domínio pleno do ‘conteúdo’… isso supõe que os
estudantes já venham à escola interessados em aprender, o
que está bem longe da realidade, especialmente quando se
trata de criança e adolescentes, em fase de formação de suas
personalidades, e que não tenham ainda aprendido, por vias
educacionais adequadas, a querer aprender (p. 88)

A educação emergencial para oferecer o ensino formativo escolar aos seus
estudantes, provoca diversos desafios ao trabalho docente, evidenciando profissionais
despreparado e acarretando o adoecimento da profissão. Uma solução que relaciona o
trabalho docente, a educação a e tecnologia de imediato talvez possa a ser utópico, mas
a longo prazo essa junção possa vir a ser positiva. A fim de perceber a essênciado fazer
docente no mundo atual, é importante compreender que o professor necessita trabalhar
com a reflexão de expectativas, as quais lhe exigem uma nova maneira de pensar sua
ação em sala de aula para que ele produza o sentimento de pertencimento, inclusive no
repensar acerca do seu real papel na sociedade, visando o contexto em que atua. Dessa
maneira, é necessário um olhar diferenciado para a prática pedagógica, pois muitas
vezes as informações oriundas do contexto social surgem para o professor de forma
fragmentada, fazendo com que ele olhe o mundo de forma reta e não de maneira ampla,
e isso possibilita várias visões de mundo.

Além disso, Paro (2018) considera que “A educação é, assim, processo de fazerse ser humano-histórico, não esquecendo que a singularidade deste é sua condição de
sujeito, de ser que é dotado de vontade, que se pronuncia diante do real e busca
transformá-lo de acordo com seus sonhos e interesses”. Dito isso, refletimos as
mudanças na área educacional, somente um profissional pleno e capaz de se ajustar às
mudanças tecnológicas sobreviverá nesse mercado. Sendo assim, é fundamental que o
professor se torne mediador e principalmente orientador da aprendizagem pelas novas
tecnologias, criando novas possibilidades de ensinar e aprender. Pensar em uma solução
onde o ciberespaço ganha notoriedade, poderia vir a ser uma alternativa. É possível
criar uma forma de ensino mais interativa e dinâmica e, consequentemente, mais
produtiva para todos os envolvidos: de um lado, os professores podem se concentrar
nas suas aulas, em vez de tentarem ganhar a atenção dos alunos a todo custo; de outro,
os estudantes podem se sentir motivados com um método de ensino mais moderno,
passando a adotar uma postura mais participativa.

Tendo em vista tudo já foi dito do trabalho do professor e o aprendizado do
aluno nesse modelo de ensino a distância, bem como seus desafios e as consequências
que o vírus que a COVID 19 conduziu para a vida de ambos os sujeitos, perguntar-se
existe solução para essa realidade é uma questão importante, sem que esqueçamos as
suas consequências. Pensando por um lado positivo, a realidade que o mundo vive é de
uma tecnologia cada vez mais presente na vida dos sujeitos. Consequentemente pensar
essa tecnologia adentrando o campo da educação não é algo anormal, trata-se de uma
proposta interessante, porem utópica em curto prazo. Não é isso queremos no cenário
atual de pandemia. É uma solução inovadora, porém carregada de consequências para
o ofício do docente, tendo em vista que a realidade educacional, social e política do
Brasil na condução da crise sanitária. A tecnologia como meio de transmissão de
conhecimento também pode ser um risco para o ofício da docência. De modo mais
amplo o risco que o cenário da pandemia coloca para o docente vais desde: perder a
perpectiva de autonomia pedagógica, dos projetos pedagógicos nas instituições de
ensino básico e superior; altearmos muito o processo de trabalho dos profissionais da
educação, aliado ao processo de precarização; há uma lógica de instensificação do
trabalho.

Dado esse cenário catastrófico em que a pandemia coloca para ofício do
professor momentaneamente, vale aqui olhar o seu horizante de expectativa. O que
esperar do futuro dos mesmos e de seus alunos em um cenário tão complexo e de
insegurança? Qual a expectativa que se cria em torno de seu trabalho e do aprendizado
de seus alunos no pós- pandemia? O primeiro passo para responder a esses
questionamentos é dar voz ao professor.Ouvi-lo antes de qualquer estudante. Ele
precisa ser ouvido. Juntamente com o valor da escola, a importância do professor, que
é o elo fundamental entre as estratégias tomadas e os alunos para a continuidade da
educação, especialmente neste período.

Será importante que as escolas proponham uma flexibilização de rotinas,
tempos e espaços para incluir o lugar de acolhimento e rituais para receber os alunos,
ajudando os mais jovens e os próprios professores a elaborar melhor o que viveram. As
escolas vão precisarformular estratégias para esses professores, como a formação de um
comitê de saúde mental, outro de recolhimento de boas práticas de docência. Enfim, na
escola, agora, todos serão alunos, uns dos outros e da vida. Pensar esse futuro imediato
possibilita que o docente não perca a sua identidade devido ao adoecimento físico e
mental permitindo que o trabalho docente permaneça sendo o centro da transmissão de
conhecimento em sala de aula. Que o professor continue sendo reflexivo e não perca
seu ofício para a tecnologia uma vez institucionalizada.

Por fim é importante que o futuro traga consigo uma política pública que
repense sobre a urgência em formar docentes para novas práticas pedagógicas, o que
inclui o uso ativo e indutivo das tecnologias. Professores que se apropriem das
tecnologias e ensinem seus alunos a fazerem o bom uso delas. Para isso, é preciso frisar
a importância de mudanças na formação inicial e continuada dos docentes. Agora a
realidade que os agentes educacionais se colocam não é apenas pensar em um futuro
presencial. Hannah Arendt (2005, p.239) diz que “em relação ao jovem como
representante de um mundo pelo qual deve assumir a responsabilidade” acrescenta ainda
que“qualquer pessoa que se recuse a assumir a responsabilidade coletiva pelo mundo
não deveria ter crianças, e é preciso proibi-la de tomar parte em sua educação”.

O momento ensina que os professores precisam motivar e fomentar estratégias
para que os alunos aprendam a aprender, visto que o atual momento da educação pede
mais autonomia no aprendizado. É necessário que o caminho percorrido e as
aprendizagens desenvolvidas pelas redes e profissionais da educação para
enfrentamento deste período de pandemia sejam mantidos como heranças vivas para
que a mudança de pensamento leve a novas práticas educacionais.Mas para isso é
preciso que haja uma rede de apoio entre órgãos competentes, escolas, professores,
alunos e famílias, todos dotados de empatia e cooperação para o retorno à convivência,
agora com novas chances de fazer da educação brasileira um terreno fértil para
mudanças.

Imagem de capa: A Village School by Bromley, William III (c.1815-c.88).

Referências
ADRIANO, Correia. Natalidade e amor mundi: sobre a relação entre educação e
políticaem Hannah Arendt, Scielo 2010. Acesso em:
12/04/2021 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-
97022010000300011..
FREIRE, Paulo, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica
educativa.SãoPaulo: Paz e Terra, 2020.
PARO, Henrique Vitor, Professor: artesão ou operário? São Paulo: Cortez, 2018.
SILVA, SILVA, Jon e Maria. Praticas Docentes em Tempo de Pandemia:
refletindosobre escolas públicas situadas em contexto de vulneralidade social.
Ccta, 2020.

Sobre o(a) Autor(a)

Gabriela Fernandes.

Psicopedagoga e estudante de Licenciatura em História pelo Instituto Federal de Ciências e Tecnologias de Goiás. Membro da ação de extensão em consonância com a linha de pesquisa em Cultura e Processos Educacionais, pertencente ao Núcleo Panecástica IFG. Professora de Educação Básica, atuante principalmente nos temas de: História, Literatura, Linguagens e Educação.
Publicado no Liceu Online por:

Cristian Junior

Mineiro metido a engraçadão, corinthiano e professor. Mestre em História pelo Programa de Pós Graduação em História da UFG. Tem experiência na área de História Política, com ênfases em História do Brasil Recente, Neoliberalismo no Brasil, Governo Collor (1990-1992), História da Imprensa e Charges e História. Como membro de grupos de pesquisa, atua nas áreas de Capitalismo e História e Filosofia Contemporânea.

Comentários...

This Post Has 0 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também...

Back To Top