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por João Paulo Capelotti, especial para o LiceuOnline.

Pedro Almodóvar começou a fazer filmes quando a Espanha se libertava de décadas da ditadura de Francisco Franco, e tinha no escracho e na provocação dimensões importantes da sua obra. Com o passar do tempo as tramas do cineasta, que sempre escreveu os próprios roteiros, foram se sofisticando, ainda que sempre a partir da base do melodrama que ele cresceu vendo na casa cheia de mulheres onde foi criado. Nos últimos anos, os filmes do realizador espanhol parecem um pouco mais contidos, elegantes e autobiográficos, abordando questões como a proximidade da morte em “O quarto ao lado”, a memória da repressão autoritária em “Mães paralelas” e o peso do próprio legado em “Dor e glória”. Neste “Natal amargo”, ele lança um olhar cínico sobre o processo de criação artística, em especial sobre o expediente muito comum entre escritores (Jorge Amado era um notório usuário) de se inspirar em histórias reais para criar tramas e personagens, mudando apenas detalhes e nomes. Faz isso por meio de Raúl, uma espécie de alter-ego seu, que escreve sobre a cineasta e publicitária Elsa inspirado nos dramas de sua assistente Mónica. Elsa por sua vez também pega emprestadas as tragédias pessoais de suas amigas Patrícia e Natália. É um jogo de espelhos sofisticado e talvez propositalmente confuso, que parece um pouco mais arrastado do que a metragem de 1h51 sugere. Não é um desastre como “Os amantes passageiros” mas também não é uma obra-prima como “Fale com ela”. Ainda assim, nunca deixou de me parecer interessante, em especial nesta época em que os filmes parecem todos ter a mesma cara dessaturada. É reconfortante reconhecer na tela as assinaturas de Almodóvar, em especial o uso de cores vibrantes e chapadas, principalmente em modo de complementaridade (verde com vermelho, azul com laranja, amarelo com roxo) na mesma cena, indicando em quem recai o foco da narrativa, além da trilha sonora do sempre brilhante Alberto Iglesias, seu colaborador há mais de trinta anos.

 

Nota: 3,5/5

Sobre o(a) Autor(a)

João Paulo Capelotti

É advogado e pesquisador, e gosta de cinema desde que se entende por gente.
Publicado no Liceu Online por:

Edição - Liceu Online

Revista online de Humanidades. @liceuonline

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