Um grupo de soldados chega a Milagres, no sertão nordestino, para proteger um armazém da possibilidade de saque pela população faminta do entorno. Um dos soldados atira num vaqueiro quando apostava com um colega seu quem conseguiria atingir uma cabra. Outro soldado se enamora de uma moça local. Um caminhoneiro conhecido como Gaúcho se revolta com a passividade de um sertanejo diante da morte da filha pela fome. É esse caleidoscópio de personagens e pequenas tramas que compõe “Os Fuzis”, filmado por Ruy Guerra em 1963 e lançado no ano seguinte. É visível o talento do diretor para a decupagem das cenas, como uma das sequências iniciais que é centrada nas armas dos soldados enquanto eles marcham pela cidade, numa espécie de metonímia, como se eles pudessem ser traduzidos pelo arsenal que carregam. Também é interessante a aparente ideia principal do longa – de que a coerção das forças armadas nem seria necessária diante da apatia da população em geral diante da miséria e da desigualdade, o que ressoa de certo modo até hoje, com uma insatisfação generalizada que não se transforma em ação. Ainda assim, fica uma impressão de desenvolvimento superficial das diversas subtramas do filme, que também soa mais longo do que seus 80 minutos. No fim, “Os Fuzis” vale mais pela sua mensagem política e pela sua inspirada direção de fotografia do que pelo enredo em si, o que de qualquer forma lhe garante a importância histórica que tem dentro do movimento do Cinema Novo, ao lado de títulos como “Vidas Secas” e “Terra em Transe”.
Nota: 3,5/5









