O fascismo, enquanto fenômeno histórico do século XX, costuma ser definido como um regime autoritário, nacionalista e corporativista. Suas manifestações mais emblemáticas – Itália e Alemanha – consolidaram-se a partir de contextos específicos, marcados por crises econômicas, instabilidade institucional e ressentimentos pós-guerra. Tal leitura, embora historiograficamente válida, limita a compreensão do fascismo a suas expressões clássicas. Contudo, autores contemporâneos têm argumentado que o fascismo não se resume a uma forma de governo, mas também se expressa como lógica discursiva. Essa perspectiva desloca o debate do aparato estatal para a dimensão simbólica e performativa da política.
Umberto Eco argumenta que “o fascismo pode voltar sob as formas mais inocentes” (ECO, 1995, p. 16), indicando que o fascismo não está rigidamente preso ao seu contexto histórico original. Eco chama essa permanência de ur-fascismo, uma constelação de valores, afetos e significantes que podem ressurgir em democracias quando discursos mobilizam elementos autoritários e excludentes. Assim, discutir fascismo enquanto lógica discursiva permite analisar práticas contemporâneas que se aproximam da gramática fascista, sem incorrer em anacronismos ou em generalizações moralizantes.
Pensar o fascismo como linguagem implica reconhecer que os conflitos políticos não se dão somente sobre políticas públicas, mas também sobre formas de dizer, modos de produzir antagonismos, construir identidades e definir inimigos. Como observa Jason Stanley, “o fascismo transforma o ressentimento em ferramenta política” (STANLEY, 2018, p. 27). Esse deslocamento é importante para o contexto brasileiro contemporâneo, em que discursos polarizadores, moralizantes e excludentes têm ganhado centralidade na disputa pública. A análise do fascismo enquanto lógica discursiva contribui para compreender como se produzem efeitos sociais semelhantes aos de regimes fascistas, mesmo em contextos democráticos.
- Fascismo como ideologia e prática política
Nos estudos clássicos, o fascismo aparece como uma ideologia coerente, com pilares doutrinários facilmente identificáveis. Essa interpretação, embora útil para fins didáticos, tem sido relativizada pela historiografia recente. Robert Paxton, em seu estudo seminal, argumenta que “o fascismo é antes uma prática do que uma doutrina” (PAXTON, 2004, p. 41). Paxton desloca o foco das ideias para as ações: o fascismo não nasce plenamente formado, mas se constrói no processo de mobilização afetiva, polarização e cristalização de identidades políticas simples e moralizadas.
Essa concepção ajuda a compreender porque o fascismo é historicamente contraditório, combinando elementos nacionalistas, corporativistas, revolucionários e tradicionais. Eco enfatiza que o fascismo é uma “colagem de tradições políticas” (ECO, 1995, p. 19), unidas pelo culto à autoridade, pela rejeição ao pluralismo e pela ideia de unidade nacional orgânica. Esse sincretismo político permite que o fascismo se adapte a terrenos sociais distintos.
Indiretamente, essa abordagem permite compreender que o fascismo não é apenas o regime autoritário estabelecido, mas um processo que antecede a institucionalização formal. Segundo Paxton, “o fascismo acontece antes no nível social, depois no partidário e por fim no estatal” (PAXTON, 2004, p. 118). Assim, o fascismo pode existir como gramática política mesmo quando não existe enquanto regime.
- A virada discursiva: Laclau, Mouffe e a construção do povo
A análise do fascismo como lógica discursiva encontra suporte na teoria do discurso político desenvolvida por Ernesto Laclau e Chantal Mouffe. Embora tais autores não sejam estudiosos do fascismo diretamente, sua reflexão sobre a construção discursiva da identidade política contribui para compreender como o fascismo articula significantes e produz antagonismos.
Laclau afirma que a identidade popular “não é dada, mas produzida politicamente” (LACLAU, 2005, p. 83). Isso significa que o “povo” não existe como unidade homogênea, mas é construído discursivamente. Para que essa construção seja eficaz, é necessário a formação de significantes vazios, símbolos que condensam múltiplas demandas sociais e produzem um sentimento de pertencimento. A noção de “povo”, de “nação”, ou de “patriotismo” assume essa função: mais do que conceitos analíticos, são símbolos mobilizadores.
Chantal Mouffe complementa ao argumentar que todo projeto democrático envolve disputa hegemônica. Para ela, “a construção de um ‘nós’ implica a produção de um ‘eles’” (MOUFFE, 2018, p. 20). A política, portanto, é inevitavelmente antagonista. Contudo, a forma desse antagonismo pode ser pluralista, reconhecendo o adversário, ou excludente, transformando o outro em inimigo existencial. Na lógica fascista, esse antagonismo é moralizado: o adversário não representa uma posição divergente, mas uma ameaça à unidade do povo.
Essa contribuição ajuda a compreender porque a lógica fascista opera frequentemente por meio de simplificação simbólica: ela constrói identidades claras, polarizações rígidas e narrativas que facilitam a adesão emocional. Em vez de argumentação racional, a política se converte em disputa moral.
- Os elementos centrais da lógica discursiva fascista
A lógica discursiva fascista pode ser identificada por um conjunto de operações simbólicas repetidamente empregadas em discursos políticos contemporâneos. Entre as mais importantes, destacam-se:
a) Antagonismo moralizado
A lógica fascista transforma divergências políticas em conflitos morais. Assim, o oponente político deixa de ser adversário para se tornar inimigo. Eco afirma que o fascismo “transforma a ansiedade social em medo do inimigo” (ECO, 1995, p. 22). Tal processo reduz a complexidade social a narrativas simples, polarizando o espaço público.
b) Nacionalismo excludente
O fascismo constrói a ideia de um povo homogêneo, com identidade fixa e essência moral. Paxton observa que o fascismo depende da “construção de um povo orgânico contra o outro” (PAXTON, 2004, p. 55). Esse “outro” pode ser um grupo social, étnico ou político, caracterizado como ameaça interna.
c) Liderança carismática
A liderança fascista se apresenta como encarnação do povo. Eco descreve o culto ao líder como uma forma de “substituição da realidade política pela imagem da autoridade” (ECO, 1995, p. 19). A figura pessoal concentra a legitimidade, deslocando instituições e regras para segundo plano.
d) Ressentimento e vitimização
Segundo Stanley, “o ressentimento é a emoção central da política fascista” (STANLEY, 2018, p. 32). A lógica fascista não apenas identifica um inimigo, mas constrói a ideia de que o povo foi traído por elites corruptas ou por minorias privilegiadas.
e) Simbolismo emocional
O fascismo opera com símbolos fortes, rituais e estéticas que reforçam coesão. Não é necessário coerência doutrinária: basta que narrativas produzam unidade afetiva.
Esses elementos, combinados, permitem que a lógica fascista funcione mesmo sem partido único, milícias formais ou censura estatal. A linguagem torna-se instrumento de mobilização e antagonismo.
- A construção discursiva do inimigo
No centro da lógica fascista está a produção do inimigo interno. Historicamente, o fascismo buscou inimigos para justificar mobilização permanente – comunistas, judeus, estrangeiros, liberais, minorias. A função do inimigo é cristalizar sentimentos difusos de crise e perda de identidade nacional. Segundo Paxton, “o fascismo precisa de inimigos como ferramenta de mobilização” (PAXTON, 2004, p. 90).
Essa lógica reaparece em contextos democráticos quando discursos atribuem a certos grupos a responsabilidade por todos os problemas sociais. Stanley observa que “o fascismo toma o ressentimento, torna-o político e transforma-o em identidade” (STANLEY, 2018, p. 41). Essa construção do inimigo facilita o sentimento de pertencimento ao “nós”, criando distinções rígidas e mobilizando paixões.
A deslegitimação do outro implica também a deslegitimação do pluralismo democrático. Em vez de reconhecer a diferença como elemento constitutivo da democracia, o discurso fascista a denuncia como decadência moral, corrupção ou ameaça à ordem. Eco chama isso de “populismo qualitativo”, onde o povo é entendido como unidade moral (ECO, 1995, p. 25).
- Democracia, pós-fascismo e redes discursivas
A presença de lógicas fascistas em democracias não significa que tais democracias se tornaram regimes fascistas. Essa distinção é essencial para evitar equívocos analíticos. A lógica fascista pode operar de modo difuso, infiltrando-se no campo discursivo por meio de narrativas simplificadoras, teorias conspiratórias, moralização do debate público e deslegitimação institucional.
Enzo Traverso denomina esse fenômeno de pós-fascismo (TRAVERSO, 2019), apontando que certas formas do antigo fascismo ressurgem adaptadas ao contexto comunicacional do século XXI. A estética mudou, os símbolos são mais sutis, mas os pilares afetivos permanecem: medo, ressentimento, culto à autoridade e ideal de pureza social.
No contexto contemporâneo, o ambiente digital desempenha papel fundamental. As redes sociais amplificam discursos polarizadores e permitem a formação de comunidades afetivas que reforçam antagonismos. Laclau já havia destacado a importância da linguagem na formação de identidades políticas; nesse sentido, a circulação digital intensifica a lógica discursiva fascista.
Em democracias fragilizadas, com descrédito institucional e crise de confiança, a linguagem autoritária oferece respostas simples para problemas complexos. Paxton adverte que “o fascismo cresce onde as instituições democráticas são percebidas como fracas” (PAXTON, 2004, p. 118). Assim, a análise discursiva torna-se ferramenta crucial para identificar sinais de corrosão democrática.
- Brasil contemporâneo e lógicas discursivas autoritárias
No debate brasileiro recente, o termo “fascismo” tem sido frequentemente utilizado como acusação política. Tal uso pode obscurecer o fenômeno que se busca analisar. Em vez de rotular atores específicos, é mais produtivo investigar como certos discursos estruturam antagonismos, constroem inimigos e mobilizam afetos.
O contexto brasileiro apresenta elementos que favorecem a interpretação da lógica fascista como fenômeno discursivo: polarização extrema, crise de legitimidade institucional, circulação massiva de desinformação e discursos de ordem moralizante. Observa-se a mobilização de símbolos nacionais, a construção retórica do “verdadeiro povo” e a identificação de inimigos internos responsáveis pela decadência nacional.
Sem mencionar atores específicos, é possível afirmar que certos discursos oficiais e institucionais recentes têm mobilizado a ideia de que o país foi traído por elites corruptas, que a nação precisa ser “reconstruída” e que divergências políticas representam ameaças existenciais. Eco descreve exatamente esse movimento ao afirmar que o fascismo “não reconhece adversários, apenas inimigos” (ECO, 1995, p. 22).
Além disso, a lógica discursiva fascista se manifesta na defesa de uma moral única, na rejeição ao pluralismo cultural e na valorização de uma liderança personalista capaz de salvar o país. Esses elementos, quando combinados, criam um clima simbólico semelhante ao identificado nos estudos clássicos sobre fascismo, ainda que sem uma institucionalização completa.
Conclusão
Pensar o fascismo como lógica discursiva permite compreender como práticas comunicativas mobilizam elementos fascistas sem que seja necessário um regime totalitário consolidado. Essa abordagem desloca o foco do aparato institucional para a dimensão simbólica da política, na qual linguagem, afetos e narrativas produzem identidades e antagonismos.
O fascismo contemporâneo não precisa de marchas uniformizadas ou de partido único; ele pode emergir em democracias, de modo difuso, através da construção do inimigo interno, da moralização da divergência e da ideia de um povo homogêneo sob liderança redentora. Como afirma Eco, “o fascismo eterno pode ainda falar em nossa linguagem” (ECO, 1995, p. 16). O desafio analítico consiste em reconhecer tais sinais sem reduzir o debate a acusações moralistas.
A análise discursiva contribui para a proteção da democracia ao evidenciar os mecanismos simbólicos que a corroem. Ao identificar como antagonismos são produzidos, como inimigos são construídos e como afetos políticos são mobilizados, é possível compreender os riscos que discursos autoritários representam para o pluralismo. Assim, estudar o fascismo como lógica discursiva na política brasileira contemporânea não é apenas exercício acadêmico, mas reflexão necessária diante de um cenário marcado por instabilidades e disputas hegemônicas.
Referências
ECO, Umberto. O Fascismo Eterno. Rio de Janeiro: Record, 1995.
LACLAU, Ernesto. A Razão Populista. São Paulo: Três Estrelas, 2005.
MOUFFE, Chantal. Por um Populismo de Esquerda. São Paulo: Autonomia Literária, 2018.
PAXTON, Robert. A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2004.
STANLEY, Jason. Como Funciona o Fascismo. São Paulo: Leya, 2018.
TRAVERSO, Enzo. As Novas Faces do Fascismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2019.]
Imagem da capa: Cult.









