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por Renata Cristina de Sousa Nascimento, especial para o LiceuOnline.

Na tradição cristã lugares, imagens e objetos serviram como elementos de “reevocação” de um passado memorável, que se desejava perpetuar. Entre esquecimento e lembrança consolidou-se o que deveria ser permanente, eterno. Esta demanda pelo passado deu ao cristianismo seus primeiros alicerces, solidificando-se os lugares santos e os personagens memoráveis, que constituem sua identidade. Cristo e seus discípulos, considerados fundadores das primeiras comunidades, são modelos essenciais na construção de uma história que se deseja sublime. Inicialmente perseguidos os cristãos voltaram-se à veneração dos restos sagrados de seus mártires, elevados a heróis da fé, aqueles que venceram a morte, pois através de sua matéria realizaram-se milagres. Esta santidade daria nova vida a uma materialidade teoricamente morta. Elos entre vivos e mortos, as relíquias representam a memória e a presença física, mesmo fragmentada, por meio das quais é possível tocar na sacralidade. Daí o significado das sepulturas, dos monumentos e dos objetos que emanavam santidade. Não se trata apenas da memória, mas da própria pessoa; não da lembrança, mas da presença. O valor atribuído a estas era simbólico e material. Quanto mais importante a relíquia, mais valor de mercadoria ela tinha. Entre estas os objetos ligados à vida de Cristo, e os corpos dos apóstolos são as de maior relevância.

Conforme o Evangelho de João, Capítulo 1: 14 “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai, como filho único cheio de graça e de verdade.” A encarnação é matriz fundamental presente na narrativa bíblica, e estabelece concretamente uma articulação entre o espiritual e o físico. Conforme Jérôme Baschet (2019), a ênfase na humanidade do Cristo não diminui sua divindade. Ao contrário, ela contribui, para exaltar uma natureza divina, mantida intacta à despeito de todas as humilhações e de todas as contingências humanas às quais ela se encontra relacionada.

Estar próximo a estes sagrados despojos reforçava a crença em seu poder miraculoso. O território regado pelo sangue dos mártires e santos simbolizava a consagração do local. Daí as celebrações, as peregrinações e o aparecimento das relíquias por contato, objetos santificados através da proximidade e sacralidade de seu possuidor. A multiplicação destes fragmentos foi enorme, o que não diminuiu seu valor para os fiéis. A forma de vivência do sagrado também está inserida em um projeto institucional de legitimação, e manutenção do poder político. “A implantação territorial do cristianismo fez- se por modos complexos de apropriação sacral de espaços reais e imaginados, em que avultavam a descoberta de corpos santos, e imagens…” (ROSA, 2011: 388). Comportamentos e estratégias diversas, necessárias à consolidação da superioridade de reinos e cidades, frente às muitas disputas. A conservação de um acontecimento declarado como inesquecível fomentou a identidade cristã, possibilitando uma reconstrução, uma remodelação de recordações.

Neste âmbito inserem – se as relações entre o material e o espiritual, presentes no ato do morrer. Os vestígios especiais são bens de natureza material, mas que produzem riqueza espiritual. União lícita entre céu e terra, que se torna concreta através dos corpos santos, e de objetos que pertenceram a personagens sublimes. Produtores de memória os restos mortais presentificam a essência da santidade, que poderia ser concreta, tocada, sentida. Os fragmentos santos foram então considerados ferramentas de Deus, na distribuição de sua graça. O simbolismo de um espaço sagrado, ressignificado através das relíquias, o torna qualitativamente diferente dos demais.

 

Imagem de capa: Entry of Christ into Jerusalem (1320) by Pietro Lorenzetti

Referências Bibliográficas

ÁLVAREZ, Maria Raquel A. & NASCIMENTO, Renata Cristina de Sousa. A Sacralização do Espaço Ibérico: Vivências Religiosas na Idade Média. Curitiba: CRV, 2020

BASCHET, Jérôme. Corpos e almas. Uma história da pessoa na Idade Média. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2019.

OEXLE, Otto Gerhard. A Presença dos Mortos. In BRAET, H & Verbeke, W. (eds) A Morte na Idade Média. SP: Edusp, 1996. p 31.

 

NASCIMENTO, Renata Cristina de Sousa. A Cristianização do Espaço: O Protagonismo da Vera Cruz em Marmelar. In Revista Tempos Históricos, Volume 20. Unioeste: 2º Semestre de 2016. p. 133-146. http://e-revista.unioeste.br/index.php/temposhistoricos/article/view/15737/10691

ROSA, Maria de Lurdes. Sagrado, Devoções e Religiosidades In MATTOSO, J. (Direção). História da Vida Privada em Portugal- A Idade Média. Lisboa: Círculo de Leitores, 2011. pgs 376- 401

Sobre o(a) Autor(a)

Renata Cristina de Sousa Nascimento

Renata Cristina de Sousa Nascimento é Doutora em História, Medievalista e Professora Universitária. Link para lattes http://lattes.cnpq.br/5151454949796711
Publicado no Liceu Online por:

Cristian Junior

Mineiro metido a engraçadão, corinthiano e professor. Mestre em História pelo Programa de Pós Graduação em História da UFG. Tem experiência na área de História Política, com ênfases em História do Brasil Recente, Neoliberalismo no Brasil, Governo Collor (1990-1992), História da Imprensa e Charges e História. Como membro de grupos de pesquisa, atua nas áreas de Capitalismo e História e Filosofia Contemporânea.

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