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por , especial para o LiceuOnline.

Por Ana Lívia Lourenço Ferreira*, especial para o LiceuOnline.

Ah mas cinema nacional brasileiro nem tem filme bom! Melhor ir ver um blockbuster norte-americano.” Nada contra filmes de heróis (aliás também adoro), mas se tratando de repertório cinematográfico de qualidade, o Brasil vem cada vez mais aumentando seu leque de possibilidades. Os recentes sucessos Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho, As Boas Maneiras (2018), de Juliana Rojas e Marco Dutra e Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert seriam alguns dos nomes de filmes considerados pela crítica cinematográfica destaques nas produções brasileiras.

Entretanto, o grande público em muitos casos acaba não entrando em contato com muitos filmes produzidos no Brasil, devido toda a overdose que os cinemas trazem de obras dos grandes circuitos comerciais mundiais, os quais a cada anos lucram bilhões em dinheiro e consequentemente acabam monopolizando as escolhas do público. As renomadas premiações da academia cinematográfica, o Oscar e o Festival de Cannes por exemplo, seriam possibilidades para se trazer à tona na sociedade nomes de filmes que se proponham a ir além das camadas mais simplistas de filmes mais vinculados ao marketing.

Quando nos propomos a pensar “sucessos” de bilheteria nacional, poderíamos pensar nos líderes de um ranking de faturamento como Minha Mãe é Uma Peça (2019), de Susana Garcia, Tropa de Elite 2 (2010), de José Padilha, Dois Filhos de Francisco (2005), de Breno Silva e Se Eu Fosse Você 2 (2009), de Daniel Filho. Filmes esses que de um modo geral contam com uma linguagem narrativa mais acessível, dignos de uma bela Sessão da Tarde Global.

Após essa breve introdução sobre o cenário das possibilidades de filmes a níveis críticos e numéricos, chegamos ao questionamento. Haveriam filmes brasileiros que unam os aspectos de criticidade e sucesso entre o público nos cinemas? E a resposta é sim! O Auto da Compadecida, se configuraria enquanto uma obra que conseguiu no período intitulado de Retomada do Cinema brasileiro, ser um dos percursores do resgate do público que iria aos cinemas em busca de obras nacionais.

Dirigido por Guel Arraes, O Auto inicialmente se desenvolve enquanto uma minissérie da Rede Globo de Televisão exibida em quatro capítulos no ano de 1999, e que no ano seguinte com o apoio da produtora Globo Filmes converge midiaticamente para as telas do cinema. Tal obra tem como inspiração o livro literário de nome homônimo, de autoria de Ariano Suassuna e publicado inicialmente no ano de 1955, além de outros textos de cordel também de autoria desse literato. Tal escolha do material que serviria de base para a elaboração do roteiro, desempenha um papel fundamental na obra, pois a partir dessas escolhas é que se desenvolvem problemas chave para o filme, como a desigualdade social nordestina.

Os dois personagens principais da trama João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello) residem como nômades na cidade de Taperoá, Sertão nordestino localizado temporalmente na década de 1930, e vão residindo de acordo com os empregos que arrumavam, o que os faz estabelecer relação social com diversos grupos da cidade como a igreja, os padeiros e o coronel. A partir desses dois personagens centrais, questões pertinentes a desigualdade e exploração vão sendo desenvolvidas na narrativa, colocando em cheque o papel de instituições como a igreja e a índole e moral de grupos como a burguesia urbana e a aristocracia local.

Para compensar a situação de falta de capital financeiro e status social, João Grilo com sua astúcia vai criando e reinventando diversas mentiras com os membros mais privilegiados de Taperoá. E assim o elemento do riso passa a advir das situações embaraçosas ocasionadas pelas trapaças, fazendo com que os pobres do filme consigam de um modo geral subverter a ordem de poder daquele local.

João Grilo e Chicó poderiam ser comparados com relação as duplas picaras como Dom Quixote e Sancho Pança, em que temos sujeitos que se complementam em sua loucura, insanidade, senso de realidade e sobretudo a cumplicidade entre eles. Sobre isso, cabe pensar os escritos de Suassuna, os quais bebem de fontes de histórias orais vindas da Península Ibérica.

Pensando as influências da literatura de cordel em nosso filme, é interessante mencionar que Ariano Suassuna é o percursor de um movimento intitulado armorial, o qual faria uma arte nordestina erudita a partir de elementos populares, espaço esse que segundo tal literato possuir traços de medievalidade. Esses possíveis “resquícios” de Idade Média acabam sendo explorados no decorrer do filme do Auto, como com relação as cores avermelhadas presentes, aspectos religiosos, a sociedade de classes ou até o riso como ferramenta de reinvenção social e política.

Para além da própria questão da desigualdade, debates acerca do racismo, misoginia e xenofobia se fazem possíveis a partir desse filme. As possibilidades de diálogo da obra nos permite pensar elementos televisivos, fílmicos, literários e até mesmo circenses.

O Auto se constitui enquanto um filme de sucesso de bilheteria e público, que no ano de 2020 completou 20 anos do seu lançamento, o que gerou diversas comemorações em vários meios audiovisuais como por exemplo sua reexibição no formato de minissérie na Rede Globo de Televisão, o que contou com um processo de remasterização digital e nova abertura com uma arte modéstia à parte muito bonita e que remete a fortes traços da arte religiosa medieval.

O Auto da Compadecida mesmo se propondo a pensar um Nordeste de 1930, nos possibilita a oportunidade de discutir questões pertinentes ao seu tempo de produção (1999-2000) e de também estendermos tais reflexões aos problemas ainda latentes em nossa sociedade, E creio particularmente que por essas fortes relações históricas entre passado e presente é que o filme ainda seja tão aclamado entre público.

Caso ainda não tenha assistido, essa leitura pode ser uma boa deixa para conhecer a obra fílmica O Auto da Compadecida. E caso já tenha visto, nunca é demais rever o filme buscando observar os inúmeros aspectos presentes nessa película! Boa sessão!

*Ana Lívia Lourenço Ferreira
“Historiadora, professora e nas horas vagas entusiasta do universo geek”.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/0170162621147125

Fonte:

O AUTO DA COMPADECIDA. Direção: Guel Arraes. Produção de Globo Filmes e Lereby Produções São Paulo: Columbia Tristar, 2000. 104 min.

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Comentários...

This Post Has 7 Comments

  1. Excelente apresentação! Me lembro de ter visto o filme quando pequeno e, mesmo sem entender toda a trama que você analisa e explica, dar boas risadas! Me serviu como um convite para assistir novamente. Um brinde à valorização da cultura nacional! Abraços, Ana!

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