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por Giovanna Marques Amaral, especial para o LiceuOnline.

O longa de Jordan Peele, Nós (2019), incorpora tudo aquilo que é negado e jogado para baixo do tapete, outrora compondo o que é chamado de identidade pessoal, que, por vezes, se faz coletiva. Nota-se que o título da película perde sua simbologia ao ser traduzido para “Nos”, visto que Us é uma analogia à sigla dos Estados Unidos (United States), país palco da trama e precursor da problemática na obra. Em adição ao título sugestivo, Peele, faz questão de em cada simbolismo referenciar o contexto de segregação social e repulsa ao diferente no país, o qual se faz velado, no entanto compondo o famigerado ego de “orgulho americano”.

Logo de início fica evidente a direção que o longa irá adotar. Contrariando o otimismo típico de “California Dreamin’” (sonho californiano, tendência dos anos 60 onde multidões abandonavam suas vidas “ordinárias” para viver no estado primoroso que frisava a “paz e o amor”), em Nós o estado da Califórnia não é retratado com praias ensolaradas e calorosas, e o parque em que a protagonista se aventura em primeiro momento é relatado com ar de estranho e incógnito. A pretensão do diretor é criar uma atmosfera de terror e, ainda, revelar a premissa do filme, onde é explorada a possibilidade de versões idênticas, porém opostas; As praias e atrações são obscuras e emblemáticas, ao mesmo passo que a criança Adelaide (Madison Curry), personagem principal, ao se deparar consigo mesma em uma sala de espelhos, se vê distorcida.

Em seguida é apresentada uma família comum americana. Somos levados a perspectiva de Adelaide (Lupita Nyong’o), anos depois em sua maioridade, com filhos e cônjuge, os quais decidem passar férias na casa de praia de seus parentes. O lugar? Santa Cruz, Califórnia. O Estado Dourado, enfático, assim como os Estados Unidos, não foi escolhido eventualmente, visto que foi o palco da Corrida do Ouro.

O evento de 1848 concedeu a Califórnia seus títulos e status que perduram, e aliado à vitória estadunidense sobre os mexicanos, corroborou para legitimar a soberania do “povo americano”. Em outras palavras, o estado – em sua maioria composto por hispânicos e índios – teve uma mudança abrupta no perfil de seu povo. A custa de outros, a Califórnia estabeleceu seu legado. A partir desse momento, a América deveria ser dos “americanos”.

Diferente, por exemplo, do clássico A Conquista do Oeste (1962), dirigido pelo trio John Ford, Henry Hathaway e George Marshall, em Nós, Jordan Peele, lida com a questão da dominação e hegemonia de forma que, no estado detentor da cidade do cinema (Hollywood), frases como “devemos encorajá-la a desenhar, cantar, dançar, qualquer coisa que a ajude a contar sua história”, indiquem a forma como minorias têm de lutar para se sentir representados e reafirmar sua importância, independente do papel que tenham exercido na história. E assim surge outro pilar da obra, a voz.

De volta à Califórnia, Adelaide tem flashbacks recorrentes de seu trauma, e a sensação latente de que a garota distorcida de seu reflexo virá por ela. Seus temores se concretizam quando clones de cada membro de sua família invadem seu lar. As duplicatas se armam com tesouras, refletindo a premissa do filme, uma vez que o objeto pontiagudo é feito de lados idênticos e opostos, compondo o todo. A líder dos clones, Red, se distingue em sua capacidade de fala, e reafirma a problemática de exclusão e injustiça tratadas na obra ao desabafar sobre sua subvida.

Acontece que, enquanto os mocinhos tiveram, consideravelmente, tudo ganho de modo fácil, a família de Red se arranjou nas sombras, e seu modo de viver lhes trazia constante agonia, uma vez que, como ela vem a declarar mais tarde, também são “feitos de olhos, dentes, mãos, sangue”. Também tem suas dores e seus anseios e, naturalmente, desejo de mudança. E cabe pensar: se os de baixo têm as mesmas capacidades dos de cima, o que os distinguem? E mais, o que faz deles “vilões”?

O que os fez distintos foi a falta de oportunidades, já que mesmo que desejassem a mudança de forma inconsciente, não tinham os recursos e voz necessários. Porém, uma vez que foi permitido à sua líder se expressar por meio da dança, seus anseios inconscientes emergiram. E por isso Red agradece mais tarde. O pontapé inicial estava dado, e os clones aproveitaram o movimento oitentista “De Mãos Dadas pela América” (arrecadação fracassada de 1986 com o intuito de gerar doações para a África, e que dessa vez, sim, agiu em prol da inclusão), e sua rebelião, por mais que agressiva, explica-se com base no meio que foram induzidos a viver.

Consequentemente, se os mocinhos tivessem as mesmas experiências destrutivas, cresceriam conforme seu ambiente. Tese comprovada quando, por exemplo, a família de Adelaide, perante uma situação descomunal de estresse, mata. Além de o fazerem por menos, cada membro vem a vangloriar seu ato, disputando “quem matou mais”. Tendemos a negligenciar tais atitudes com base no plano em que foram inseridas. Sendo assim, hipocrisia cogitar os clones como figuras vilanescas, enquanto também agiram em sua defesa.

O plot twist vem ao descobrirmos que Adelaide, para quem tanto torcíamos, é um clone vivendo no mundo superior, condizendo com suas atitudes em relação ao meio e sua comoção quanto às duplicatas. Red foi forçada a abandonar os privilégios de seu mundo para viver em miséria. Adelaide, do mesmo modo, sentiu o contraste, e sempre foi alienada por saber que os subjugados não viveriam em falta. Uma hora eles se rebelariam, e quando o fizessem, sua vontade seria imbatível. Assim como declara a passagem amplamente enfatizada no longa: “Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei” (Jeremias 11:11).

No decorrer da obra fílmica Nós, são referidas questões negadas que compõem o ego. Relatos de como o humano, mesmo que igual, é oposto demais para ser um. Em relação ao país palco da trama, é retratado como atitudes de segregação e repulsa ao estrangeiro são veladas como “orgulho americano”, e em sua sociedade, é enraizado a negligência quanto a outros povos que serviram como “escada” para a ascensão da pátria. Estes, subjugados, têm de erguer sua voz e lutar por seus direitos básicos. Como o movimento Black Lives Matter (de início em 2013 e encarregado pela defesa da comunidade afro-americana após inúmeros episódios violentos de cunho racista, provocando manifestações) nos ensinou, a rebelião dos menosprezados sempre será vista como agressiva por olhos hipócritas, que anulam raízes e banalizam a vida. Em razão dessas e muitas outras atitudes que perpetuamos, digo que, a esse ponto, somos indubitavelmente como na obra. Nós somos americanos!

Sobre o(a) Autor(a)

Giovanna Marques Amaral

Estudante de ensino médio no Instituto Federal Goiano. Amante geek. Recém promovido de órfão a Robin, não nos quadrinhos, mas no universo da escrita e cinema.
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