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por , especial para o LiceuOnline.

*Por Átila Fernandes dos Santos, especial para LiceuOnline 

No dia 9 deste mês, Gina Carano, a Cara Dune, de The Mandalorian (Disney e LucasFilm), compartilhou um vídeo do Tik Tok no Instagram, ela insinua que na eleição americana teve fraude e comentou as críticas que os republicanos vêm recebendo desde a invasão do Capitólio. Para a atriz, e ex-lutadora de MMA, o ódio ideológico que hoje está sendo semeado contra Trump e seus aliados não é diferente do ódio contra os nazistas. Carano diz que as pessoas não entendem como a história sempre é editada e que os nazistas não são os principais responsáveis pela perseguição e extermínio dos judeus, mas sim, que o ‘‘governo’’ incutindo o ódio fez com que os próprios vizinhos odiassem os judeus. Para Carano, o ódio da vizinhança teria sido o principal motivo para a decretação da perseguição e, por consequência, o extermínio nos campos de concentração. A LucasFilm demitiu a atriz e afirmou não compactuar com suas ideias abomináveis e inaceitáveis.

O abominável assunto, que Carano expressou e que a  LucasFilm e Disney condenaram, foi o tema central da obra de Primo Levi, Os afogados e os sobreviventes (1986). Levi foi um prisioneiro dos campos de Auschwitz. Depois da libertação, Levi retornou a sua cidade natal, Turim, e escreveu várias memórias e livros de ficção sobre o tema dos campos de concentração.

Interessante notar como o tema da perseguição e do genocídio judeu foi muito debatido nas décadas passadas e, mesmo assim, tem a capacidade de se renovar e se inserir em novos contextos. Levi abre seu livro falando da operação de esquecimento executada pelos nazistas: a queima dos arquivos, da destruição dos campos de concentração e da execução e cremação dos prisioneiros. Lembrando as palavras de um sobrevivente que ouviu os nazistas amaldiçoarem os judeus que sobrevivessem, Levi diz:

E ainda que fiquem algumas provas e sobreviva alguém, as pessoas dirão que os fatos narrados são tão monstruosos que não merecem confiança: dirão que são exageros da propaganda aliada e acreditarão em nós, que negaremos tudo, e não em vocês. Nós é que ditaremos a história dos Lager (Campos de concentração alemães).(LEVI, 2016, p.7)

Figura 1. Série The Mandalorian – Disney Plus.

As palavras de Carano parecem concretizar esta maldição. A ‘‘edição’’ que ela realizou dá crédito à mentira dos nazistas e desacredita os sobreviventes e provas encontradas. Sem nos delongarmos na ‘‘edição de Carano’’, o negacionismo é um discurso que distorce o acontecimento a partir de uma ideologia alimentada pelo ódio. No caso particular, a ex-integrante da produção da Disney comungou do ódio judeu e desresponsabilização dos nazistas da execução dos campos de concentração e do extermínio judeu.

 

Carano se afasta de sua personagem, Cara Dune, a ex-revolucionária, ex-mercenária e oficial da Nova República que alimentou um desejo de vingança contra o Império Galáctico que destruiu o seu mundo natal, Alderaan. Para entender a luta da ex-revolucionária, precisamos entender um pouco de Star Wars. A franquia de ficção científica enfatiza as batalhas interplanetárias, explora planetas desconhecidos, seres alienígenas e as batalhas com sabres de luz. Não deixando de lado o clima aventuresco, desde de 1977 com os primeiros filmes da franquia idealizada por George Lucas, o Império tem suas semelhanças com o nazismo, a arquitetura, os emblemas, as formas gigantescas, aludindo a Estrela da Morte. Na política, o império é um sistema de governo que escraviza os Estados da galáxia, que oprime, censura e persegue seus opositores, nada diferente dos exemplos de regimes fascistas que conhecemos. No III episódio da franquia, o Senado garantiu poderes de emergência ao Chanceler Palpatine, na guerra contra a Aliança Separatista.

Palpatine, na verdade, se revela como o vilão Darth Sidious, o senhor do Lado Sombrio da Força que também era secretamente o líder dos separatistas. Antes da revelação das verdadeiras intenções de Sidious, a senadora Padme Amidala (vivida por Natalie Portman) diz: ‘‘e é assim que a liberdade morre… Com um estrondoso aplauso’’.

Com o fim da guerra, que ficou conhecida como Guerras Clônicas, Darth Sidious venceu e dissolveu a Confederação dos separatistas e a República, exterminou a ordem Jedi e criou o Império Galático. A república somente seria restaurada com a derrota de Darth Sidious no episódio VI, da franquia.

Desse modo, podemos considerar que a atriz seria, assim, o oposto de sua personagem. Com todas as ressalvas, considerando o universo ficcional, seria como Cara Dune afirmasse que o Império não tivesse culpa de ter exterminado os Jedi e ter destruído seu planeta.

Mas isso não faz a atriz uma nazista, não temos nenhuma prova dessa ideia, no entanto, ela se convenceu por argumentos sem nenhuma comprovação científica e expressou publicamente essas ideias perigosas.

Para não ficarmos ingênuos, pensando que o negacionismo se renova somente nos países do norte do globo, como os Estados Unidos e o Ocidente da Europa, Levi nos chama a atenção para as tragédias que assolam o século XX e, de certo modo, se assemelham aos horrores vividos em Auschwitz:

[…] até o momento em que escrevo, e não obstante o horror de Hiroshima e Nagasaki, a vergonha dos Gulags, a inútil e sangreta campanha do Vietnã, o autogenocídio cambojano, os desaparecidos na Argentina e as muitas guerras atrozes. (LEVI, 2016, p.15)

O exemplo hitleriano demonstrou em que medida é devastadora uma guerra travada na era industrial, mesmo sem que se recorra às armas nucleares; nos últimos vinte anos, a desgraçada aventura vietnamita, o conflito das Falkland, a guerra Irã-Iraque e os fatos do Camboja e do Afeganistão são uma confirmação disso. […] (LEVI, 2016, p.66)

Figura 2. Primo Levi – New English Review.

Levi cobre uma série de eventos catastróficos que não se limitam àqueles vividos por ele mesmo nos campos de concentração. No Brasil não estamos apartados desses exemplos, (11/02/2021) em Alcântara, no Maranhão, cidade que se localiza a base de lançamento de foguetes da Força Aérea Brasileira, o presidente Bolsonaro se reuniu com militares em uma cerimônia de entrega de títulos de posse de Agricultores de Alcântara. Não é novidade que Bolsonaro não evita uma oportunidade de defender e exaltar a Ditadura Militar, nesse evento não foi diferente. Exaltou o passado ditatorial, elogiou os cinco presidentes generais, manifestou seu apreço pelo passado do regime.

Não é à toa que o presidente Bolsonaro e seu governo flerta com símbolos nazifascistas. Desde a caricatura tosca de Roberto Alvim (ex-secretário da Cultura) ao ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels até o grosseiro ex-Ministro da Educação, Abraham Weintraub que comparou a operação realizada pela PF (Polícia Federal) contra fake news à perseguição dos nazistas aos judeus.

Observamos que esses posicionamentos fascistas não se limitam ao governo, outros aliados de Bolsonaro, como a governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinehr também revelaram proximidade ao nazismo. Daniela é filha de Altair Reinehr um hitlerista convicto e negacionista do Holocausto. Seu pai também testemunhou a favor de Siegfried Ellwanger, proprietário de uma editora de edição de livros de cunho antissemita e negacionista.

A governadora (27/10/2020) se esquivou de perguntas dos jornalistas quando questionada se compactuava com pensamentos neonazistas e negacionistas do Holocausto, diz: “Eu respeito as pessoas independentemente de seu pensamento, respeito os direitos individuais e as liberdades. E qualquer regime que vai contra o que eu acredito, contra esses elementos, eu repudio”. A governadora não respondendo à pergunta dos jornalistas também não disse qual regime repudiaria.

Os acontecimentos aqui arrolados não são aqueles vividos pelos judeus na perseguição e nos campos de concentração. Porém, nos permite como leitores relacionar eventos distintos que anunciam discursos perigosos.

Levi na conclusão de seu livro comenta sobre a sua dificuldade de transmitir uma mensagem que se relacione com as pessoas do mundo contemporâneo. Ele escreveu em 1986 sobre os campos cinzentos e frios da Alta Silésia, em Auschwitz, no entanto, Levi ainda vivia na mesma casa em que nasceu (1919), em Turim, estava distante do acontecimento que viveu na juventude. Contudo não deixa de lembrar que: ‘‘Aconteceu, logo pode acontecer de novo: este é o ponto principal de tudo quanto temos a dizer.’’ (LEVI, 2016, p.164). Lendo Os afogados e os sobreviventes podemos conectar os comentários de Gina Carano e os flertes com o nazifascismo no Brasil. Levi escreve sobre um passado com os olhos atentos ao presente.

 

*Átila Fernandes dos Santos é mestrando em História pela UFG. Estuda Primo Levi e adora assistir uns filmes.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/6293886710246859

 

 

Referências

LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes. Tradução de Luiz Sérgio Henriques. 3º ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

 

 

 

 

 

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