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por Maria de Fátima Batista Vieira, especial para o LiceuOnline.

Esse é um texto simples, apenas provocativo. Intencionamos com ele simplesmente apresentar uma reflexão que talvez possa parecer pertinente há alguns, ou piegas para outros. Quando nos perguntamos: qual o sentido da vida? Ou a pergunta que tomou destaque no título: por que necessitamos de um sentido? São questionamentos cotidianos, mas que estão imersos em problemas filosóficos que marcaram nossa construção intelectual no Ocidente. Por que necessitamos de algo que nos preencha? Se mergulharmos na história da filosofia teremos respostas distintas. Mas segundo Ivan Domingues (1991, p. 352) podemos partir de um aspecto: “Ser da falta, o problema do homem é que ele queria ser deus, e os deuses não deixaram, castigando-o com a morte, a decadência do corpo, as doenças, e as penas do trabalho”. Esse trecho retirado de sua obra, O grau zero do conhecimento, ajuda-nos a entender uma singularidade fundamental na condição humana. Remete-nos ao problema da morte, ou melhor, da não aceitação da mesma.

Com o período clássico da filosófica (Sócrates, Platão e Aristóteles) identificamos uma cisão precisa entre mitos e logos, momento que o homem reconheceu-se enquanto ser independente de tudo aquilo que pertencia aos deuses. Mas, por outro, encontrou-se preso à morte, ou seja, a sua finitude. Essa cisão tornou o homem um ser incompleto, um ser de falta, um ser que necessitaria de um sentido para completar sua existência. Isso aproximou o homem da metafísica. Um grande marco na história da filosofia. Ela seria o instrumento ideal para a humanidade livrar-se da dor e o sofrimento da morte. Então, o principal confronto do homem é a sua própria característica finita. Ao assumir sua independência da mitologia, o logos viu-se obrigado a buscar constantemente entender suas atribuições e funcionalidades como valorativas para explicar o homem. Isso leva-nos a pensar: o uso do conhecimento metafísico seria um combate com a morte?

Já demos indícios da resposta. Se mergulharmos nos pensamentos de boa parte dos filósofos até o período moderno, a noção de um melhoramento ou uma redenção teleológica marcaram o uso da metafísica nas distintas visões filosóficas que apareceram no decorrer dos anos, desde o período clássico. Nesse período, a independência da razão atuou como a ponte para alcançar o plano inteligível (segundo a teoria das Ideias de Platão), e ultrapassar aquilo que pertencia ao corpo (entendido como finalidade e decadência). Assim, iniciou-se uma valorização dualista entre corpo (plano sensível) e alma (plano inteligível), priorizando a segunda por entendê-la como a parte humana guiada pela razão. O combate da metafísica foi o corpo (sensações, pulsações, impulsões), mas, ainda maior seria a sua finitude. Se partimos para a Idade Média, o valor metafísico se transferiu para Deus, enquanto aquele que guia o homem à redenção divina. Deus toma o lugar de independência do homem e o coloca como carne pecaminosa. O poder metafísico de Deus seria a Salvação da finitude humana. Com a modernidade a lógica continua, só que o papel que antes foi atribuído à uma teologia, transmutou-se para a ciência. Reconhecendo ser um percurso longo em que se observou mudanças e permanências distintas, utilizamos apenas para mostrar o quão longe a noção metafísica perpetuou, e ainda perpetua nos nossos modos de pensar aprendidos culturalmente. Mas algo em comum encontramos nos períodos, aquilo com o que iniciamos esta simples reflexão: o problema da incompletude do homem.

Tornamo-nos, habitualmente, seres teleológicos. Não é estranho Friedrich Nietzsche (1844-1900), um dos filósofos do século XIX que marcou o pensamento ocidental com sua aceitação e defesa da vida (através de suas imperfeições mundanas e finitas) expressar a metafísica como seu principal obstáculo a combater e superar, e, ao mesmo tempo, a considerar um dos mais difíceis hábitos ocidentais a ser desconstruído, por entender ser um hábito que desligou o homem da vida. Já que a metafísica não fundamenta-se numa ideia de presente, mas o futuro é a sua finalidade, a vida se perde numa busca naquilo que ainda estar por vim. E Nietzsche é, ao contrário, um filósofo entusiasta do viver o presente. A ideia de um outro mundo, segundo Nietzsche, partiu da capacidade de sonhar do homem. Por isso, a metafísica não passou de uma ilusão que ganhou um valor universal na cultura ocidental.

Autores como Nietzsche, Camus, Kierkegaard são pensadores que trilharam caminhos diferentes daqueles trazidos pelos princípios metafísicos. Eles trouxeram, de maneira singular, ideias que traziam a necessidade de aceitarmos a vida, naquilo de incompleta e imperfeita. Nietzsche propôs sua defesa da vida tendo por medida o viver o instante e aceitar a sua mobilidade (inspiração vinda da filosofia pré-clássica – tendo a forte influência de Heráclito). Trouxe a positivação dos instintos e forças como inseparáveis do homem, e como aquela que o torna homem (o que chamou pelo nome de Vontade de Potência). Combatente da tradição socrática/platônica que fundou-se epistemologicamente na dicotomia (corpo/alma). Insistiu em seus variados escritos na defesa e no valor da vida.

Albert Camus (1913-1960) foi um jornalista, filósofo e escritor francês que a partir de sua paixão pela literatura trouxe, em uma das suas principais obras intitulada O estrangeiro, uma noção que cerca seus escritos – a ideia de absurdo. Linha estética adotada pelo pensador que diz, que enquanto o homem tentar encontrar um sentido (tal como a metafísica projetou culturalmente) cairemos em contradições, pois o mesmo seria apenas uma utopia criada pelo homem. Para Camus, a vida não teria um sentido exterior, apenas aquilo de absurda, ou seja, contraditória. Quanto menos sentidos for atribuídos à vida, mas feliz viverá o homem, pois ele aceitará com liberdade sua condição humana, ou seja, sua imperfeição e incompletude.

Søren Aabye Kierkegaard (filósofo dinamarquês (1813-1855) foi um dos principais e primeiros pensadores ligados ao Existencialismo. No século XIX, seu pioneirismo em colocar questões existenciais como problemas filosóficos marcou seu modo de pensar. Na esteira dos autores anteriores, Kierkegaard também contribui para a crítica dessa tentativa de buscar um sentido metafísico para incompletude humana, na medida que coloca o homem como o definidor de sua própria existência, e não dependente de um conhecimento exterior. Em sua obra, O desespero humano, o dinamarquês expressa o desespero como um fator imaginário, que leva o homem a criar uma fantasia sobre si mesmo. O sentimento de desespero surge quando nos afastamos de nossa existência. Tendo em vista isso, o desespero da morte é o principal sinal de não aceitação da vida. Poderíamos trazer outros nomes como Franz Kafka, Fiódor Dostoiévski, Sartre que também contribuiriam nessa reflexão.

Os três nomes que trouxemos aqui nos levam a pensar numa aceitação da vida, dentro daquele sentimento de incompletude que a cisão entre logos e mitos causou, segundo a reflexão apontada por Domingues. Se somos seres da falta e incompletos, resta-nos aceitar nossa condição ou precisamos ainda de um sentido para preenchê-la? Longe de querer trazer respostas, mas sim deixar reflexões. Talvez essa seja a principal função do ato de filosofar. Objetivamos apenas mostrar o quanto esse questionamento é preenchido de uma carga filosófica que sustentou distintos modelos de pensamentos.

Então, finalizamos com dois questionamentos: devemos viver o agora (carpe diem), aceitando a imprevisibilidade da vida? Ou precisamos nos preencher com uma meta, uma teleologia, ou melhor, um sentido? Sua resposta guiará você (leitor) há lugares distintos. Se decidir guiar-se pela primeira, será uma vida suspensa aos erros e as incertezas, uma aceitação da condição humana enquanto incompleta, fluída e finita. A segunda trará um sentido de alívio, sustentação e preenchimento, pois a redenção e a esperança em algo melhor dará a sustentação necessária. Duas pontes que podem nos levar a entendimentos e a experiências díspares. Então surge uma pergunta: por que não buscamos equilibrar as duas pontes? Por que habitualmente fomos ensinados e cultuados fazer escolhas dicotômicas. Precisaríamos primeiro descontruir os dualismos que marcaram nossa tradição ocidental, para assim reconhecer o valor de balancear e equilibrar nossas escolhas.

Referências

CAMUS, Albert. O estrangeiro. Tradução: Valerie Rumjanek. Ed. 51ª. Rio de Janeiro: Record, 2020.

DOMINGUES, Ivan. O grau zero do conhecimentoproblema da fundamentação das ciências humanas. São Paulo: Loyola, 1991.

KIERKEGAARD, Søren. Diário de um sedutor; Temor e tremor; O desespero humano. São Paulo: Nova Cultura, 1988.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado Humano: um livro para espíritos livres. Tradução de Paulo César de Sousa. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Sobre o(a) Autor(a)

Maria de Fátima Batista Vieira

*Mestra em História pela Universidade Federal de Goiás, com interesses nas áreas História e Filosofia. Apreciadora da música e literatura. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5673998670554396
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